Desnecessário

Chegaste de rompante. Tu dizes que não – que há muito te fazias chegar… Mas eu não tinha dado conta e então, para mim, foi de repente que apareceste. Chegaste e impuseste a tua presença. Eu tentei escapar.

Esperneei e recuei numa tentativa atrapalhada de não te deixar aproximar mais. Mas tu fizeste questão de transpor todas as barreiras que eu tentei erguer. Esmagaste-as com as tuas mãos de gigante – as mesmas que romperam o meu peito e seguraram o meu coração.. Tinhas um aperto tão firme, as suas rachas mal se viam e ele quase parecia inteiro…

Lutei enquanto senti a minha alma derreter sob o sol que trazes nos olhos. O sol… f@da-se!… Carregas todo o céu no olhar que reservaste para mim…

Mas lutei em vão. O mal já estava feito.
Entreguei-me com uma ingenuidade infantil, como se nunca tivesse amado… Como se a inocência de quem ainda não foi quebrado morasse em mim…
Esqueci-me que te queria resistir, que o sensato era fugir. Conseguiste convencer-me que afinal, eras mesmo tu o que eu queria e, assim, raptar-me. Eu já não me pertencia; era tua – só tua…

(…)
E depois… Silêncio.

Tão repentino quanto a tua chegada, tão fulminante quanto o teu amor – a sua ausência.
Silêncio.
Um silêncio gritante que me ensurdeceu de dor.
Silêncio cruel, dando voz à inutilidade do empenho com que conquistaste o meu coração danificado.

Desnecessário, tudo isto. Torna a dor mais pesada. A frieza do teu gesto impiedoso que criou um espaço sem ter intenção de o preencher.
Se não pretendias que te amasse, porque vieste tu em busca do meu amor?…

~Só 

#69letras

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