Arquivo de etiquetas: saborosa

O Teu Perfume…

Senti…
Senti o teu perfume e fiquei sem jeito, sem palavras e sem reacção… Simplesmente deixei de falar, de pensar e fiquei imóvel… Ainda bem que ninguém reparou em mim nem na forma como te fiquei a olhar, pois naquele momento a minha imaginação voou para bem longe dali onde apenas nós os dois pertencemos aos meus mais devassos e sinceros pensamentos.

Queres saber por onde viajamos? Anda comigo, eu conto tudo!

Sem ninguém se aperceber fugimos entre a multidão de gente que nos rodeava naquele festival e por fim estávamos no Jardim da Virtudes. Com o Rio Douro à nossa frente ficamos imóveis e a contemplar a vista. As luzes brandas e ténues dos candeeiros permitiu um canto meio escondido onde dificilmente nos conseguiriam ver, onde a pouca luz que te insidia permitiu-me ficar imóvel a deslumbrar-te. Os teus cabelos escuros e encaracolados, o brilho dos teus olhos enquanto deslumbravas a bela paisagem, o teu sorriso aberto de felicidade por estarmos ali a sós e sossegados, onde preferes as palavras “Lindo, não é?”, ás quais eu respondo “Sim, és muito bela!” Coras, sorris e baixas a cabeça de vergonha. Suavemente com a meu dedo indicador te levanto o queixo, e te viro para mim. Abrindo suavemente a boca sustens a respiração, olhando-me fixamente. É impossível resistir aos teus lábios escarlate… Aproximo-me de ti e de imediato sinto um leve aroma maracujá que me conquista as narinas e me pára o raciocínio, a suavidade da tua pele é de uma doçura tal que não te resisto.. tenho que te beijar… Encosto os meus lábios aos teus e naquele momento sinto que devia te ter beijado à mais  tempo! Como és doce e saborosa! Os nossos lábios se alimentam e nossas línguas se cruzam com uma vontade extrema de não se largar! Coloco as minha mão nas tuas costas e ali sinto o toque da tua camisa azul. Desço até ao teu rabo firme, apertando com vigor, e daqui libertas um leve gemido. Com a outra mão seguro na tua face com carinho, passando com o polegar nos teus lábios… Deixas o teu pescoço à minha mercê e aqui sim, provo o sabor do maracujá na tua pele… Hum… És tão doce e maravilhosa… Não te consigo largar, parar de te beijar, de ter abraçar, e naquele momento só anseio sentir o relevo da tua lingerie preta nos meus lábios… Desaperto o botão da tua camisa e vou descendo os meus lábios até ao teu peito… “Não é pah?” Fico confuso… “Não verdade o que estou a dizer?” Onde estou? Ups… Fui interrompido pela pergunta do meu amigo e ali soube que estava a sonhar contigo… Oh, que pena.. Na despedida deste-me um beijo longo e suave na face, deixando-me arrepiado e de sorriso nos lábios… Fixei o teu aroma no meu pensamento e naquele momento soube que tenho que te voltar a ver…

© O Vizinho 2016 #69Letras

Espasmos no abismo líquido

received_1437130119645797

Ele está a dois passos de mim… Três segundos e me perdi no verde-outono daqueles olhos. No teu pecado ou no meu?

Sigo em frente, ouço passos firmes e rápidos. Ando na direção do meu porto seguro…ele vem à sombra da fumaça do seu cigarro. No corredor passo por quadros que retratam rostos disformes, mãos que buscam nudez de Gueixa. Cortinas esvoaçantes dançam ao ritmo da tarde. Olhos se cruzam no espelho. Ao passar para o 3° andar ouço sua respiração. As luzes do fim de tarde atravessam a escuridão do corredor. Paro em frente ao retângulo bege. Alguns anos, de puro capricho burocrático com a vida, caem ao chão. Atravesso o vão do templo da retidão. Não passo a chave. Olho para a  banheira. A espuma convida. Deixo cada peça de roupa deslizar pelo meu corpo, como que, seres com vida, entendessem,  essa, momentânea eu, deixando-me seguir para o livre arbítrio. Junto delas se esvai cada centímetro do protocolo protetor.

Ele fecha a porta. Sinto seu calor, seu cheiro. Sua respiração anuncia.  Arrepios fluem destemidos. Meus cabelos são soltos e caem na cintura presa entre dedos arbitrários. Ele me mantém assim, à sua vontade. A língua invade. Liberta fico em suas mãos. Nesse interagir sem diálogo, personagens sem nome, deslizo solta, levada à doce força para um prazeroso enredo.

Ecoam sons, reflexos de átomos atraídos. As respirações cadenciadas como orquestra sob entendida batuta. Meu corpo é levado sem pressa, tomado como quem senta em uma praça, solitariamente e absorve o frescor do outono, deliciando-se, vagarosamente, num sorvete de pistache. Segue assim, sorvendo cada poro. O ventre toma forma, lateja… Quer! O ar embriaga. Cria-se a arena. Não sei se sou o touro, o pano vermelho, o toureiro ou mesmo a poeira lançada depois de cada “Olê” elegante. Logo sou um leque, frenético e frágil, de alguém na arquibancada. Ele dentro, vida dentro. O gemido vem entre lábios. Vozes em sussurros. Sou levada para fora do tribunal da consciência. Para ele sou Clarice-Marta-Angelina-Janis-Fabiani-Bartira-Ágata-Scarlet, sendo domada. Dois corpos em espasmos. Derramo-me, leve e dormente, em seu aconchego.

Volto à vida com o suspiro que me é contumaz. Lembro do abismo líquido do tédio e de como é saborosa a perversão.

Sigo em frente, com meus devaneios, com meu café forte e amargo ao som de… Ne me quitte pas.

Fabiani Ruiz