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A minha opinião sobre o casamento é a seguinte: acho o casamento uma coisa revoltante!

A Única Coisa que Desculpa o Casamento é o Amor

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Na carta que lhe escrevi dava-lhe, como me tinha pedido, a minha opinião sobre o casamento. É a seguinte: acho o casamento uma coisa revoltante! E isto por uma única razão mas que para mim é tudo, para mim e para aquelas mulheres que não são apenas fêmeas, para todas as delicadas, para todas as que têm pudor, espírito e consciência. Essa razão é a posse, essa suprema e grande lei da Natureza que, no entanto, revolta tudo quanto eu tenho de delicado e bom no íntimo da minha alma. Ganha-se um amigo muitas vezes, é certo; um amigo que às vezes é o nosso supremo amparo, mas em compensação quantas revoltas, quantas mágoas, quantas desilusões! Quantas!… A minha querida faz bem, faz muito bem em não se querer sujeitar ao mercado, à venda. Eu casei e casei por amor. É a única coisa que desculpa, no meu entender, o casamento, porque do contrário, quando nele apenas entram o interesse e a ambição, revolta-me e indigna-me.

Texto: Florbela Espanca

Fotografia: Via pinterest

Johannesburg, 30 de Março de 2016

Desculpa só hoje te escrever, esta minha ausência forçada,
não se deveu a mais nada, do que andar perdido, meio baralhado,
estas horas de voos em escalas tramadas e ainda meio a tremer,
pelas horas prolongadas, que viajo sentado á janela imaginando te a meu lado.
Aterrei agora e no cais de desembarque olhei diversas vezes a ver se vinhas,
se tinhas perdido o medo de voar, encolhida nessa tua estatura de mulher,
imagens minhas do teu vestido a roçar a minha pele num ataque,
á minha mão que trémula não se adapta a viajar sem ter a tua perna onde pousar.
Não parei na cidade, não me apetecia caminhar no meio da confusão,
de cores e sentidos apinhados, uma cidade afroeuropeia de gente cheia,
de ilusão, acorrentada contínua e gestos apagados triste de emoção,
e sai procurando a paixão do Kruger como tu belo na sua imensidão.
Amei saber que podias estar a minha beira, ser parte da natureza que me rodeia,
selvagem como teu corpo, cheiro a lua cheia e urros de liberdade em paisagem alheia,
saber que podíamos também ser nós animais á solta, num sexo desenfreado, eu leão e tu leoa em pecado,
unhas cravadas em acácias em flor, e adormecer ao ar livre satisfeitos, ouvindo a natureza no seu esplendor.
Adormeci mais uma vez a olhar para ti, nesse retrato em que danças, como uma flor frágil ao vento,
e sem demoras ou contento, voltei a partir, estar selváticamente sem te poder sentir,
traz me um amargo tal, que não existe cheiro, na vida animal, que me acorde deste torpor, deste repartir de dor,
que me aquiete e assim decidi ir ver o mar, beber a agua salgada da Cidade do Cabo, beber do teu sabor,
subir á Table Mountain e ficar ali apenas a sonhar, que te via, sobre a cidade voar em meus braços,
corações unidos por dois traços no céu, teu rosto de Deusa coberto por um véu de linho,
escondendo teus lábios porque gosto, e tenho decorado o caminho e mergulhar sem vir á tona,
suspendendo o respirar, como se da tua boca sorvesse todo o ar, essencial á vida que adivinho.
Vou esperar mais uma vez pelo teu calor, sentar me a beira da agua e aqui ficar,
olhando as baleias e os pinguins a namorar, imaginando te sentada em meu lugar,
meus braços a tua volta e o som do mar a acompanhar, tuas mãos no colo a sofregar,
por poderes despir te e assim os dois desprovidos de roupas, mergulhamos no azul do cruzamento de dois oceanos,
envoltos em vagas entro em ti , tal qual sereia que vai a banhos tomas corpo e alma que despi,
e tal como um lobo do mar, numa voz rouca, te digo vem quando vieres, eu espero por ti aqui ao luar.
Vem com a vontade selvagem e coragem que tens de saber A mar…

O Inquilino #69Letras

Carta ao Pai Natal

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Querido Pai Natal,

Escrevo-te esta carta sentada debaixo da minha arvore de natal, as luzes piscam e as bolas vermelhas e douradas espelham as silhuetas do mobiliário disposto nesta sala silenciosa.
Esta é a primeira carta que te escrevo, nem sei por onde começar, mas sei que presenteias quem se portou bem durante o ano.

#GoodGirl or #ABadGirl ?

Querido Pai Natal, a verdade é que não sou um exemplo a seguir mas a boa notícia é que não sou mal comportada todos os dias…depende dos dias da luz que me toca ou da noite que me envolve. Não adianta esconder nada tu tens forma de saber estas coisas, tu sabes que sou uma pecadora, que padeço de tórridos pensamentos noite e dia numa louca obsessão por aquele que ocupa o meu coração, mas também sabes que não os cometo mas por isso poderei eu ser uma menina bem comportada?
Possivelmente não. Defraudo-me. Privo-me de sentir e ser feliz, fujo de quem é o meu sorriso, ao meu coração não dou alento e ao corpo alimento. Sou uma fraude, vivo de palavras e desejos reprimidos, sigo uma dieta rica em pensamentos e carente da verdade, os meus pés não se movem paralisados de medo, passa o tempo muda o ano mas o que sinto por ele não se modifica nem arrefece… ardo em lume brando sonhando pelo dia em que ele me tornará a levantar a fervura.
O mal que me faço é o mesmo em que ele vive, impedido de mim deambula de corpo em corpo insatisfeito em busca da luz com que o iluminei e encheu de inspiração…

Querido Pai Natal,
Atende este meu humilde pedido e dá-me coragem para ir em busca da felicidade que só os braços dele carrega.
Querido Pai Natal se fores à procura da carta que o meu amor te escreveu verás que os nossos desejos se casam.
Ajuda-me a ser corajosa e ser neste Natal o presente de alguém.

A Vizinha