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Só me apetece desaparecer

Estou num daqueles dias que só me apetece desaparecer.
Ir até uma praia deserta.
Sentir a areia nos pés e um vento leve na cara.
Sentar-me e desligar de tudo.
Hoje estou assim – a precisar do meu cantinho para esquecer tudo e desaparecer por um tempo.
Poder sentir o mar no meu corpo assim como o cheiro.
Poder dar um mergulho e lavar todas as mágoas e tristezas.
Quero gritar, chorar e sorrir como uma perdida.
Hoje estou a precisar.

Peregrinus #69Letras

… nadou mas em nenhum porto atracou!

Percorreu o mundo numa fome incessante, saltou de cama em cama, conheceu Freya e derreteu-se com o canto de uma sereia, confundiu casas de alterne com oásis e viu-se perdido num deserto sem fim. Conheceu e cometeu o pecado, se era proibido ele estava a favor, a alma era curiosa e o diabo tentador. Dizia-se livre e abusava dessa pretensão, voou e nadou mas em nenhum porto atracou. Vagueava cruelmente pela noite dentro cego pelo pecado nunca percebeu o que procurava, Becos, portas, bebidas espalhadas no chão, passos cheios de escuridão, arrastava-se de sombra em sombra e só parava quando aquele sorriso maldoso encontrava algo que o atraísse e aí atacava, dilacerava a carne e partia… se estava encoberto ele vilãmente rasgava tudo onde tocava. Selvagem e perdido nunca percebeu a falta que ela lhe fazia, continuou a vaguear… mas afinal não era assim tão livre.

© ?Cátia Teixeira, Vizinha 69 Letras 2017

Amo-te como se ama a primavera

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O mundo flui quando me escreves. Desenvolta a paixão que do meu coração brota, como se de uma amalgama de destroços, os reconstruisses fazendo a mais bela essência que me nutre o viver.
Tu és as Rosas que pululam livremente entre Narcisos e Jasmim num jardim oriental que para lá do sol posto, nascem da terra fértil que te faz viver para mim.
Contigo o tempo pára para escutar o meu coração batendo apressadamente na vontade de te querer.
Não consigo imaginar sem te ter, porque simplesmente os cactos floridos num deserto que mais deserto que seja obedece á mãe natureza numa benção ao sol que nele se insere, e mesmo na ausência o sol está sempre presente.
Quando te conheci, não imaginava quanta beleza contens em teu corpo esguio de dançarina esvoaçante que me atordoa o pensamento e a imaginação.
O mundo é grande infelizmente, porque te queria perto, não perto em pensamento porque isso tu estás sempre, mas perto em corpo, para fazer de ti a árvore da vida que brotando em magotes me encheria de amor.
Quando calcorreias a rua nesse teu passo apressado, as pedras pedem desculpa por ter a gentileza e a magnificência de poderem beijar teus pés.
Quando caminhas deixas teu cheiro no ar, curvando arbustos e flores que coram de vergonha perante a tua ágil e forte certeza de seres mais bela que elas.
Tu és o mundo que gira intensamente e dá corda aos relógios da torre mais alta, entre sinos anunciando a tua chegada.
Teus olhos são a virtude de viver e através deles fotografas cada momento de memórias soltas que passeias livremente pelos olhos de outros , como se filmasses tudo em teu redor e focasses a vida de seres quem és.
Olhos diáfanos como se todos ficassem cegos e se sentissem menos seres ao olhar-te de frente, porque a luz que deles irradias reflecte o estado da alma que purifica o negro da vida.
As tuas mãos soltas caminham entre o vento, brincando na forma de transformar a rebeldia do mesmo e formando palavras entre os dedos esguios, numa escrita de pena arcaica num livro agitado pelas folhas soltas da lombada.
Teu corpo é uma flor, aberta colorida, num arco iris multifacetado sendo que das sete cores crias um pantone de cores multiplas, fazendo redopios de primavera em tudo o que é espaço.
Amo-te como se ama a primavera perpétuamente, e nesse imaginário todo, quando me deito, deito contigo e fico a sonhar de olhos abertos á espera que me dês a mão e sossegues o desassossego que me assola a mente.

O Inquilino

?A vizinha #69Letras