Perfume…

Hoje não sou eu…
Também tenho os meus momentos de insanidade controlada que me descontrola.
Perco-me de mim e saio à procura de outros toques, outros sabores e cheiros, outros corpos… Deixo-me levar pela decadência da noite perdida nos becos e vielas de um qualquer bairro de Lisboa, onde a vida é espontânea e corre sem se importar com moralismos.
Cruzo-me com alguém com um perfume inebriante, que me aviva ainda mais os sentidos, e procuro quem seja, no meio de um mar de gente entregue á necessidade premente de esquecer os problemas e apazigua-los em álcool.
Como esperado, acabo por me cansar… Era inútil a minha demanda…
Dou meia volta e decido voltar para casa.
Eu dei meia volta mas o sapato não, ficando preso no meio das pedras da calçada e fazendo-me cair no chão meio descomposta.
De repente, aquele aroma de novo…
Sinto umas mãos largas e fortes que me agarram por traz, pela cintura, e me levantam, enquanto me sussurra ao ouvido com uma voz quente e doce “Devia ter mais cuidado menina!”
Era aquilo… Era tudo o que procurava, um arrepio que me percorria de alto a baixo, me deixava as pernas a tremer e fazia sentir tão viva, e ainda não lhe tinha visto a cara, pois continuava agarrado a mim como íman em que não me conseguia soltar.
Quando finalmente me viro, cruzamos o olhar. Moreno de olhos azuis cor de mar, um charme de cortar a respiração e um perfume que nos envolvia. Foi mágico, perdemo-nos num olhar que nada precisou de dizer, enquanto ela me ajudava a ajeitar ao de leve o decote do vestido que já tinha exposto mais do que devia.
Cada pequeno deslizar de dedos queimava-me a pele, era inevitável sentir.
Sem palavras, encosta-me à parede e perdemo-nos num beijo demorado, que bem depressa se tornou mais do que isso. Num misto de sensações, de risco, tesão e luxúria, acabamos por nos entregar e esquecemos tudo o resto.
Usamos e abusamos um do outro até nos saciarmos, por necessidade ou instinto, de forma urgente, carnal, mas no fundo ambos sabíamos que era bem mais do que isso.
Satisfeitos, de sorriso nos lábios, trocamos números de telefone e nomes enquanto me acompanha ao carro. Despediu-se com um beijo na testa e desapareceu no meio da multidão que ainda vagueava sem rumo.
Dirijo-me a casa, envolta em incredibilidade por ter feito o que fiz, era um estranho, provavelmente nunca mais o veria, nem repetiria a experiência por ter sido tão intensa e avassaladora.
Mas o perfume… Esse tinha ficado entranhado em mim…

© Miss Kitty 2017 #69Letras

Deixar uma resposta