O que é bonito

o que é bonito?

bonito é o que persegue o infinito, bonito é o que persegue aquilo que não tem limites, bonito é o que persegue uma grandeza cujos valores não são limitados, bonito é o que persegue o incalculável, o imensurável.

a beleza é coisa que se pretende grandiosa & eloqüente. a beleza, por seu caráter de encantamento, admiração ou prazer através dos sentidos, quer durar, quer ficar para sempre, não quer passar.

mas eu não sou. eu não sou infinito, muito pelo contrário: o dia, um dia, dá cabo; um dia, acabo; um dia, adeus.

por isso (por ser finito, por ter limites, por não ser grandioso), eu gosto do inacabado, do imperfeito.

eu quero o estragado, o vencido, o danificado, eu quero o que “dançou”, o que não se saiu bem, o que se saiu mal.

eu quero mais erosão, mais desgaste, mais corrosão, quero, cada vez mais, ser consumido pelo tempo, e menos granito — menos rocha, menos dureza, menos resistência.

quero estar apto a mudanças, a transformações, na consumação do tempo.

eu quero namorar o zero, que é o início de tudo, que é o ponto de partida para qualquer coisa. eu quero namorar o zero porque desejo estar apto a mudanças, apto a transformações: desejo aptidão para recomeçar sempre que preciso for.

eu quero namorar o “não”, que é impedimento, que é negativa, que é recusa, porque a vida é feita de perdas, a vida é feita de impossibilidades, a vida é feita de frustrações, e eu, como participante do mundo, sei que não escaparei dos “nãos” a mim reservados.

eu quero escrever o que desprezo, para que nunca me falte a noção dos meus muitos limites & das minhas muitas incapacidades, para que não me cresça, nunca!, o rei na barriga & sua arrogância aristocrática.

eu quero desprezar o que acredito a fim de poder acreditar em diversas outras coisas caminho afora, eu quero desprezar o que acredito para que eu conserve, em mim, o eterno aprendiz, conserve, em mim, aquele capaz de aprender com o que a vida ofertar de vivências.

o que nos impulsiona à vida é o desconhecido, o que nos lança à vida são os não-saberes. se de tudo soubéssemos, se tivéssemos as chaves de acesso ao mundo, a vida seria um caminhar chato, de estrada previamente delineada.

eu não quero a gravação — coisa que está aí, já feita, já editada, já devidamente guardada. eu quero o grito — o que ainda vai ser lançado, o que está por vir, o que está em processo de construção: é que a gente vai (afinal, um dia, acabo, um dia, adeus) & fica a obra (a gravação, coisa que está aí, já feita, já editada, já devidamente guardada), e eu persigo o que falta (o que ainda vai ser lançado, o que está por vir, o que está em processo de construção: o grito), não o que sobra (a obra).

eu quero tudo que dá & passa — tudo que estraga, tudo que perece, tudo que se desgasta, tudo que se deteriora.

eu quero tudo que despe, se despede, e despedaça: quero tudo que é feito nós, seres humanos, tudo que é feito de nós.

eu quero a vida que me cabe no seu breve tempo de sonhar & amar.

Paulo Sabino

#69letras

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