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Fome! Sem vergonha mas sim orgulho!

Lembro-me bem. Ainda sinto no estômago quando se fala nisso na televisão.

Passei fome!

 

Tenho perfeita consciência do peso destas palavras nada elegantes mas que tanto marcam e modelam consciências. Nunca o escondi mas vejo a vergonha estampada no rosto de quem ouve. O horror…

Sim, foram outros tempos! Mas as crianças de outrora, adultos agora, seriam motivo de vergonha ou chacota? Será que teriam sido culpadas e merecedoras do flagelo pelo qual passaram? Castigo mais que justificado porque… os tempos eram outros. Não…

São os olhos de agora que destrocem a dureza da vida pelo que melhor entendem. É mais fácil virar a cara, apontar o dedo e NADA FAZER!

Porque dá trabalho entender e identificar o problema. É incomodo estender a mão, podem arrancar-nos os nossos bens preciosos dos braços. E se aquela ou outra criança passa fome, é responsabilidade de outros! Os outros que cuidem! Os outros que se preocupem, que eu cá não!

Vergonha!

 

Dão-me nojo! Como se pode classificar um ser humano em sub categorias! Tu mereces comer! Tu ,não! Porque os teus pais não trabalham ou são malandros! TU NÃO!

Enquanto vos escrevo, lágrimas escorrem-me pela face abaixo. Não pelo que eu sofria a ouvir estas palavras mas pela minha impotência da altura perante injustiça e falta de carácter de certos adultos.

Não culpo meus pais! Também eles, duma maneira ou outra, foram vitimas da cruel cadeia da sociedade. Eles estavam na base, na ralé. E no entanto tinham atos gigantescos em deixar de comer o pouco que tinham para alimentar a criança.

Sim, passei fome. E se me orgulho disso! Porque vivi no baixo da sociedade e agora me valho disso. Porque aprendi, absorvi cada gota de crueldade e cuspi para o chão sem afetar ninguém. Sofri e cresci com cada dor, lágrima e pontapé no rabo! Ai esses pontapés no rabo! Empurraram-me para frente! Em rumo à mulher que sou hoje. A mãe que hoje sou, o ser humano numa sociedade não menos podre que a de outrora. Onde a fome continua a existir! Esconde-se melhor.

Sim, nem sempre tive de comer. Passei fome.  E agora não. Nem os meus filhos. Mas respeito cada pedaço de pão que coloco na mesa. Dói-me o coração e evito mesmo a todo custo, deitar comida fora ou desperdiçar. Porque me lembro, porque aprendi a dar valor a ter uma mesa completa com tudo o que nos é necessário para viver, nada de mesas fartas com excessos de comida para mandar à cara das visitas. Porque com comida, as mentes fracas também mandam mensagens… entrelinhas.

Um dos meus filhos come pouco. Deixa sempre restos no prato. E lá ficam, até que eu peça para ele se lembrar dos outros meninos. Os que não têm nada para comer. Os que nem família têm para se preocupar com ele como nós. E aí ,ele esforça-se. Mal sabe ele, e graças a deus, o sabor da fome. Mas sabe dar valor. Porque a mamã dele fala com dor dos outros meninos que não têm acesso ao que ele por preguiça recusa. A comida. A família unida e preocupada uns com os outros.

Não somos ricos. mas os meus filhos têm a maior riqueza que eu alguma vez desejei para eles. Uma consciência.

O meu testemunho para o mundo, está nos meus filhos com estruturas para serem membros uteis da sociedade.

Sim passei fome. E não me esqueço. Acarinho até essa memória, a dor e lição.

 

©Miss Steel 69letras 2017

 


 

Minha casa cheira a gargalhadas

Sei que parece difícil de acreditar mas cheira mesmo. Infelizmente também só reparei nisso à pouco tempo, eu própria. 

Num daqueles dias em que nada nos corre bem e passamos o tempo todo a tropeçar nos nossos próprios pés. 

Ao entrar porta de casa adentro, sinto um aroma adocicado no ar. Depois de inspirar duas ou três vezes seguidas bem fundo  chego à conclusão que se trata de uma essência bem característica e procurada por muitos. 

Amor incondicional. 

Quatro braços abertos esticados em minha direcção, cheios de nada mais que amor  verdadeiro e incondicional. 

Enquanto a minha mala e o meu casaco caem ao chão, assim como toda a carga dum dia negativo, recarrego a bateria com todo um karma divino. 

Por escassos segundos vislumbro o céu. 

Paraíso é pouco para descrever o nirvana que me envolve. 

Posso não fazer diferença para mais ninguém mas para estes dois reguilas, sou rainha! 

Meu coração bate ao ritmo de suas vidas! Seres do meu ser. Âmago dos meus sentidos. 

Como amo ser vossa mãe, uma honra. 

Por vocês, com vocês tudo faz sentido. 

Amo-vos daqui até à lua! E mais duas voltas… 

©Miss Steel 69letras 2017

Utopia…

E se a vida fosse um sonho, o que desejo, a utopia, o mundo seria perfeito, ninguém poria defeito, mas este meu sonhar, é difícil de realizar, nem com paço de magia, neste mundo desfeito, onde se ignora todo o direito, de sonhar com a fantasia.

Seria um mundo de cores, de cheiros e sabores, as crianças seriam felizes, duma sociedade perfeita aprendizes, um idílio de amores, não esta paz tão podre, que oculta inúmeras dores, aprendiam a viver de verdade, numa perfeita harmonia, neste mundo de utopia, e seriam talvez felizes.

Mas não passa de uma quimera, uma esperança impossível de realizar, que resulta da imaginação, da vontade do coração, de um mundo perfeito criar, que nem mesmo por devoção, por poderosa magia, ou por acto de feitiçaria, iremos conseguir alcançar.

Miss Kitty #69Letras

Vou te deixar…

Vou te deixar, não sei se por breves instantes,
porque o tempo quando se deixa é tão mas tão relativo,
que a vida que pensamos deter em mãos igualmente semelhantes,
bombeia numa velocidade tal que a saudade não é mais que um adeus furtivo.
Constroem se casas pelos alicerces, sobrantes dos despojos passados,
edificam se campos inférteis em que nascem plantas austeras,
soçobram pontes virtuais em ervas daninhas de quintais esfumados,
e o corvo imita vozes de paisagens e sonhos que não passam de quimeras.
Gostava de te poder dizer que não te sinto,
que a vida não e mais do que um canto de ópera audível,
que o riso das crianças no parque é o meu riso sucinto,
que a nascente de agua, é sede de teu corpo sensível.
Mas não digo, não sei até, se o amanhã será hoje,
ou até o agora, que passa num piscar de olhos em volta de mim,
que os segundos em que te encolhes no frio da noite que me foge,
ou a manhã que nasce, e que me recolhe no meu fato de cetim.
Vou vestir uma gravata de saudade, e na lapela levar o teu cheiro pendurado,
em meus bolsos recados penteados em folhas de cartão com teus poemas e versos,
na minha carteira a imagem de teu rosto num peito de coração marcado,
pelo vida que não deixas viver nesta saudade de efeitos diversos.
Vou te deixar, não sei se por breves instantes,
deixo te a janela aberta, para te puderes debruçar,
deixo te toda a lua cheia e todos os quartos minguantes,
e as marés que trazem cores vivas das anémonas do mar.
Segura te com as mãos em minha vida de imagem secreta,
sentindo que aquilo que trago por mais vantagem em teu peito descoberto,
é ser teu jeito, tua marca na cama em leito de nossa vontade escondida e aberta,
de um dia voltar e nesta saudade de não ficar, ser teu poema quente de livro aberto.
Vou voltar, espero que em tempo marcado e viagem tomada,
espero que em lugar sentado e descanso de tua casa de silencio,
ouvir da tua boca que a saudade que tenho não e maior do que a da tua boca calada,
e sentir que volto, no teu sorriso para o um lugar que ainda pertenço.