Arquivo de etiquetas: sem palavras

A cabana | Por: Inquilino 69 Letras

Os pés limpos no tapete de entrada,

cheiro a madeira de sândalo exalada,

como se tivesse sido sempre uma quente morada,

ao fundo uma lareira que crepitava ao som de lenha queimada.

Duas velas encimadas num castiçal dourado,

sonho imaginado, casacos despidos, lá fora um frio gelado,

numa cama, um edredão de penas, abraço consumado,

pele de animal em cobertor aconchegado.

Na mesa, morangos, papaia, manga e chantilly,

repasto de sabor doce, beijo agora e aqui,

com um dedo descai o soutien, quadro de Dali,

pintado com a boca, numa vontade louca de sabor a ti.

Uma grafonola antiga, talvez muitos sonhos de ser ainda rapariga,

dois corpos que se amam devagar, numa jarra, corpo de espiga,

teatro de sombra chinês, ás duas por três, no telhado que nos abriga,

confundem-se posições, gestos, uniões, nada que se diga.

Para quê falar ? Se dois corpos suados do cheiro de se amar em cama deitados,

voam para além do lugar, já não estão lá, mas no olhar fechado de um no outro,

entranha-se na pele, no pensamento delegado, raiz de cerejeira, mesa de cabeceira,

papoila, sossego em meu peito deitado, mão no ombro, descanso consolado.

Abalada de mão dada, um olhar para trás, porta de madeira fechada,

passos calmos na neve que se formou durante a madrugada,

sorrisos cúmplices de dois braços dados à desfolhada,

amor consumado, infinito prazer, face afagada, meu agradecimento, meu obrigada.

Sonho de cabana no bosque, amor, vida, sabor a mente apaziguada.

 

O Inquilino #69Letras

Que se desengane quem acha que só a lua tem várias faces, que o ser humano tem um só polo, uma só verdade e vontade.

b46c8e941210f5ed39c1f15f9c4f12d2.jpg

Fotografia: Via Pinterest

Que se desengane quem acha que só a lua tem várias faces, que o ser humano tem um só polo, uma só verdade e vontade.
Nós somos muitos, somos tantos condensados num só corpo.
Que se desengane o companheiro que acha que debaixo da esposa e mãe dedicada não existe uma mulher atrevida e aventureira tal como aquela colega de trabalho que tanto admira 《explora e incentiva a tua mulher》ou que aquele homem sempre tão seguro e tão certo não passa por momentos que o deixem tão triste e sem palavras.
Que se desengane quem acha que aquela mulher que explora a sua sensualidade e sexualidade não cora com timidez ou que aquele homem que explora a sua liberdade e delira com a libertinagem não sente com a alma.
Que se desengane quem pensa que aquela mulher sempre tão sensível e fragil não é também uma felina.
Presumimos que quem é de um jeito não pode ser de outro e como consequência ficamos surpresos com seus comportamentos.
Que se desengane quem acha que não somos como a lua: claros e ocultos, reveladores e misteriosos.

 

A Vizinha

Amar como se fossemos mudos

5efe551b2886819634836a4767a6cdb4

 

Fotografia: Eiki Mori

E se amassemos como se fossemos mudos? Sem palavras que nunca traduzem a imensidão do que sentimos, e usufruíssemos do pleno uso dos nossos cinco sentidos?
Amar sem palavras! Demonstrar com um olhar apaixonado, com um beijo cheio de paixão, um toque delicado, a respiração carregada de desejo e a audição atenta às palavras mudas do amor?
Palavras que não precisam de ser ditas, apenas sentidas.
Amar como se fossemos mudos. Sim! É isso!