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Correr

Correr rápido;

Tão rápido

Que, por muito que corram,

Nunca me irão apanhar.

Correr para longe;

Tão longe

Que, por muito longe que vão,

Nunca será suficiente.

Correr sozinha;

Tão só

Que, por muito que olhem,

Nunca verão mais ninguém.

Correr feliz;

Tão feliz

Que, por muito que tentem,

Nunca me vão magoar.

Correr triste;

Tão triste

Que, por muito que me doa,

Nunca irá acabar.

Correr livre;

Tão livre

Que, por muito que tentem,

Nunca me irão prender.

Correr com lágrimas;

Tão chorosas

Que, por muito que as sequem,

Nunca irão parar de cair.

Correr leve;

Tão leve

Que, por muitos pesos que tenha,

Nunca me conseguirão parar.

Correr rumo ao desconhecido;

Tão incerto

Que, por muito que me avisem,

Não me irão demover.

Correr por amor;

Tão apaixonada

Que, por muito que tentem,

Não te irão tirar do meu coração.

Correr por correr;

Tão bom

Que, por muito que me mandem parar,

Nunca pararei de correr.

Correr

Simplesmente correr.

© Fox 2017 #69Letras

…mais vida me dás.

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Faz um ano que desci o primeiro degrau da escada que me lançaste. Quem disse que subiria em direção ao céu e conheceria a paz dos anjos e a leveza das nuvens?
Esta escada leva o meu corpo na direção dos rochedos vulcânicos do inferno que te habita, e quanto mais a temperatura dos degraus aquece mais a ti pertenço. Estou a meio das escadas e o sangue já borbulha, a pele queima e se desfaz em suor e larva flamejante no meio das pernas. Quanto mais desço mais vida me dás, como se o teu caminho,
o da perdição fosse a minha salvação
a boca que me devora a liberdade,
as mãos que me tocam a fome que já não tinha
e o teu sexo o alimento que me rasga e me faz ser mulher.

A Vizinha

Todos os dias ela sussurrava o seu nome.

 

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Todos os dias ela sussurrava o seu nome. Todos.
Sentia a falta dele e por isso chamava-o, ele nunca mais voltou desde que partiu. Contudo ela nunca o largou ou deixou de amar, manteve-se fiel ao que sentia e aguardava infinitamente por ele. Aguardava sem hipótese alguma de regresso, mas sentia-se bem assim.
Deitou-se todas as noites vazia com o seu nome nos lábios, levantava-se de manhã com a cama vazia e percorrera tantas vezes o leito onde ele se deitava com as mãos a deslizar nos lençóis frios da ausência do corpo, depois vestia-se e misturava-se por entre a vida.
Só ela sabia do seu segredo, só ela sabia que o esperava. Para o mundo ela tinha seguido, afinal de contas ela sorria como se estivesse tudo bem, como se não sentisse dor e saudade, como se nunca tivesse perdido parte dela. Era boa nisso, tão boa que ninguém desconfiava que assim que metia a chave na porta de casa sangrava do peito e quase sufocava com o desespero. O banho acalmava-a, levava pelo ralo a revolta de não o ver nunca mais. Ela enxugava a pele e hidratava-a com novos pensamentos, mais leves e conformados. Resignada e ciente que não havia mais nada a fazer a não ser aguardar… esperar.
Todos os dias ela sussurrava o seu nome e desejava que ele a escutasse e soubesse que ela não o esquecera.

A Vizinha