Soldado

Lá íamos nós marchando ao sabor da canção, focados e ansiando o que ia vinha.
Querendo ou não o dever chamava por nós e agora era tarde para pensar em fugir ou regressar. Foi o que jurámos fazer e é o que faremos cumprir.

Olhei para ele e notei-o motivado. Ele estava louco por isto, sempre quis defender a pátria sem qualquer receio. Ao contrário de mim. Tinha que admitir, nestes momentos, ficava nervoso. Tão nervoso que muitas vezes tinha que fugir do grupo para ir à casa de banho. Os nervos não tinham piedade de mim.

Em vésperas de viagem o ambiente era de festa. Não de uma festa de celebração. Era um tipo de festa diferente. Muitos de nós que ali estavam sabiam que poderiam não regressar. Eu era um deles. Sentia em mim uma espécie de presságio, não estava nada confiante. Mas o clima que se vivia conseguia de certa forma afastar aquele medo. Novas canções era entoadas, letras que recordavam quem somos, e para quem somos. Eu apenas me recordava da minha amada. Não lhe quis contar nada. Era o melhor a fazer. E conhecendo-a como conheço iria ficar doida e em pânico todo o tempo. Poderia ser que isto acabasse rápido…

Acordou-se cedo no dia da partida, para quem dormiu… Não consegui pregar olho e sentia que tinha corrido quilómetros seguidos, nem unhas tinha, raios dos nervos. Ao fim de umas horas, todos prontos e alimentados seguimos caminho. Tudo sentado no avião que nos transportaria. Duas filas de soldados, frente a frente, vinte para vinte. Aqui o ambiente mudou radicalmente. Olhos frios, olhares fixos ou transparentes. Algumas almas tinham abandonado os seus corpos, pensativos, reticentes, preocupados. Mas não era medo. Todos apenas queríamos regressar. Todos.

Ao meu lado, estava ele. O meu melhor amigo e companheiro desde infância. Sem perto para me safar das encrencas e salvar de bullying. Nem nestas alturas ele me deixava de encorajar. E ele tinha percebido do meu nervosismo. Estendeu o seu punho num gesto de “brofist” e correspondi.

Sorriu. Nós não precisávamos de falar muito, os anos trataram de criar uma linguagem própria para nós. Telepática diria.

Sentimos uma turbulência no avião que fez com que todos os corpos ganhassem vida novamente. Agora sim, diria que mais de metade demonstrou algum nervosismo. O que era mais que justo, dentro de momentos estaríamos em campo de batalha e ninguém poderia julgar o que fosse. O soldado da minha frente não parava quieto com as pernas, coitado estava a passar mal, tão mal quanto eu nos dias antes. Incrivelmente, sentia-me menos nervoso, talvez porque finalmente o dia estava a chegar e sabia que mesmo que quisesse tinha que ir para a batalha.

“Está quase… Está quase…” – Pensava.

Recebemos indicações do responsável que dentro de instantes teríamos de saltar do avião. O momento chegou…
Todos nos levantámos num ápice. Todos preparámos os nossos equipamentos de saltos, armas prontas, primeiros socorros, e muita respiração sincronizada… O ar pesava agora. Doía respirar até.
Ele parecia-me calmo, demais até.

– Salta a seguir a mim, fica por perto rapaz! – Disse-me
– Obrigado, sim! Saltarei logo a seguir! – O vento que se fazia sentir dificultou-me a saída das palavras, tive que dizer tudo quase aos berros. – Boa sorte! – E desta vez fui eu que estendi o punho.

Sabíamos que lá em baixo as coisas seriam totalmente diferentes. Não estaríamos sozinhos. Estaríamos com alguém que sem querer saber nos tentaria matar. A frio. Sem perguntas. Nem porquês.
Teríamos pouca probabilidade de sair completamente ilesos, estávamos em minoria mas o talento residia em nós. Ele era dos melhores soldados que tínhamos. Saltámos…

O ar que nos passava pelo corpo todo era gelado, pareciam lâminas a roçar a pele. A vista… Era o oposto… Rastos de destruição… À medida que íamos aproximando do solo, víamos outros soldados que antes tinham tentado a sua sorte. Vimos sangue, bastante sangue… Vi-o aterrar e direccionei o meu para-quedas para perto dele. O cenário era vazio… Cheirava a ferrugem, ferrugem e pólvora… Ouvíamos gemidos, gritares de aviso, tiros e pareciam que vinham de todos os sentidos. Os nossos instintos de alerta estavam ao rubro. Escondemo-nos numa trincheira que ali estava abandonada apenas com alguém capacetes desencontrados dos seus soldados. Tinha começado a chover… O que nos dificultava a visão… Estávamos ali sozinhos e sem saber onde estava o inimigo. Tínhamos que esperar reforços. Mas onde estariam? Não teriam saltado muito depois de nós… Deveriam estar a chegar.

Ele olho para mim e percebi o que queria fazer. Era arriscado mas naquela situação não tínhamos muita escolha. Tentei convencê-lo a deixar-me ser eu a ir até à trincheira da frente. Seria um risco, mas separados seriamos mais difíceis de abater. Por último ele lá me deixou avançar. Não seria muito difícil chegar até ao ponto. O chão estava lamacento e a saída da trincheira foi complicada. Era pesado caminhar naquele solo… Os corpos espalhados também não ajudavam.

Ouvi uns gritos, não soube perceber se era da nossa companhia ou se era inimigos e escondi-me atrás de uma árvore. Estava de frente para a trincheira que tinha deixado. Mas não o conseguia ver. Deveria também estar escondido…
Estava. Mas… Tudo ficou lento aos meus olhos. Todos os segundos tinham abrandado. Via tudo claramente… E vi a granada… Via saltitar com destino… Foi precisa e directa… As palavras encheram-me o peito e tudo o que saiu fui um grito para o alertar…

Tarde…

Vi a trincheira ir pelos ares… O impacto da explosão atirou-me contra a árvore que tinha nas costas fazendo-me embater violentamente com a cabeça e perder os sentidos momentaneamente… Recuperei mas estava surdo e não percebia nada do que estava à volta… Sentia-me dormente… E em pânico… Porra… E agora?? Estou a morrer? Berrei com todas forças e só assim percebi que ainda tinha audição… Já conseguia enxergar o que me rodeava… Havia muito fumo… Mais gritos distantes… Sentei-me e só assim percebi que estava gravemente ferido numa das pernas e tinha o pulso partido… Estava a perder muito sangue… Mas lembrei-me… ELE!

Havia um fumo abismal a sair da trincheira… Rastejei até ela… Arriscando a minha própria vida… O que vi era algo que nunca desejaria a ninguém… Ele não tinha sobrevivido… Não o consegui avisar a tempo… MERDA! Senti como se tivesse perdido a guerra. Arriscada a cada segundo a minha vida ali, à beira daquele fosso que levou a vida do meu melhor amigo. No estado em que me encontrava, anestesiado pela perda… Desolado e literalmente de rastos não me preocupei em proteger. Entrei num estado em que me estava a borrifar para o que viria… Só tinha pensamentos sobre o que sucedera… A vida que tinha sido perdida desta forma tão estúpida… E agora??

Pois bem… A minha missão começava agora.
Eu não podia abandonar tudo como tencionava fazer. Seria egoísta da minha parte. Todos nós fomos para ali com um propósito… Proteger o nosso povo. Aquilo que eu não consegui fazer com ele tinha de ser compensado de outra forma. Além disso ele tinha uma família. Tal como a minha. E agora, principalmente agora, não poderia ser o medroso e deixar-me ficar ali… Muito menos deixar duas famílias para trás. Eu conhecia a família dele tão bem como a minha. Além de camaradas da vida, as nossas famílias coexistiam muito no dia a dia. E eu não poderia deixá-las assim. Tinha que escapar dali, naquele estado não faria muito. Rastejei… Custava-me horrores. As lágrimas caíam-me desamparadamente…

“Eu voltarei… Um dia…” – Eram as palavras que me ocorriam… Nasceu uma sede de vingança… Mas não seria o momento certo… Um dia.

Ouvi mais tiros e gritos… Desta vez da minha companhia… As lágrimas escaldavam a minha cara e as palavras já não saíam… Tinha ficado sem voz dada à emoção…
Estourou uma outra granada desta vez não perto de mim mas que em encheu de terra e algo pesado tinha acertado em cheio na minha perna já ferida… Era uma dor imensa… Já não me conseguia mexer… O peso era enorme… Era injusto estar a passar por isto tudo…
Todo o ruído foi-se distanciando… Eu já sabia o que aí vinha… Não assim, não assim… Ainda não…

– Aguenta soldado!!! – Ouvi ainda… Mas perdi os sentidos.

Tudo me custou uma perna e um pulso que nunca mais foi o mesmo. Tudo me custou um amigo, o melhor amigo, um Soldado.
Tudo me custou um sofrimento tamanho e tudo me custou a desgraça de duas famílias. É um peso que carrego. Um fardo. Sinto que tudo poderia ter sido diferente. Hoje poderíamos estar os dois a cantarolar canções da companhia e a beber cerveja. Hoje não o tenho… Hoje tenho apenas esta missão que carrego e que me custa, que me culpabiliza, que me julga a toda a hora e que me obrigou no regresso da guerra falhava a transmitir a pior das mensagens que podemos imaginar. A verdadeira missão foi essa. Não foi matar o inimigo, não foi chegar sem uma perna. Foi assistir aos olhares da família quando carregamos mensagens que não existe tom para as dizer. E este fardo sim, é uma canção que sempre me irá acompanhar… Cantávamos para nos motivar… Hoje não canto… Hoje o silêncio é a música que me tormenta. Sinto-me impotente, preso a uma cadeira… Soldado. Tal como o momento em que vi a granada saltitar…

Este conto é apenas um sonho que tive. Nada disto se passou. Felizmente.
É sempre bom sabermos que de um momento para o outro podemos passar do 8 para o 80.

A vida nem sempre é um mar de rosas.

© 100Modos 69 Letras® 26.05.2017

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