Sentir por uma cicatriz

…mulheres que optam por parto natural, essas sim coitadinhas, é que sofrem…

Ora aqui está um dos temas que dividem mulheres e unem gentes de ideias feitas! Mais uma vez, vou dar corpo à minha voz e abrir cicatrizes, que embora cheias de orgulho, me doem como ser humano.

Quero iniciar este meu testemunho pessoal por dizer que nenhum ser humano é coitadinho. Se nem os cegos ou incapacitados fisicamente o são, porque carga de água é que uma mulher num ato de coragem pode ser considerada uma coitada?

E coragem porquê, podem alguns de vocês me perguntar. Muito simples, depois de ouvir as histórias macabras de sangue a jorrar por todos os lados acompanhados dos gritos de dor, para já não falar de trazer mais outro ser humano a este mundo já de si no mínimo injusto com toda a responsabilidade e trabalho árduo que isso acarreta, é preciso ter-se uma boa dose de valentia. Concentrarmo-nos somente na ultima parte do ” Ah mas depois vi o meu filho nos meus braços e esqueci-me de tudo.” Deixem-me que vos diga, não é para todos.  Como compreendo aqueles casais que simplesmente decidem não ter filhos.

Mas voltemos à questão! Cesariana ou parto normal? Opção ou comodismo? Quem sofre mais ou menos?

Bom, deixem-me que vos diga de uma maneira muito simples. Caso não houvesse a opção, eu nem tão pouco estaria a escrever-vos deste assunto. Porque a esta hora não seria mãe. Talvez nem fosse gente já.

Amo o meu corpo, com todas as curvas e declives, quilos a mais e cores desmaiadas. Mas, e com muita surpresa minha, pertenço ao conjunto de mulheres que têm o interior da bacia demasiado estreito para um bebé de peso e altura dentro dos padrões normais puder nascer de parto normal.

E só se descobre isso quando? Na hora H. Pois claro.

Cesariana, além de opção, tornou-se uma questão de vida ou morte. A epidural deixa de fazer efeito, as dores já sem intervalos mas partimos para uma cesariana. E a partir desse momento deixo de pertencer ao clube das ” mulheres coitadinhas” e entro sem desejar ou passar por testes ao clube das “cómodas”.

No entanto, oiço o chefe de anestesia a esclarecer-me dos perigos de uma segunda epidural, as consequências e tal…mas eu pertenço ao clube das “cómodas”…

De barriga gigante colocam-me sentada de pernas abertas numa mesa de operações com pouco mais de 50 centímetros de largura. A tremer com as tais dores que deveria não sentir e esforço-me quase até desmaiar para manter meu corpo quieto para a segunda dose de milagre.

E agora vos digo, caros membros da sociedade e irmandade feminina! Trazer um filho ao mundo por cesariana implica dor sim e muita! Muita ponderação nas tais decisões dadas no calor do momento mas com consequências drásticas para o resto das nossas vidas. É ouvir nosso marido soluçar por trás de uma porta automática impotente sem nada puder fazer  e implorar aos médicos para que salvem sua esposa e filho. É sentir o calor de seu filho pela primeira vez no pescoço porque a anestesia não permite abraçá-lo. Implica demorar dois dias até conseguir pôr-se de pé novamente e mesmo assim sentir dores apesar da morfina injetada nas suas pernas diariamente. Implica um útero que teima em voltar à sua posição normal e  o demorar do voltar à tão desejada normalidade para que possa disfrutar daquele ser tão pequeno e frágil.

Mas se me perguntam quem sofre mais, mulher que teve filhos por cesariana ou por parto normal, eu digo; depende do desejo da mesma na maternidade. Se engravidou ou não voluntariamente.

Porque no fim de tudo passar, olhamos para eles e sorrimos. Esquecemos as dores, as suplicas, os riscos e até os gritos. Somos todas MÃES. Não é o meio mas sim o objetivo que interessa, excecionalmente.

E acredito que a esmagadora maioria passaria por tudo novamente. Certo?

E agora pergunto as tais senhoras que pregam o estado de complacência das “coitadinhas” , tive todos os meus filhos por cesariana, serei menos mãe? Não sofri o considerado mínimo aceitável?

Eu sei que sou! E não sofri mais nem menos do que as outras! Sofri o que foi necessário para que pudesse trazer ao mundo o meu maior orgulho.

Autora da página Deusa Do Caos

 

©Miss Steel 69Letras 2017

 

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