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Entrevista com um submisso | Rúbrica: Conta-nos a tua história

Desde já agradeço a disponibilidade e confiança que me foi depositada, para relatar uma forma de vida paralela à nossa realidade.

Desconhecida por alguns, repugnada por outros.

Pessoalmente considero uma alternativa a explorar outro género de sexualidade.

Espero que esta entrevista seja esclarecedora.

Deixo-vos o relato de um submisso.

 

 

  • Como conheceu o Universo BDSM?

 

O Universo BDSM é vasto e abrange inúmeras vertentes de interacção entre pessoas totalmente diferentes que optam por seguir os caminhos mais variados dentro do que se designa como BDSM.

Para ser mais concreto por exemplo, quem como eu, dentro desta Filosofia de vida se interessa quase em exclusivo pela vertente da Dominação Feminina ou Femdom não poderia, como é óbvio, estar mais distante de todos os que pelo contrário têm fascínio pela submissão Feminina, e apreciam situações em que o homem domina, em contexto BDSM, Senhoras submissas.

Ou seja, BDSM é uma designação muito genérica que engloba imensos temas diferentes, por vezes mesmo antagónicos, mas existem também pontos comuns nas várias vertentes do Universo BDSM. Esta designação tem um reconhecimento e contribui para a criação de uma identidade própria positiva para quem a conhece melhor e para quem sente alguma curiosidade por este mundo, ainda considerado por tantos como algo de muito misterioso e enigmático.

Para se conhecerem melhor as várias vertentes do universo BDSM existem hoje, felizmente, várias fontes de informação interessantes, em português, incluindo o próprio blog 69Letras que também tem incluído nas suas publicações fantásticos artigos sobre esta opção de vida que a mim sempre pareceu super saudável, lógica e natural.

Como testemunho pessoal quem nos ler compreenderá assim que as minhas respostas sejam direccionadas para o que é a minha forma de estar neste Universo, numa perspectiva consequente de quem vive apenas o lado da Dominação Feminina e pratica esta Nobre Filosofia, enquanto submisso.

O encontro com a vertente Femdom do BDSM foi muito precoce, e nasceu de forma espontânea. Como tantos rapazes que se encontram na idade em que começam a intensificar a atracção pelo Sexo Feminino o meu fascínio pelo Sexo Forte foi-se ampliando com a percepção de como as Mulheres (à data em particular as Raparigas e Senhoras mais desenvoltas e seguras do seu Poder Magnético de Sedução) são Superiores aos homens em praticamente tudo o que importa, na Inteligência, na Beleza, na Sensibilidade, na Sedução, na Sociabilidade, na capacidade Mágica de espalharem Charme, Distinção e Calor à sua volta, sabendo Bem o efeito que provocam em quem não consegue resistir aos seus encantos.

Consolidando-se essa certeza e uma sempre crescente admiração pelo Sexo Feminino foi muito simples perceber como vem de tempos imemoriais a consciência do acréscimo de Beleza, Romantismo e Paz que se atinge quando o nosso coração e a nossa alma percebem qual pode ser o nosso papel submisso e masoquista, dedicado a uma Deusa que saiba como Deslumbrar também pela forma Arrogante, Autoritária, Cruel e Sádica como sabe usar e abusar de todos os que descobriram a Plenitude que só é possível atingir num contexto em que não há qualquer disputa de poder entre sexos.

 

  • Existem regras nessa prática? Quais?

 

As regras principais da Dominação Feminina, para os submissos, são a coerência e a consistência, um submisso não pode em situação alguma, ser indelicado com uma Senhora, e Deve, até que a Dona se farte dele (seja por que Razão for) e o escorrace dos seus Domínios, seguir paulatinamente uma via de sentido único que representará a sua Completa anulação enquanto criatura com “vontade própria” que exista fora do contexto em que se encontra, e o Triunfo Sublime da DONA que o oprime e usa de forma despótica para Satisfazer Todas as Suas Fantasias, Caprichos e Ideias mais “ousadas”.

 

 

  • O que o motivou à prática desse fetiche?

 

Fetiche é uma palavra muito interessante, bonita mesmo, e de origem portuguesa, mas que na sua génese designa a adoração quase religiosa de algo estranho, mas algo ser estranho é completamente relativo, sei que o que é estranho para mim para outros é perfeitamente normal, sei até que algo que é profundamente chocante para mim como o machismo, (em todas as suas vertentes), até para algumas Senhoras por vezes parece aceitável, portanto e perdoem-me a aparente contradição, em rigor sinto que é um “fetiche” totalmente esquisito um homem sentir-se bem, óptimo até, quando está sentado no sofá a ver televisão enquanto a Mulher trabalha, ou quando a Mulher fica em casa a cuidar dos filhos e ele vai encontrar-se com uma amante.

A Dominação Feminina não será, portanto em si, um fetiche, mas inclui o recurso a algumas das imagens e adereços mais famosos e magnéticos do Universo BDSM (os Chicotes, Corpetes e Botas de cano alto e Salto Agulha das Dominadoras), bem como as algemas e mordaças que os submissos têm muitas vezes de usar, e estes acessórios e o que com eles se faz é generalizadamente considerado como práticas fetichistas. O que me motiva e a tantas outras Dominadoras e submissos adorar entrar nessa espiral de acções intensas é um tema interessantíssimo para o qual em rigor seria necessário dar uma resposta bem mais longa, certo para mim é que nada terá a ver com traumas de infância ou outras explicações de psicologia simplista. O uso do chicote simboliza muito mais que uma prática fetichista, quantas pessoas não usam esta alusão noutros contextos, com um grande gozo? Todos têm traumas? E os Saltos altos agulha que são quase universalmente considerados como um expoente de Feminilidade? Todos os que sentem um arrepio com a Elegância de uma Senhora Elegante que os use são perversos?

O fundo psicológico e o jogo de aprofundamento da subserviência de um submisso são campos de Diversão e Fonte de Prazer praticamente ilimitado para quem gosta de expandir com Requinte e Sofisticação a Dominação Feminina para práticas criativas. O BDSM atrai há vários anos alguns dos mais influentes criadores contemporâneos que adoptam sinais, conceitos e o estilo mais rapidamente identificado com este Universo nas suas produções, levando esta linguagem para fora da comunidade dos adeptos do BDSM, e em simultâneo contribuindo para enriquecer com a sua visão inovadora e desafiadora o património já consolidado das bases Femdom que em larga medida estruturam alguns pontos-chave da nossa cultura, com o cavalheirismo como plataforma mínima, mas que tantas vezes prossegue muito para lá da atitude de deferência e veneração que o Sexo Forte Impõe de imediato.

 

  • Como foi a sua primeira experiência?

 

A minha primeira experiência foi no final da adolescência, quando finalmente tive coragem para expor o que penso a uma Namorada com quem tinha iniciado uma relação em que mais uma vez a Dominação Feminina não estava presente, senti que a Namorada podia ter interesse por este Universo e pouco a pouco fui tentando sugerir que o relacionamento ganhasse contornos em que progressivamente a Dominação Feminina se tornasse a essência da relação, Felizmente com Bastante Sucesso, um pouco à imagem do que sucede na Obra-prima Total da Literatura Femdom, o Livro “A Vénus das Peles” de Leopold von Sacher Masoch, autor que pelo conjunto do seu trabalho estabeleceu as bases “modernas” do masoquismo masculino, (termo que tem origem no próprio apelido deste notável escritor).

Recordo com Enorme Emoção a forma espontânea, mas bem consciente do seu significado, como decorreu a entrega do submisso, a sua consagração inebriante à Veneração da Fantástica Dominadora que se revelou ao dedicado e apaixonado submisso em Todo o Seu Jovem Esplendor e Requinte de Malvadez. Aliás continua hoje a impressionar imenso este submisso o Grau de Sublime Ousadia com que uma Deusa Dominadora Gere uma relação deste tipo, como revela Capacidades e Qualidades Brutais para tornar algo que começa quase como uma aventura numa experiência inesquecível, em que DONA e escravo consolidam sentimentos de uma Pureza e Intensidade Únicos.

 

  • Como é ser-se submisso?

 

Ser submisso é ter a Honra Enorme de poder assistir de Muito Próximo à Afirmação de uma Senhora Superior que sabe Apropriar-se Muito Bem de Tudo o que de Melhor a Vida lhe pode Oferecer.

Ser submisso é estar preso, amarrado, controlado e Totalmente condicionado e dependente da Personalidade da Dona, mas ter a sorte de poder fazer-se esta entrega voluntária e ilimitada não significa que se perde qualquer possibilidade de viver com intensidade, antes pelo contrário, a um submisso é concedido um pequeno espaço em que se pode manifestar, no estrito quadro, que de há muito é conhecido, de procura da Perfeição no acto de ser capaz, útil e produtivo a Executar as Ordens da Dona, a antecipar os seus Desejos, a propor com humildade e subserviência Completas novas formas de Servir a Dona.

 

  • Que tipo de prazer tira dessa relação Dominadora/submisso?

 

O único Prazer do submisso é constatar como a Dona é Feliz, Feliz de Forma Plena, Sustentada e Constante, porque poder conhecer em profundidade a Dimensão e Magnificência do Ego da Dona, o Patamar Superior em que aos Mais Variados Níveis está enche de orgulho (um submisso por muita vergonha que tenha deve confessá-lo) quem está exclusivamente centrado nesse objectivo Magnífico.

Decorre desse processo a inevitabilidade de o submisso sofrer, pois nada se obtém sem educação e trabalho, e é precisamente para trabalhar sem hesitações nem cansaços, nem lamentos, que o submisso é educado de forma Impiedosa pela Dona, deleitando-se a Dominadora em constantemente evidenciar na frente do submisso esta inevitabilidade, esta relação directa que existe entre exploração desenfreada do submisso e o aumento do Grau em que são atingidos os Objectivos cada dia mais Vistosos da Dona.

 

  • De tudo o que envolve o BDSM, você pratica todas as áreas ou só algumas?

 

Apenas na área da Dominação Feminina há algumas práticas mais extremas que este submisso ainda não experimentou, por várias razões, mas o universo Femdom em que o submisso se enquadra tem na sua raiz acções quotidianas tão elementares como executar Todas as Tarefas Domésticas, Sem Excepção, pois a Dominadora jamais poderia perder um minuto que fosse do seu Precioso tempo com este tipo de actividades, até porque ir às Compras, ao Cinema, a Festas e Jantar Fora com as Amigas, as horas de Ginásio, Spa e Cabeleireiro, as Férias e Fins-de-semana com Namoradas e “amantes” mais ou menos temporários deixam até pouco tempo livre para Controlar e Fiscalizar todos os trabalhos a que o submisso se tem de dedicar com esmero logo que chega a casa, vindo do emprego.

A Dominação Feminina está também em regra associada a um conjunto de princípios muito claros no campo da sexualidade, que assenta, como nas suas várias outras componentes, na Exclusividade de Direitos de quem Domina e na continuidade da repressão dos instintos “sexuais” impróprios e lamentáveis de um submisso.

A castidade masculina forçada torna-se portanto muitas vezes numa inevitabilidade permanente, e em mais uma forma de condicionar e humilhar de forma extrema tanto física como psicologicamente o submisso. Os devaneios eróticos de um submisso são estimulados tanto quanto possível, de forma o mais provocatória que se consiga conceber e o estado de ansiedade contínua em que o submisso fica, a sua arrasadora frustração permanente são uma arma extra que a Dona usa para manietar e ridicularizar o submisso, extraindo desse desespero as últimas réstias de “masculinidade” primária e bárbara que têm de ser direccionadas para comportamentos efectivamente valiosos para a Dona.

A oposta e Divina Liberalidade da Vida Sexual da Dona do submisso tanto pode passar pela utilização, sem qualquer tipo de compaixão, do sempre disponível submisso para Satisfazer a Dona quando e onde lhe apetecer, de mil e uma maneiras, (mas nunca permitindo que o submisso obtenha qualquer tipo de satisfação), como pelo reforço do rebaixamento do submisso em relação a outros submissos que possam pertencer à Dona, preferindo-os para este fim em detrimento do submisso, como ainda permitindo que o submisso, em posições degradantes, possa vislumbrar a Dona a Divertir-se Imenso com outras Amigas Dominadoras ou até a partilhar com o submisso experiências sexuais com outros Homens bem menos submissos.

 

  • Pode existir algum sentimento entre os dois?

 

Sentimentos não faltam num acordo entre um submisso e a Dona, outros sentimentos diferentes daqueles que a pergunta pretenderá referir que serão os de reciprocidade e companheirismo numa relação menos profunda.

A cumplicidade numa relação entre Dominadora e submisso é ímpar, ambos têm a consciência do grau Completo de Confiança (um tipo muito especial de confiança, é certo) que tem de existir enquanto durar o interesse da Dona pelo submisso, ambos têm de estar certos que jamais se mudarão as regras base, e que a única saída é quando o submisso é pontapeado para fora da Vida da Dona.

Os sentimentos que o submisso nutre pela Dona já terão sido razoavelmente descritos nas perguntas anteriores, a Mais Arrebatadora Paixão e o Amor mais Radical que se possa imaginar são a fonte de energia inesgotável do submisso, mas o escravo sabe também bem quais são os Sentimentos da Dona para com aquele que lhe pertence, antes do mais o desprezo mais atroz, justo e legítimo, matizado com a irritação por o submisso estar Sempre aquém do que a Dona dele espera, apesar de a Dona ter de se manter Motivada por acreditar (com base nas provas anteriores dadas pelo submisso) que o escravo ainda conseguirá dar-lhe Muito Mais, que no mínimo conseguirá superar-se muito para lá do que já conseguiu proporcionar à Dona.

 

  • O BDSM teve alguma implicação a nível pessoal e profissional? Estes dois mundos podem coexistir ou colidem?

 

Viver a Dominação Feminina com muita dedicação pode e deve coexistir de forma minimamente tranquila com a ocupação profissional do submisso, mas este nunca pode ser um território em que a condição de submisso esteja ausente, são muitos os rituais e sinais que ao longo de um dia de trabalho regular podem marcar a condição de submisso e a sua inequívoca e indelével ligação de propriedade com a Dona que Tem Todo o Poder para Controlar Tudo o que o submisso faz. Uma Dominadora Sabe a Qualquer hora como Estimular qualquer tipo de estado de espírito no submisso, incluindo embaraçá-lo subtilmente perante os colegas e principalmente perante as Senhoras que com ele poderão trabalhar.

A um nível pessoal ser submisso significa abdicar com coragem e determinação da vida pessoal, mesmo os relacionamentos familiares ficam reduzidos ao estritamente necessário pois todo o tempo de um submisso é pouco para conseguir Servir Como Deve Ser a Dona, e não há nunca qualquer tipo de transigência com factores que se tornam quase irrelevantes perante a Magnitude da Missão a que o submisso se Dedica de Corpo e Alma.

 

 

  • Que peso poderia ter, se algum dia se apaixonasse? Revelaria à sua companheira, o seu fetiche?

 

Um submisso é a criatura mais apaixonada que se pode imaginar à face da Terra, a pergunta parece perspectivar a possibilidade de um submisso algum dia sentir uma inquietação em relação à sua condição de vassalo da Dona, e poder ter uma queda num mundo em que a Dominação Feminina não esteja presente, ou seja que o submisso tentasse fugir do Controlo da Dona, a traísse e se apaixonasse por uma Mulher que não tenha nenhuma relação com o Universo Femdom.

De facto esta é uma pergunta a que este submisso não sabe responder, o medo de algo de tão catastrófico poder suceder bloqueia o meu pensamento, e a segunda pergunta ainda mais assustadora é, que dilema terrível, com o qual nem nos meus piores pesadelos imagino que possa vir a ser confrontado.

 

 

Entrevistadora: Lola

Entrevistado: José Maria

#69Letras


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