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Johannesburg, 30 de Março de 2016

Desculpa só hoje te escrever, esta minha ausência forçada,
não se deveu a mais nada, do que andar perdido, meio baralhado,
estas horas de voos em escalas tramadas e ainda meio a tremer,
pelas horas prolongadas, que viajo sentado á janela imaginando te a meu lado.
Aterrei agora e no cais de desembarque olhei diversas vezes a ver se vinhas,
se tinhas perdido o medo de voar, encolhida nessa tua estatura de mulher,
imagens minhas do teu vestido a roçar a minha pele num ataque,
á minha mão que trémula não se adapta a viajar sem ter a tua perna onde pousar.
Não parei na cidade, não me apetecia caminhar no meio da confusão,
de cores e sentidos apinhados, uma cidade afroeuropeia de gente cheia,
de ilusão, acorrentada contínua e gestos apagados triste de emoção,
e sai procurando a paixão do Kruger como tu belo na sua imensidão.
Amei saber que podias estar a minha beira, ser parte da natureza que me rodeia,
selvagem como teu corpo, cheiro a lua cheia e urros de liberdade em paisagem alheia,
saber que podíamos também ser nós animais á solta, num sexo desenfreado, eu leão e tu leoa em pecado,
unhas cravadas em acácias em flor, e adormecer ao ar livre satisfeitos, ouvindo a natureza no seu esplendor.
Adormeci mais uma vez a olhar para ti, nesse retrato em que danças, como uma flor frágil ao vento,
e sem demoras ou contento, voltei a partir, estar selváticamente sem te poder sentir,
traz me um amargo tal, que não existe cheiro, na vida animal, que me acorde deste torpor, deste repartir de dor,
que me aquiete e assim decidi ir ver o mar, beber a agua salgada da Cidade do Cabo, beber do teu sabor,
subir á Table Mountain e ficar ali apenas a sonhar, que te via, sobre a cidade voar em meus braços,
corações unidos por dois traços no céu, teu rosto de Deusa coberto por um véu de linho,
escondendo teus lábios porque gosto, e tenho decorado o caminho e mergulhar sem vir á tona,
suspendendo o respirar, como se da tua boca sorvesse todo o ar, essencial á vida que adivinho.
Vou esperar mais uma vez pelo teu calor, sentar me a beira da agua e aqui ficar,
olhando as baleias e os pinguins a namorar, imaginando te sentada em meu lugar,
meus braços a tua volta e o som do mar a acompanhar, tuas mãos no colo a sofregar,
por poderes despir te e assim os dois desprovidos de roupas, mergulhamos no azul do cruzamento de dois oceanos,
envoltos em vagas entro em ti , tal qual sereia que vai a banhos tomas corpo e alma que despi,
e tal como um lobo do mar, numa voz rouca, te digo vem quando vieres, eu espero por ti aqui ao luar.
Vem com a vontade selvagem e coragem que tens de saber A mar…

O Inquilino #69Letras