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Entrevista com um submisso | Rúbrica: Conta-nos a tua história

Desde já agradeço a disponibilidade e confiança que me foi depositada, para relatar uma forma de vida paralela à nossa realidade.

Desconhecida por alguns, repugnada por outros.

Pessoalmente considero uma alternativa a explorar outro género de sexualidade.

Espero que esta entrevista seja esclarecedora.

Deixo-vos o relato de um submisso.

 

 

  • Como conheceu o Universo BDSM?

 

O Universo BDSM é vasto e abrange inúmeras vertentes de interacção entre pessoas totalmente diferentes que optam por seguir os caminhos mais variados dentro do que se designa como BDSM.

Para ser mais concreto por exemplo, quem como eu, dentro desta Filosofia de vida se interessa quase em exclusivo pela vertente da Dominação Feminina ou Femdom não poderia, como é óbvio, estar mais distante de todos os que pelo contrário têm fascínio pela submissão Feminina, e apreciam situações em que o homem domina, em contexto BDSM, Senhoras submissas.

Ou seja, BDSM é uma designação muito genérica que engloba imensos temas diferentes, por vezes mesmo antagónicos, mas existem também pontos comuns nas várias vertentes do Universo BDSM. Esta designação tem um reconhecimento e contribui para a criação de uma identidade própria positiva para quem a conhece melhor e para quem sente alguma curiosidade por este mundo, ainda considerado por tantos como algo de muito misterioso e enigmático.

Para se conhecerem melhor as várias vertentes do universo BDSM existem hoje, felizmente, várias fontes de informação interessantes, em português, incluindo o próprio blog 69Letras que também tem incluído nas suas publicações fantásticos artigos sobre esta opção de vida que a mim sempre pareceu super saudável, lógica e natural.

Como testemunho pessoal quem nos ler compreenderá assim que as minhas respostas sejam direccionadas para o que é a minha forma de estar neste Universo, numa perspectiva consequente de quem vive apenas o lado da Dominação Feminina e pratica esta Nobre Filosofia, enquanto submisso.

O encontro com a vertente Femdom do BDSM foi muito precoce, e nasceu de forma espontânea. Como tantos rapazes que se encontram na idade em que começam a intensificar a atracção pelo Sexo Feminino o meu fascínio pelo Sexo Forte foi-se ampliando com a percepção de como as Mulheres (à data em particular as Raparigas e Senhoras mais desenvoltas e seguras do seu Poder Magnético de Sedução) são Superiores aos homens em praticamente tudo o que importa, na Inteligência, na Beleza, na Sensibilidade, na Sedução, na Sociabilidade, na capacidade Mágica de espalharem Charme, Distinção e Calor à sua volta, sabendo Bem o efeito que provocam em quem não consegue resistir aos seus encantos.

Consolidando-se essa certeza e uma sempre crescente admiração pelo Sexo Feminino foi muito simples perceber como vem de tempos imemoriais a consciência do acréscimo de Beleza, Romantismo e Paz que se atinge quando o nosso coração e a nossa alma percebem qual pode ser o nosso papel submisso e masoquista, dedicado a uma Deusa que saiba como Deslumbrar também pela forma Arrogante, Autoritária, Cruel e Sádica como sabe usar e abusar de todos os que descobriram a Plenitude que só é possível atingir num contexto em que não há qualquer disputa de poder entre sexos.

 

  • Existem regras nessa prática? Quais?

 

As regras principais da Dominação Feminina, para os submissos, são a coerência e a consistência, um submisso não pode em situação alguma, ser indelicado com uma Senhora, e Deve, até que a Dona se farte dele (seja por que Razão for) e o escorrace dos seus Domínios, seguir paulatinamente uma via de sentido único que representará a sua Completa anulação enquanto criatura com “vontade própria” que exista fora do contexto em que se encontra, e o Triunfo Sublime da DONA que o oprime e usa de forma despótica para Satisfazer Todas as Suas Fantasias, Caprichos e Ideias mais “ousadas”.

 

 

  • O que o motivou à prática desse fetiche?

 

Fetiche é uma palavra muito interessante, bonita mesmo, e de origem portuguesa, mas que na sua génese designa a adoração quase religiosa de algo estranho, mas algo ser estranho é completamente relativo, sei que o que é estranho para mim para outros é perfeitamente normal, sei até que algo que é profundamente chocante para mim como o machismo, (em todas as suas vertentes), até para algumas Senhoras por vezes parece aceitável, portanto e perdoem-me a aparente contradição, em rigor sinto que é um “fetiche” totalmente esquisito um homem sentir-se bem, óptimo até, quando está sentado no sofá a ver televisão enquanto a Mulher trabalha, ou quando a Mulher fica em casa a cuidar dos filhos e ele vai encontrar-se com uma amante.

A Dominação Feminina não será, portanto em si, um fetiche, mas inclui o recurso a algumas das imagens e adereços mais famosos e magnéticos do Universo BDSM (os Chicotes, Corpetes e Botas de cano alto e Salto Agulha das Dominadoras), bem como as algemas e mordaças que os submissos têm muitas vezes de usar, e estes acessórios e o que com eles se faz é generalizadamente considerado como práticas fetichistas. O que me motiva e a tantas outras Dominadoras e submissos adorar entrar nessa espiral de acções intensas é um tema interessantíssimo para o qual em rigor seria necessário dar uma resposta bem mais longa, certo para mim é que nada terá a ver com traumas de infância ou outras explicações de psicologia simplista. O uso do chicote simboliza muito mais que uma prática fetichista, quantas pessoas não usam esta alusão noutros contextos, com um grande gozo? Todos têm traumas? E os Saltos altos agulha que são quase universalmente considerados como um expoente de Feminilidade? Todos os que sentem um arrepio com a Elegância de uma Senhora Elegante que os use são perversos?

O fundo psicológico e o jogo de aprofundamento da subserviência de um submisso são campos de Diversão e Fonte de Prazer praticamente ilimitado para quem gosta de expandir com Requinte e Sofisticação a Dominação Feminina para práticas criativas. O BDSM atrai há vários anos alguns dos mais influentes criadores contemporâneos que adoptam sinais, conceitos e o estilo mais rapidamente identificado com este Universo nas suas produções, levando esta linguagem para fora da comunidade dos adeptos do BDSM, e em simultâneo contribuindo para enriquecer com a sua visão inovadora e desafiadora o património já consolidado das bases Femdom que em larga medida estruturam alguns pontos-chave da nossa cultura, com o cavalheirismo como plataforma mínima, mas que tantas vezes prossegue muito para lá da atitude de deferência e veneração que o Sexo Forte Impõe de imediato.

 

  • Como foi a sua primeira experiência?

 

A minha primeira experiência foi no final da adolescência, quando finalmente tive coragem para expor o que penso a uma Namorada com quem tinha iniciado uma relação em que mais uma vez a Dominação Feminina não estava presente, senti que a Namorada podia ter interesse por este Universo e pouco a pouco fui tentando sugerir que o relacionamento ganhasse contornos em que progressivamente a Dominação Feminina se tornasse a essência da relação, Felizmente com Bastante Sucesso, um pouco à imagem do que sucede na Obra-prima Total da Literatura Femdom, o Livro “A Vénus das Peles” de Leopold von Sacher Masoch, autor que pelo conjunto do seu trabalho estabeleceu as bases “modernas” do masoquismo masculino, (termo que tem origem no próprio apelido deste notável escritor).

Recordo com Enorme Emoção a forma espontânea, mas bem consciente do seu significado, como decorreu a entrega do submisso, a sua consagração inebriante à Veneração da Fantástica Dominadora que se revelou ao dedicado e apaixonado submisso em Todo o Seu Jovem Esplendor e Requinte de Malvadez. Aliás continua hoje a impressionar imenso este submisso o Grau de Sublime Ousadia com que uma Deusa Dominadora Gere uma relação deste tipo, como revela Capacidades e Qualidades Brutais para tornar algo que começa quase como uma aventura numa experiência inesquecível, em que DONA e escravo consolidam sentimentos de uma Pureza e Intensidade Únicos.

 

  • Como é ser-se submisso?

 

Ser submisso é ter a Honra Enorme de poder assistir de Muito Próximo à Afirmação de uma Senhora Superior que sabe Apropriar-se Muito Bem de Tudo o que de Melhor a Vida lhe pode Oferecer.

Ser submisso é estar preso, amarrado, controlado e Totalmente condicionado e dependente da Personalidade da Dona, mas ter a sorte de poder fazer-se esta entrega voluntária e ilimitada não significa que se perde qualquer possibilidade de viver com intensidade, antes pelo contrário, a um submisso é concedido um pequeno espaço em que se pode manifestar, no estrito quadro, que de há muito é conhecido, de procura da Perfeição no acto de ser capaz, útil e produtivo a Executar as Ordens da Dona, a antecipar os seus Desejos, a propor com humildade e subserviência Completas novas formas de Servir a Dona.

 

  • Que tipo de prazer tira dessa relação Dominadora/submisso?

 

O único Prazer do submisso é constatar como a Dona é Feliz, Feliz de Forma Plena, Sustentada e Constante, porque poder conhecer em profundidade a Dimensão e Magnificência do Ego da Dona, o Patamar Superior em que aos Mais Variados Níveis está enche de orgulho (um submisso por muita vergonha que tenha deve confessá-lo) quem está exclusivamente centrado nesse objectivo Magnífico.

Decorre desse processo a inevitabilidade de o submisso sofrer, pois nada se obtém sem educação e trabalho, e é precisamente para trabalhar sem hesitações nem cansaços, nem lamentos, que o submisso é educado de forma Impiedosa pela Dona, deleitando-se a Dominadora em constantemente evidenciar na frente do submisso esta inevitabilidade, esta relação directa que existe entre exploração desenfreada do submisso e o aumento do Grau em que são atingidos os Objectivos cada dia mais Vistosos da Dona.

 

  • De tudo o que envolve o BDSM, você pratica todas as áreas ou só algumas?

 

Apenas na área da Dominação Feminina há algumas práticas mais extremas que este submisso ainda não experimentou, por várias razões, mas o universo Femdom em que o submisso se enquadra tem na sua raiz acções quotidianas tão elementares como executar Todas as Tarefas Domésticas, Sem Excepção, pois a Dominadora jamais poderia perder um minuto que fosse do seu Precioso tempo com este tipo de actividades, até porque ir às Compras, ao Cinema, a Festas e Jantar Fora com as Amigas, as horas de Ginásio, Spa e Cabeleireiro, as Férias e Fins-de-semana com Namoradas e “amantes” mais ou menos temporários deixam até pouco tempo livre para Controlar e Fiscalizar todos os trabalhos a que o submisso se tem de dedicar com esmero logo que chega a casa, vindo do emprego.

A Dominação Feminina está também em regra associada a um conjunto de princípios muito claros no campo da sexualidade, que assenta, como nas suas várias outras componentes, na Exclusividade de Direitos de quem Domina e na continuidade da repressão dos instintos “sexuais” impróprios e lamentáveis de um submisso.

A castidade masculina forçada torna-se portanto muitas vezes numa inevitabilidade permanente, e em mais uma forma de condicionar e humilhar de forma extrema tanto física como psicologicamente o submisso. Os devaneios eróticos de um submisso são estimulados tanto quanto possível, de forma o mais provocatória que se consiga conceber e o estado de ansiedade contínua em que o submisso fica, a sua arrasadora frustração permanente são uma arma extra que a Dona usa para manietar e ridicularizar o submisso, extraindo desse desespero as últimas réstias de “masculinidade” primária e bárbara que têm de ser direccionadas para comportamentos efectivamente valiosos para a Dona.

A oposta e Divina Liberalidade da Vida Sexual da Dona do submisso tanto pode passar pela utilização, sem qualquer tipo de compaixão, do sempre disponível submisso para Satisfazer a Dona quando e onde lhe apetecer, de mil e uma maneiras, (mas nunca permitindo que o submisso obtenha qualquer tipo de satisfação), como pelo reforço do rebaixamento do submisso em relação a outros submissos que possam pertencer à Dona, preferindo-os para este fim em detrimento do submisso, como ainda permitindo que o submisso, em posições degradantes, possa vislumbrar a Dona a Divertir-se Imenso com outras Amigas Dominadoras ou até a partilhar com o submisso experiências sexuais com outros Homens bem menos submissos.

 

  • Pode existir algum sentimento entre os dois?

 

Sentimentos não faltam num acordo entre um submisso e a Dona, outros sentimentos diferentes daqueles que a pergunta pretenderá referir que serão os de reciprocidade e companheirismo numa relação menos profunda.

A cumplicidade numa relação entre Dominadora e submisso é ímpar, ambos têm a consciência do grau Completo de Confiança (um tipo muito especial de confiança, é certo) que tem de existir enquanto durar o interesse da Dona pelo submisso, ambos têm de estar certos que jamais se mudarão as regras base, e que a única saída é quando o submisso é pontapeado para fora da Vida da Dona.

Os sentimentos que o submisso nutre pela Dona já terão sido razoavelmente descritos nas perguntas anteriores, a Mais Arrebatadora Paixão e o Amor mais Radical que se possa imaginar são a fonte de energia inesgotável do submisso, mas o escravo sabe também bem quais são os Sentimentos da Dona para com aquele que lhe pertence, antes do mais o desprezo mais atroz, justo e legítimo, matizado com a irritação por o submisso estar Sempre aquém do que a Dona dele espera, apesar de a Dona ter de se manter Motivada por acreditar (com base nas provas anteriores dadas pelo submisso) que o escravo ainda conseguirá dar-lhe Muito Mais, que no mínimo conseguirá superar-se muito para lá do que já conseguiu proporcionar à Dona.

 

  • O BDSM teve alguma implicação a nível pessoal e profissional? Estes dois mundos podem coexistir ou colidem?

 

Viver a Dominação Feminina com muita dedicação pode e deve coexistir de forma minimamente tranquila com a ocupação profissional do submisso, mas este nunca pode ser um território em que a condição de submisso esteja ausente, são muitos os rituais e sinais que ao longo de um dia de trabalho regular podem marcar a condição de submisso e a sua inequívoca e indelével ligação de propriedade com a Dona que Tem Todo o Poder para Controlar Tudo o que o submisso faz. Uma Dominadora Sabe a Qualquer hora como Estimular qualquer tipo de estado de espírito no submisso, incluindo embaraçá-lo subtilmente perante os colegas e principalmente perante as Senhoras que com ele poderão trabalhar.

A um nível pessoal ser submisso significa abdicar com coragem e determinação da vida pessoal, mesmo os relacionamentos familiares ficam reduzidos ao estritamente necessário pois todo o tempo de um submisso é pouco para conseguir Servir Como Deve Ser a Dona, e não há nunca qualquer tipo de transigência com factores que se tornam quase irrelevantes perante a Magnitude da Missão a que o submisso se Dedica de Corpo e Alma.

 

 

  • Que peso poderia ter, se algum dia se apaixonasse? Revelaria à sua companheira, o seu fetiche?

 

Um submisso é a criatura mais apaixonada que se pode imaginar à face da Terra, a pergunta parece perspectivar a possibilidade de um submisso algum dia sentir uma inquietação em relação à sua condição de vassalo da Dona, e poder ter uma queda num mundo em que a Dominação Feminina não esteja presente, ou seja que o submisso tentasse fugir do Controlo da Dona, a traísse e se apaixonasse por uma Mulher que não tenha nenhuma relação com o Universo Femdom.

De facto esta é uma pergunta a que este submisso não sabe responder, o medo de algo de tão catastrófico poder suceder bloqueia o meu pensamento, e a segunda pergunta ainda mais assustadora é, que dilema terrível, com o qual nem nos meus piores pesadelos imagino que possa vir a ser confrontado.

 

 

Entrevistadora: Lola

Entrevistado: José Maria

#69Letras


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Entrevista a Uma Submissa! | Rúbrica: Conta-nos a tua história

Entrevista a uma submissa

 

 

1- Quando tiveste conhecimento do que era o BDSM e de que forma entrou na tua vida?

Foi à relativamente pouco tempo que descobri que havia um nome para o que eu chamava  “as minhas coisas estranhas”. Desde muito nova que eu tinha comportamentos e gostos os quais eu não sabia explicar a mim própria e muito menos conseguia explicar a outras pessoas, a única coisa que sabia é que me davam
prazer. A certa altura recusei viver na mentira e procurar respostas para “as minhas coisas estranhas”… e foi assim, em forma de avalanche que a informação chegou e de uma vez todas me propus viver aquilo que me fazia sentir viva…

  

2- Consideras-te uma mulher submissa mesmo em contexto pessoal/profissional ou familiar?!

Não, nada mesmo… vou tentar explicar da melhor maneira… Talvez a forma mais fácil de perceber a minha submissão é se a catalogamos como um fetiche
meu, ter alguém mais forte psicologicamente/fisicamente  que eu  e que seja capaz de me submeter a ele de todas as formas, tanto física e psicologicamente é isto que me dá prazer, é este o desafio que me excita…

     

3- Conta-me como foi a tua experiência mais marcante?

Foi sem dúvida a primeira vez que estive com o meu Dominador, literalmente
num “blind date”, o local estava completamente às escuras, o que sabia dele era pouco, mas havia algo nele que me provocava, que me desafiava e eu sabia que aquele encontro era inevitável, eu tinha que passar por aquele processo… e foi nesse encontro que eu
tive a certeza do que queria e do que precisava, foi a resposta para muitas dúvidas, e foi sem dúvida o momento em que a minha vida se alterou por completo…

      

4- Que tipo de relacionamento tens actualmente no contexto bdsm? 

devido a questões pessoais ela preferiu não responder a esta 🙂

 

 

5- Alguma vez sentiste vontade de experimentar o lado da dominação e adoptar um papel como Switcher?

Já sim e foi uma surpresa para mim… Importante dizer que não sou dominadora
nem ambiciono ser, e também ainda me falta muito para ser Switcher, digamos que ando numa fase de aprendizagem o mais correcto será dizer que sou uma alfa… Em relação ao meu lado dominador, eu só faço e só pratico o que me dá prazer, é claro na consensualidade
da pessoa que está comigo, jamais farei algo que a outra pessoa não queira ou com que se sinta desconfortável a fazer, e também não testo os limites da outra pessoa, deixo apenas que sejam momentos de prazer, por esta razão e muito mais estou muito longe de
me intitular como dominadora…

 

6- Consideras mais satisfatório o prazer físico ou psicológico nas práticas que fazes?

Ambos… Não consigo desligar um do outro, contudo dependendo da prática
o nível de prazer físico ou psicológico alteram-se e são ambos fundamentais para o meu equilíbrio…

 

7- Quais são os plays ou práticas que mais gostas?

Amo de paixão cordas (shibari/kinbaku)… Quanto ao resto é tão difícil de escolher, é o mesmo que ter um cozido à portuguesa e só escolher 1 ou 2 ingredientes quando gosto de todos e todos têm a sua importância…

 

8- Alguma vez foste prejudicada a nível pessoal ou profissional por seres praticante?

Não nunca… embora às vezes seja difícil disfarçar algumas marcas e dores de “guerra”… Lol

 

9- Achas que algum dia conseguirias  te afastar deste estilo de  vida?

Não, nunca… faz parte de mim, era a mesma coisa que renunciar a minha própria felicidade e equilíbrio…

 

10- Que conselhos tens para quem queira se iniciar?

Que pergunta difícil… não tenho um conselho específico, nem uma fórmula mágica… posso apenas dar a minha opinião mais sincera, sejam vocês próprios,
façam, vivam, experimentem, saboreiem aquilo que vos dá prazer e não tenham medo de se revelarem, nem que seja para vocês próprios. Assumir que gostamos de determinadas práticas faz-nos ter mais consciência de nós próprios… e por fim, sejam felizes… kiss kiss

 

Entrevistadora: Misses Kat a Alice_31!


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Tens Filhos? | Rúbrica: Conta-nos a tua história

Qualquer um de nós ja se viu confrontado com momentos constrangedores, daqueles em que mentalmente nos vimos a dar, com toda a rapidez, uma bofetada seca ao idiota que acabou de abrir a boca.
A mim acontece-me volta e meia, e quase sempre pelo mesmo motivo.
“Tens filhos?”
“Tenho 4”
Esta afirmação nunca, mas nunca dá azo a um comentário neutro.
Na melhor das hipóteses vem um “ena! Mulher de coragem!”


Mas normalmente o que ouço é “e são todos do mesmo pai?”, de onde afiro que a pessoa à minha frente tem a ideia pre concebida de que quem tem mais filhos faz mais sexo que os outros, se faz mais sexo é uma doida e se é uma doida são vários os pais.
Pior ainda é quando me perguntam ” e foram todos partos naturais?
“Sim!” respondo eu com aquele ar de quem diz “sim, fica lá a pensar que tenho a porta de saída toda escalavrada!”


Porque não se fala disso, porque a falta de informação em geral dá lugar ao preconceito… E porque estou farta de me calar, se tivesse um filho por cada vez que tenho sexo tinha milhares.
Alem disso, porque a vagina é elástica a minha está bem, obrigado, e porque às cicatrizes dos pontos podemos chamar pontos de estimulação local do pénis, se calhar até está melhor que antes…. Pelo menos a mim tem dado um prazer extraordinário…

An (extra)ordinary woman, contribuindo para uma população educada…


 

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Relato de um romântico em recuperação | Rubrica: Conta-nos a tua história |

Relato real para a página 69 Letras

 

 

Ele foi bafejado pela sorte logo à nascença. Filho único duma família bastante abastada.

O berço de ouro no entanto não lhe poupou a uns quantos desgostos da vida. 

Perdeu a mãe demasiado cedo num trágico acidente de carro envolvido em demasiada polémica na praça pública. 

Limitado a uma vida numa redoma de vidro, a sua única companhia na infância era a dos professores privados, da criadagem da casa e de seu muito amargurado e infeliz pai. 

Escusado será dizer que as épocas festivas lá em casa não eram muito animadoras. 

Aos 12 anos, finalmente o pai cedeu em pô-lo num colégio privado juntamente com outros adolescentes. Foi o momento mais feliz e cansativo da vida dele. Recorda como foi extasiante conhecer tanta gente nova num só dia. 

 

Fiz questão de conhecer os 32 alunos, os 18 professores e os auxiliares todos daquela instituição até ao pessoal das limpezas. Nunca tinha conhecido pessoas fora dos muros da propriedade dos meus pais. Foi uma loucura! Absorvi  tudo naquele primeiro dia de aulas. Até os cheiros de cada um…

 

Lembra-se  que nessa altura já recebia muita atenção feminina. Depressa aprendeu a levar os bolsos cheios de gomas e de pastilhas. Fazia sucesso entre as miúdas mais gulosas.  E das gomas às rosas e caixas de bombons foi um instante. Assim a atenção feminina aumentava e tornava-se mais ousada.

Tão ousada quanto o facto dele ter perdido a virgindade, não com uma mas com 4 raparigas na sua cama. 

 

As miúdas não me largavam. Fui assediado na casa de banho da escola, enfiavam-se na limusina que me levava de volta a casa depois das aulas e o telefone não dava despacho a tanta chamada. 

 

Tinha tudo para ser feliz! Dinheiro, popularidade na escola e um pai que pouco a pouco despertava para a vida. 

 

Eu vi meu pai chorar a morte da minha mãe demasiado tempo. Impressionava-me. O amor que ele trazia no peito por alguém que já não ali vivia, era no mínimo assoberbador. Ele preservava o lugar dela à mesa, as roupas no closet e todas as recordações dela espalhadas pela casa até ao jardim. 

Olhando para trás, acho que nunca cheguei a sentir muito a falta dela. Estava tão presente. 

 

Ao entrar na faculdade tudo se intensifica. Já não se deslocava de limusina mas sim de descapotável e além das excelentes notas, a medicina estava-lhe no sangue, tinha um círculo enorme de amigos e namoradas que se sucediam umas às outras. 

Numas férias perdeu-se. 

 

Bebi uns copos a mais numa festa num clube restrito a sócios. 

Eu tinha consciência de que estava a exagerar na bebida. Mas supostamente estava com amigos. Paguei as várias rodadas de bebida para os meus supostos amigos. Ainda fui puxado para a casa de banho por uma suposta amiga para uma rapidinha entre supostos amigos coloridos. (risos) Mas isso foi antes de eu colapsar no chão. Caí redondo no chão, no meio dos meus supostos amigos e ninguém me ajudou. Ninguém! 

Acordei no chão encharcado da minha própria urina e sem ninguém que me ajudasse a levantar. 

Jamais me esquecerei da humilhação. Estava sozinho. 

 

A solidão tinha-lhe batido à porta e não era uma sensação bonita… 

Sentiu-se miseravelmente desconfortável, como um mero mortal pela primeira vez.

Os dias que se seguiram foram de pura introspeção. Não falava com ninguém. Nem com seu pai.

 

Meu pai bateu-me à porta do quarto um dia. Estava preocupado comigo.

Claro que lhe disse para não se preocupar. Mas ele só me respondeu, que havia estado ausente demasiado tempo mas que agora estava ali para ser pai caso o desejasse. Fartei-me de rir, ironicamente claro. Não percebi na altura ou não quis ver que estava alguém a tentar me chegar a mão.  Respondi-lhe que era tarde demais. E ele só me respondeu, nunca é tarde de mais para amar, quem ama preocupa-se, quem ama sofre.

 

Concluiu os estudos e no dia da formação tinha o seu pai orgulhoso na plateia a aplaudir.

E foi somente naquele momento que se lembrou que seu pai, também estava sozinho. Não porque quisesse mas sim por força das circunstâncias. Bateu-lhe uma saudade inexplicavelmente no seu peito. Fazia-lhe falta os aplausos da sua mãe. 

Conforme o tempo ia passando, cada vez lhe parecia mais fúteis as relações amorosas em que se envolvia. Inconscientemente procurava amor… 

 

Procurei aquela ligação que o meu pai mantinha e tanto estimava com a mulher da sua vida, minha mãe,em quase todos os rostos bonitos que se cruzavam comigo. Mas quis o destino que eu me apaixonasse por uma paciente. 

Fiquei rendido à sua beleza logo no primeiro olhar. Mas infelizmente era uma doente terminal… Daquelas que acompanham uma história de muita luta contra uma das grandes pragas deste século. O cancro

 

Ele forçou-se a si próprio várias vezes afastar-se mas o amor ocupou o seu coração e não o largava.

Ela era tudo o que ele procurava numa mulher. Inteligente, divertida, um pouco libertina até. Mas iluminava o seu mundo como nunca ninguém o havia feito. 

 

Amor à primeira consulta era a nossa private joke

 

Ela procurava um médico que aceitasse o facto de ela ter desistido dos tratamentos. 

 

Questionei-a porque tinha desistido de viver. Pelo menos foi isso que eu pensei. Se ela tinha desistido dos tratamentos, não tinha mais desejo por continuar viva. E esperei uma resposta como já tinha ouvido tantas vezes mas de outros pacientes. Cansaço físico e mental, saturação, dores insuportáveis, os vómitos constantes e o mau estar… 

Mas não. Ela simplesmente me respondeu que era por querer viver de verdade, que queria deixar de fazer tratamentos. 

E eu não tive outra alternativa senão concordar com ela. 

 

E a partir daí tornaram-se inseparáveis. Claro que no início, era tudo em nome da ciência. Ele fazia questão de acompanhar cada passo na fase final dela.

Não tardou muito até o primeiro beijo surgir. 

Lembro me perfeitamente do nosso primeiro beijo. Diferente de todos os outros beijos da minha vida. Faltou-me o chão. Senti as tais borboletas de que falavam nos romances. Foi intenso. Mas porém suave. 

Jurei-lhe amor eterno. Não me arrependo, apesar da dor toda que iria vir a sentir depois. 

Viajaram muito e sempre de mãos dadas. Estavam dispostos a fazer tudo o que lhes viesse à cabeça. 

Até conhecê-la nunca se tinha afastado da  bata branca e do estetoscópio mais que dois dias seguidos. Pois juntos viajaram 3 meses cheios de emoções e intensos.  

Em conversas,  sempre honestas entre os dois, comentavam o fato de não sentirem falta de casa ou dos seus pertences outrora indispensáveis, telemóvel, etc. 

De hotel em hotel, de cidade em cidade, sempre com analgésicos atrás, pois foram a única coisa que ela não prescindiu, sempre unidos e felizes até ao dia que ela pediu, do nada, voltar para casa. 

Eu apercebi-me  logo do que se avizinhava. E cedi à vontade dela. Foi tudo muito rápido na minha cabeça mas os familiares dela insistem em dizer-me que tudo durou uma semana… 

Aqui foi o ponto em que ele deixou de me olhar nos olhos diretamente enquanto me contava a sua vida. 

O ar pesado era um contraste enorme em relação à pessoa que eu conhecia. 

Suponho que ele nem se apercebeu das lágrimas que lhe caíram pelo rosto. 

Ela assim que chegou a casa, deitou-se e nunca mais se levantou. Nem para ir à casa de banho. 

Perguntou-me se eu queria ficar. De imediato disse que sim e não larguei a cabeceira dela um minuto que fosse até ao último suspiro dela. 

Ainda hoje não percebo como é que ela não se desfigurou um pouco que fosse. Incrível! Ela permanecia aquela face de anjo que sempre teve. 

Sei que algures durante aquela semana perdi a percepção dos dias e das noites. Mas lembro-me bem que foi à noite que ela me prometeu algo. Eu perguntei-lhe se ela queria mais qualquer coisa para as dores antes de adormecer e ela disse-me que não. E  eu insisti, custava-me  saber que ela iria ter dores quando eu tinha tudo ali à mão. E ela abriu os olhos, acariciou-me a cara e disse… (silêncio) 

” Prometo-te que não vai doer muito. “

Eu fiquei sem perceber na altura. Como ela fechou os olhos, seu corpo continuava a respirar e caiu num sono rápido, não percebi o que ela quis dizer com aquilo mas também não lhe perguntei. 

A verdade é que eu também estava cansado fisicamente e adormeci ao lado dela quase de seguida. 

Foi a mãe dela que me acordou no dia a seguir e a chorar me agradeceu por tê-la adormecido. Juro que olhei para a senhora, com ar de parvo, e lhe disse que o fazia com muito gosto todos os dias. 

Mas ela insistiu a agradecer-me e a chorar cada vez mais compulsivamente e foi quando me apercebi que a minha querida estava gelada nos meus braços. 

A partir daí não me lembro de muita coisa que te possa contar Steel, desculpa. Mas lembro-me duma dor que me impedia raciocinar. Nada me acalmava. 

Do funeral só me lembro de em vez de flores, pus fotografias da nossa viagem na campa dela. 

Meu pai nunca me largou um segundo que fosse. Mais do que ninguém ele sabia o que eu sentia. 

Sei que lhe pedi perdão, por ter sido injusto para com ele uns anos atrás. 

O amor Steel, quando é verdadeiro, dói. Dói muito e até nos cega. Paramos de viver quando nos abandona. 

O meu amor já partiu à 3 anos e não me esqueço. 

Se continuo à procura dum novo amor? Claro que sim. Mas aquele… Jamais esquecerei. 

 

 

©Miss Steel 69letras 2017 


 

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“Corpo é matéria, a alma é transcendente!” Raquel Martins, Playboy 2017

Antes de tudo obrigada por nos dares a oportunidade de contar a história da tua passagem pelas câmaras da Playboy.

Hoje é dia da mulher. Há muitas mulheres que na atualidade ainda vivem fechadas dentro delas, escondidas, inseguras e muitas delas inferiorizadas… O ano de 2017 apresentou-te ao mundo integralmente… Parabéns pela coragem!

                                                             

 

 

Conta-me antes de tudo, de onde veio a decisão de pousar para a Playboy?

Raquel: Essencialmente acho que aconteceu porque estava destinado a que assim fosse! Acredito verdadeiramente nisso! Digo isto porque tenho um amigo que faz Styling, o Sérgio Onze, e participou numa produção para uma das capas, este falou de mim a um dos directores, o Bernardo Coelho, e daí surgiu o convite! Senti um misto de sensações, como uma montanha-russa de emoções! E depois de muito ponderar, aceitei!

 

 

Como foi o processo de selecção?

Raquel: Não houve um processo de selecção propriamente dito. Acho que o que houve foi mais da minha parte e foi um processo de decisão!
Recebi o convite e a princípio fiquei surpresa, conhecendo o que conhecia até ao momento dos conteúdos da revista, que confesso que era pouco ou quase nada, achava sinceramente que não tinha perfil para o género mas depois pus de parte essas inseguranças e pensei que alguma coisa teria que ter para que me propusessem tal coisa! Fiquei radiante com a ideia! Mas este estado durou pouco tempo confesso, porque depois passei à fase de ficar um tanto ou quanto de pé atrás em relação ao assunto. Assentei os pés na terra e pensei que sempre achei que a Playboy era somente sinónimo de nudez, daquela pura, dura e crua! E até que ponto eu conseguiria lidar com isso? Com algo que à partida iria contra alguns dos meus ideais? Reuni com eles e apresentaram-me o conteúdo da revista e respectivas sessões que nada tinham a ver com a minha ideia preconcebida. Nunca eu tinha folheado uma edição da Playboy! Analisei tudo em casa e tinha muitas questões! E deixei bem claro na minha cabeça que para o fazer, a sessão e toda a envolvente teria de ir ao encontro da minha pessoa, eu não seria capaz de fazer algo com o qual não me identificasse, algo que no fundo não me representasse enquanto pessoa, que não captasse a minha essência e personalidade. Confesso que fiquei tentada com a ideia porque era um desafio para mim mesma enquanto mulher, desafio esse que envolvia um grande risco porque sabia que estaria exposta para os outros de uma forma que nunca pus em hipótese em estar, sabia que iria sofrer julgamentos mas até que ponto eu me deixaria atingir por isso se realmente o resultado fosse algo que me reflectisse? Basicamente direccionei a minha atenção para os contras da questão porque o facto é que temos mais dificuldades em lidar com eles e tentei contorná-los como podia. Expus-lhes todos os meus medos e deixaram-me tranquila e segura em relação a tudo!

 

 

 

Como te sentiste quando soubeste que irias ser a capa de Janeiro de 2017 da Revista Playboy? Qual foi o teu primeiro pensamento?

Raquel: Quando me foi proposto nunca pensei eu que seria para ser a capa. Fiquei surpresa mas novamente reticente. Porque lá está, o meu pensamento foi que uma capa de revista é sempre uma capa! Tem impacto! É algo que mesmo que não se queira comprar, está à vista de todos! E não iria estar propriamente vestida, iria estar como nunca ninguém – nem eu mesma-, me tinha visto. Mas se há coisa que tenho cada vez mais intrínseca em mim e que tenho adotado como ideologia, é que corpo é matéria, é algo que um dia simplesmente deixa de existir com a maior das facilidades, é efémero, enquanto a alma é transcendente a tudo isso, é o que fica, na memória, no presente, nos outros, na nossa história, e como tal, anulei muitos dos meus pensamentos restritivos seguindo esta linha de raciocínio.

 

Nos estúdios? Receberam-te bem, simpáticos? Conta-nos!

Raquel: Não fotografei em estúdio, apenas a capa, e acho que isso foi um ponto fulcral para me sentir bem ao fazê-lo. A sessão foi num dos quartos do Requinte Motel, em Sintra, e neste caso para mim foi muito importante estar envolvida com o ambiente que me rodeava para de certa forma me fundir com ele e ai me conseguir expressar melhor, me exteriorizar. Digamos que beneficiou em muito o soltar daquele meu lado mais “wild”, que no fundo eu acho que todos temos! Depois, eu já conhecia a fotógrafa e o seu trabalho, a Carla Pires, e acho que ser uma mulher a fotografar ajuda imenso porque tem outro tipo de abordagem, outra sensibilidade e toque. O Styling foi feito pelo Sérgio, que foi ajudado pela namorada, Adriana, que me conhecem até do avesso, meus amigos há já uns bons anos e portanto já experiênciamos muitas coisas juntos, esta é mais uma história que temos para contar! E finalmente o maquilhador, Eduardo Estevam, que conheci no dia que também demonstrou ser super acessível! No fundo estava rodeada de boa energia e a certa altura já estava confortável com tudo aquilo e acabou por se tornar algo divertido de fazer!

 

 

O primeiro contacto entre o teu corpo totalmente nu e a câmara? Como te sentiste? (Sei que sempre tiveste um corpo fenomenal, no entanto nudez é nudez! Mexe sempre connosco.)

Raquel: Já o tinha feito anteriormente, aconteceu com Kid Richards mas nunca o tinha feito em digital, pois, caso não saibam, o Kid fotografa apenas em analógica. E para mim, tendo em conta o registo, fotografar em digital consegue ser um pouco mais intimidante, para além disso, nunca tinha fotografado com a Carla, apesar de já a conhecer. Mas sendo esse o conteúdo ou não da sessão, é sempre um quebrar de gelo só que neste caso a sua proporção era maior! Achava eu! Porque depois, como já referi anteriormente, toda a envolvente, foi a meu favor e foi só deixar fluir, como que um deixar cair do pano a pouco e pouco. É sempre importante neste género de sessões sentir o que me rodeia, desde o espaço, à luz, às pessoas e à música, porque eu sendo tímida e retraída por natureza torna-se complicado demonstrar sensualidade ou qualquer tipo de emoção se assim não for.

 

 

Foste tu que escolheste o teor da sessão? O que pouco tinhas vestido autoria tua ou tudo deles?

Raquel: Deram-me essa liberdade pois perceberam logo num primeiro contacto o meu estilo, aquilo que por ventura eu iria gostar ou não de fazer e ainda bem que assim foi! Portanto, deixei nas mãos da Carla e do Sérgio e sabia que não podia estar em melhores mãos! Deram-me a conhecer toda ideia que tinham, todos os pormenores que estavam envolvidos que adorei desde logo porque era sem dúvida a minha praia.

O desenrolar da sessão?

Raquel: Começamos por fotografar na cama e depois fomos aproveitando aquilo que o quarto tinha, desde os espelhos ao varão. Finalmente acabamos por fotografar na banheira, que são para mim, sem qualquer dúvida, as fotos que mais gostei de fazer!

 

Como foi a reacção daqueles que te conhecem quando te viram ser capa da Playboy?

Raquel: Algumas pessoas ficaram chocadas mas mais com a ideia de pousar do que com a sessão propriamente dita, porque nunca pensaram em ver-me na capa da Playboy mas nem eu mesma pensei um dia em fazê-lo por isso acho que o choque foi tanto para mim como para aqueles que me conhecem! Mas fazendo um balanço das reacções em geral, estas foram uma mão cheia de reacções positivas e isso é sempre bom de receber!

 

 

A exposição do teu corpo a nível nacional mudou o teu dia-a-dia?

Raquel: Não, de todo! Acho também que o público da Playboy é muito especifico, pode agora estar a tornar-se mais abrangente, mas são maioritariamente homens e duma faixa etária especifica. E digamos que estes se calhar nem atentam tanto assim em quem é a Raquel Martins!

 

Qual foi a pior coisa que te disseram? E a melhor?

Raquel: Para ser sincera, o facto de ter adorado o resultado final, fez com que opiniões negativas me passassem completamente ao lado. Como é óbvio li comentários depreciativos, mais presentes nas redes sociais, como seria de esperar, mas faz parte do processo e eu aceito isso. Relativamente ao melhor…disseram-me que estava linda, e que, não desvalorizado todo o aspecto físico, conseguiram captar um lado meu que quase ninguém conhece, o lado místico, que é sem dúvida o que tenho de mais bonito.

 

 

A tua família como reagiu?

Raquel: Os meus pais participaram no meu processo de decisão portanto sabiam de antemão para o que ia e fiquei até surpreendida quando vi a reacção tanto da minha mãe como do meu pai. Ao meu pai fiz questão de lhe pedir para que apenas visse a revista se fosse eu mostrar-lha, porque pus em hipótese não o querer fazer caso achasse que o fosse chocar muito. Para mim era a pessoa a qual seria mais constrangedor ter que me mostrar de uma maneira que nunca me viu e digo isto não por não ter abertura com ele mas por ser homem e logo acima disso ser o meu pai! Mas foi tudo receios bobos da minha parte porque foi aceite da melhor forma possível e se havia alguma opinião que me atingisse seria só e unicamente a dos meus pais.

                                          

Como mulher, jovem como te sentiste com tal demonstração de confiança?

Raquel: Acho que mais do que mudar a ideia que as pessoas tinham de mim, mudou a minha percepção de mim mesma. Ajudou-me de certa forma a afirmar-me enquanto mulher ou a ver-me mais como tal porque até então não via tanto esse meu lado. Sempre disse que não me via como mulher pois para mim o reflexo de uma mulher sempre foi a minha mãe, as minhas avós e as minhas tias porque já existe nelas toda uma vivência e consequente firmeza. Eu perto delas sempre fui uma menina cheia de inseguranças e portanto não poderia sequer servir como termo de comparação mas com isto cheguei a conclusão que ser mulher está mais associado há ideia de liberdade, de força, de resistência e afirmação desses mesmos factores. Acabei por demonstrar isso tudo do princípio ao fim ao passar por todo o processo e portanto senti-me de facto uma mulher!

 

No meio desta aventura quais foram os teus receios e/ou medos?

Raquel: Acho que já deixei claro a maior parte dos meus medos e receios mas o meu maior receio era sem dúvida o resultado final porque depois era o meu nome que estaria envolvido e podia prejudicar-me futuramente na minha vida pessoal e profissional. Fazer algo que depois não gostasse era o que mais me assustava e em tudo na minha vida tento manter-me fiel a mim mesma e aos meus princípios. Foi um risco mas acredito que se não tivéssemos que enfrentar os nossos
medos e receios, as experiências e desafios não teriam presentes o factor adrenalina e por conseguinte perderia tudo o encanto natural. O meu feeling era que iria correr tudo pelo melhor e foi o que aconteceu!

 

 

Tens algum recado para as mulheres ?

Raquel: Acho que o meu recado acaba por ser não só para as mulheres mas para o ser humano em geral mas tendo em conta o dia vou direccioná-lo a elas. Estamos num mundo em que a sociedade nos impõe padrões, estereótipos, como se regras de etiqueta se tratassem, daquilo que é suposto sermos e fazermos como sendo o socialmente correcto mas está mais do que na hora, de quebrar esses muros e ver o que está para lá deles. O que está para trás não nos trás nada de novo e caso tal persista em continuar, eu serei daquelas que farei de tudo para fazer e ser o contrário daquilo que é presumido. Eu acho que não devemos seguir a cartilha que define a feminilidade como um comportamento único. Ser feminina é ser como queremos e somos e ter orgulho disso.

 

 

Essa mudança parte de nós, vem de dentro, contrariando a ideia de que tudo converge para o centro. Vem duma atitude e auto-afirmação que deve ser exteriorizada e espalhada pelas ruas e que é mais do que necessária da nossa parte. Não há nada como uma mulher intimidante, não há nada como uma mulher segura daquilo que é e quer, e eu acho que é daí que deriva a verdadeira sensualidade, o sex-appeal, aquele tal” je ne sais quoi”. Claro que esse modo de estar é uma coisa que só poder ser alcançada por nós, no nosso íntimo, e o pensamento errado de muitas das mulheres é de que o encontram por ai e principalmente nos outros. Este estado de libertação, o estado nirvana, vem de dentro, da alma, da essência.

Como já referi, corpo é matéria, alma é transcendente, e para mim é isto e somente isto que deve ser descoberto e aprofundado para melhor ser, melhor estar e sobretudo melhor viver.

 

Publicação: Playboy Portugal | Photo: Carla Pires | Styling: Sérgio Onze | Make Up & Hair: Eduardo Estevam | Ass. Produção: Adriana Rodrigues

 

Espero que tenham aproveitado para conhecerem um pouco melhor a nossa “Coelhinha” Portuguesa, que abriu o coração e deu-nos as suas palavras nesta entrevista exclusiva da 69Letras.

Obrigado Raquel, por todo o tempo, paciência que nos dedicaste. Esperamos que o teu místico e a tua beleza interior e exterior te levem onde tu mais desejares, mereces!Beijo grande !

© Krishna 2017 #69Letras

 

 

 

Viver com Lupus | Rubrica: Conta-nos a tua história

As borboletas que me perseguem,

e não são no estômago…

 

Tudo começou por isso, uma borboleta, que se apoderou do meu rosto há vinte anos atrás, forma essa que foi adoptada como símbolo da doença.

Naquela altura tudo era desconhecido e muito recente, não havia muita informação sobre a doença e era de difícil fazer-se um diagnóstico. Ninguém sabia o que era aquela mancha avermelhada, em forma de borboleta, que aparecia e desaparecia quando lhe apetecia. Depois de correr hospitais e médicos particulares, na véspera dos meus 25 anos finalmente disseram-me o que tinha…

Escusado será dizer que o médico, que tinha a sensibilidade de uma pedra da calçada, se virou para mim e disse:

 “Você tem Lupus, não tem cura, e a esperança média de vida são dez anos.”

O meu mundo desabou ali, e foi quando vi os amigos que tinha, quase todos se afastaram e a pergunta recorrente quando contava a alguém era: ”Isso pega-se?”

Nessa época não tinha grande informação sobre a doença e tudo o que implicava, mas tive a sorte de ser encaminhada para o hospital e ter um médico fabuloso, que após três horas e meia de consulta me deixou totalmente esclarecida.

Explicando muito resumidamente e pelas minhas palavras, sem grandes termos técnicos, que já os sei de cor mas não são relevantes, o Lupus é uma doença auto-imune em que os anticorpos do sangue se viram contra o nosso corpo, combatendo-o como se ele fosse uma doença. Ou seja, ninguém morre por ter Lupus, mas sim pelas consequências desses “ataques”.

De início manifestou-se só na pele, Lupus Eritmatoso Discoide, mais tarde evoluiu para Sistémico, afectando os órgãos internos, mesmo estando medicada.

Quando fiquei grávida deram-me duas opções, ou fazia um aborto e podia morrer com as complicações que dali viessem, ou levava a gravidez até ao fim e podia morrer no parto.

ARRISQUEI

Como gravidez de alto risco que era, andava a ser seguida na Maternidade Alfredo da Costa, num departamento que se chamava Gabinete de Estudos de Mortes Fetais. Como calculam ir às consultas era extremamente animador… Mas foram só 7 meses, pois o rapaz estava com pressa, mesmo só com 2 Kg quis conhecer o mundo, e correu tudo bem para ambos!

Sempre consegui fazer uma vida normal, sempre medicada, maior parte das vezes sou eu que controlo essa medicação, pois já aprendi a viver com a doença e sempre acompanhada.

Mais tarde em 2010 tive um enfarte, não pelas causas normais que os costumam provocar, mas pelos muitos anos de medicação e cortisona. Após 7 dias de cuidados intensivos lá me safei mais uma vez, tendo algumas crises de vez em quando mas sempre a trabalhar, até que 3 anos atrás tive uma mais grave que me impediu de o continuar a fazer.

Há dias em que acordo de manhã e parece que tenho o mundo aos meus pés, de tão bem que estou, mas há outros em que nem me consigo mexer com o inchaço e dores nas articulações e o cansaço próprio da doença, que se começa a tornar um pouco incapacitante, embora me force a ter uma vida normal.

O pior de tudo é estar doente e as pessoas que me rodeiam não entenderem. Oiço constantemente coisas como “Se podes ir ao café também podes ir trabalhar!” ou “Tu não estás doente, não queres é fazer nada!”, tornando mais difícil as minhas melhorias, pois quanto mais me enervo mais crises tenho…

Passados 20 anos, aprendi a viver com a doença, uns dias melhor, outros pior, tenho um filho lindo e saudável e apesar de me encontrar nesta situação agora, tenho fé que seja só mais uma e que há-de passar.

Já tive a vida por um fio, e comecei a vê-la de outra forma, por isso vos digo, quem tenha esta doença, ou outras crónicas como esta, não se deixem ir abaixo e vivam!

Façam como eu, tento aproveitar todos os momentos que me fazem feliz ao máximo, porque vivo um dia de cada vez e como costumo dizer, a vida são três dias dois já passaram e o terceiro não se sei se será o último.

Acima de tudo, não percam a auto-estima nem se deixem diminuir.

Acima de tudo valorizem-se e amem-se, afinal de contas, e no meu caso particular, sou mulher, gosto de brincar, de seduzir e ser seduzida, tenho desejos como qualquer outra pessoa, e não há-de ser uma doença que me vai tirar isso, a minha identidade individual, pela qual me rejo será talvez a única coisa que não me consegue tirar!

Apostem numa vida cheia de borboletas no estômago, porque parecendo que não, essas fazem-nos tão bem…

Uma história de vida, contada em anonimato à página 69 Letras

© 69 Letras 2017


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