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A casa | Texto escrito por: Inquilino 69 Letras

Esta semana uma amiga disse me sobre a mudança de casa, ” que não ficasse triste, porque são só coisas “. Pois bem, essas ” coisas “, têm para mim mais importância do que algumas pessoas. As ” coisas “, têm cheiro, têm memórias, têm paredes com choro, gritos, lavar de alma, corpo e até paladar têm. Foram nessas ” coisas ” que escrevi muito dos textos, que aqui publiquei, entre quatro paredes ou fora de quatro paredes, sentimentos. Uma casa tem história, tem vidas passadas e vidas presentes, tem memorias de pessoas presentes e ausentes, tem crescimentos, tem tudo o que fez parte da nossa vida durante determinado tempo.

Passei por diversos hotéis enquanto vivi nela e nunca um hotel por melhor que fosse me soube tão bem, como o cheiro do regresso a casa, ao aconchego da cama, a minha cama. Foram nestas janelas cheias de ” coisas ” que a vida lá fora, me trouxe cor e a transportei cá para dentro, as arvores, os risos, os abraços e os beijos, os recém casais, as gravidas, os bebés, as crianças os jovens e os adultos, tudo passou pela minha janela, a chuva, o vento, o sol que espreita logo pela manhã num bom dia, os temporais que adoro quando me assombram a janela do quarto e me deleitam a escrita numa revolta apressada, como se o mundo acabasse naquele momento. Uma casa compõe-se de nós, tem o nosso cunho pessoal, cresce connosco, acompanha nos no silencio e quebra-nos na solidão, faz nos companhia.

De todas as ” coisas ” que mais vou sentir falta é sem dúvida das recordações, quer boas ou quer más, estão lá, metidas entre quatro paredes, vou fazer o obséquio de as levar comigo porque ela deixa, mas um dia será como um rosto que se vai atenuando com o tempo, ficam réstias de rosto, os olhos talvez, ou talvez a boca, como uma porta ou uma janela. Serei o mesmo, mas não serei mais a ” coisa ” que invadiu aquelas quatro paredes. Vou ter saudades, das vozes que por lá passaram, dos convívios, das gargalhadas.

A vida é uma recordação ténue de uma série de ” coisas “, mas as ” coisas ” ficam, os corpos esses um dia serão ” coisas ” inertes.

Quem sabe um dia, se corpo será cinza e da cinza será casa, de  ” coisas cheias ” num retorno ao cheiro que outrora foi meu, gravado entre quatro paredes. Uma certeza apenas, como disse uma vez ” A saudade é um lugar com história ” e eu, já tenho saudades do meu lugar. 

O Inquilino #69Letras