Sei-te de olhos fechados

Conto Erótico | M 🔞🔞🔞

Quem és tu que me lês assim, desta forma insanamente deliciosa? Tateando sabiamente teus dedos por entre os arrepios que provocas, escrevendo assim em Braille no caderno pautado de meu corpo desnudo, nas entrelinhas da pele que se enruga ao teu toque e, sobretudo, nas margens de meus limites, essas titubeantes e molhadas bordas? Quem és? Não consigo ver, pois meus cerrados olhos turvaram e encheram-se de mundos por descobrir, tão prazerosos… Sou um livro, abro-me por completo e deixo-te folhear com deleite, cada folha nua de meu ser… Não, não tenho vista, porque de tanto me olhares e cobiçares com esse teu descomunal tesão, ma roubaste por inteiro.

 

Faço-me momentaneamente cega, mas tenho os olhos abertos por detrás das cortinas de minhas pálpebras. Descobri que afinal vejo-te melhor assim, bem focado (no que fazes), cristalinamente nítido (no apetite com que me devoras)… Ceguei devido a esse crescente prazer que me fazes sentir, a cada roçar tépido desses dedos que rumam à fendida gruta, que despudoradamente abro para ti. Quero sentir a surpresa de algo que me invade e por isso mergulho mais e mais fundo nessa negritude onde me encerro. Não quero saber onde, nem quando. Mantenho-me vedada, vendada pelo torpor induzido por essas tuas palavras de veludo, que mais me parecem guturais gemidos a ecoar nos meus recantos… Porque o escuro é bom, é cálido, é ventral, é dentro… quero e imploro de olhos fechados, sinto minha imaginação gritar e meu corpo, tateando à procura do teu, contorce-se para melhor te acolher. Sinto teu odor, inebriante, morno e ainda perfumado, cheiras a mim e a ti, a desejo, a sexo crú.

 

Visualizo-te assim, sem te ver, e à minha frente vislumbro, com surpreendente clareza, que se levanta esse teu imponente mastro. Permito-me ansiar pelo que ai vem, os restantes sentidos ao rubro, sabendo que a todo momento serei invadida. Sinto, sinto, sinto que é mesmo agora — que delicia…. Olho, mas apenas com a alma, e vejo, mas apenas com a minha mucosa ruborizada e húmida, toda essa pungente expressão carnal de ti alojando-se, gostosamente devagar, em mim. Sem pressas, sem pudores, engolfo-o com minha interioridade e abandono-me ás sensações eletrizantes que em mim despertas… Ritmo viciante naquela cadência certa, vai e vem, toca e foge, entra e sai, alarga-me a cada investida… Quero mais, ai, Deussssss…

 

Sim, sou cega por devoção, mas apenas devota ao desejo carnal em ti personificado, cega pelas explosões de volúpia e frenesim que arrancas a rodos de mim… minha boca abre-se, como peixe fora de água, mas afogo à nascença os gritos que nela afloram e faço-me muda, já que meu corpo fala por mim, tão, mas tão, descontroladamente no entrechocar teu e meu…

Sou cega por querer não te ver, sabedora que assim melhor te irei sentir, todo tu, todo dentro de mim… assim toldada, sem visão, entrego-me totalmente, confiante e sem tabus, corpo e também pensamento. Tens-me por completo…

Sim, sinto-me o teu livro para invisuais, mas também a tua biblioteca de sentimentos arrancados ao diário de teus pecados mais íntimos…

Com a força de mais um orgasmo, fecho ainda mais os meus olhos já fendidos, pois assim faço-te meu e és só tu, mas também todos os homens. Sim, todos aqueles que nas noites púberes fantasiei e, agora que te encontrei, desaguam e se mesclam em ti — esse Homem que atracou nas minhas coxas e mantem a sua âncora profundamente mergulhada nesse imenso mar agridoce, que goteja do meu sexo a cada espasmo do meu gozo, em golfadas que não parecem ter fim…

 

Ainda ofegante, sentindo meus seios estremecer graças ao trotar de meu acelerado coração, não abro ainda os olhos e nessa minha possessiva negritude interior, sinto-te que és o MEU homem, aquele que deixo que me possua, mas que afinal e no final é possuído.. sim, meu segredo, porque ao fechar os meus olhos te faço meu e de mais ninguém e eu sou eu, na mais pura essência do desejo carnal que a ninguém mais ouso confessar. Sim, no escuro do olhar fechado é onde me encontro e expresso melhor, pois nesse lusco-fusco embalo e adormeço a timidez e abro a porta á ousadia desta outra e desconhecida mulher — que te surpreende, fustiga e atormenta propositadamente, com todo esse desejo que te volve e envolve e te faz voltar por mais, sempre mais, insaciável…

 

Abro os olhos, aos poucos, e sorrio derreada para esse novo amanhecer que depois de me vir em ti e para ti, já desponta novamente por entre meus montes e vales… sim, essa paisagem de montarias que novamente te deixo lavrar, com dedos e língua e onde tu soltas esse cabreados beijos, inebriados pelo sanguíneo tesão que em ti renasce…

 

Anseio pela nova noite de mil estrelas, que esse teu olhar sacana, tão meu conhecido, me promete em juras silenciosas de prazer que me ficas a dever e eu vou cobrar já… Tacteio e afago essas esfericidades, repuxo e apalpo esse membro, sinto-o ainda molhado de mim, mas já reativo, crescendo á leitura de sua texturada superfície pelos meus dedos esguios — esses mariolas, que vão cabriolando por entre as tuas salientes e palpitantes veias, e que, como por milagre, insuflam vida no que até à pouco era um morto-vivo. Ah santo tesão que, como que a procurar o sol, me deixa apreciar esse refulgente moranguito vermelho-tesão frutificar no grosso caule que se ergue do solo de teu corpo. Somos insaciáveis e sem vergonha… ou talvez não! Somos apenas desejo e vontades expressas e esculpidas em carne.

 

Deixo-me afundar nos lençóis, ainda húmidos de nós dois, quando te deitas em mim e fecho meus lânguidos olhos, que beijas com carinho, como que a pedir permissão para o doce castigo que me queres infligir — aceitando-o, sem pestanejar… Entranhada de novo nessa escuridão, recriada pelos olhos já fechados, sinto-te como nunca te sentiram, conheço-te em todas as tuas dimensões: sinto-te belo e o melhor amante do mundo… És essa jóia única, por mim facetada a desejo e amor, que me obrigo a guardar-te, tão ciosa, no meu escuro cofre onde ninguém te roubará! Fecho os olhos e assim em mim permanecerás, encarcerado, até que cumpras a tua pena e pagues por todos os teus pecados da gula, saciando-me mais uma vez… “Como é bom castigar-te com toda esta minha “crueldade”, não concordas, meu doce?” — exclamo, na única vez que falei, enquanto me vanglorio para mim mesma “Ah, sei-te de olhos fechados…”. E compartilho-te generosamente comigo mesma…

 

© Rei de Espadas

Janeiro, 2018

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