“Can I help you, Sir?”

Lembro-me perfeitamente da infância feliz que tive.
Amigos, brincadeiras e principalmente, da escola!
Bom, não da escola em termos de aulas e professores, mas dos amigos! Das brincadeiras nos recreios! Das amizades feitas! Das nossas amigas (que queríamos sempre distância até porque só de pensar em beijar uma menina, nos deixava “mal vistos” em frente ao nosso “gang” masculino…), e principalmente das nossas primeiras “paixões”!
Não façam essa cara, porque todos as tivemos!
Os bilhetinhos que circulavam de mão em mão até chegar ao destino que queríamos, os olhares, os suspiros, enfim, tal como disse, as primeiras paixões!
E lembro-me bem da minha!
Cabelos castanhos, olhos de um verde que nunca vi em mais ninguém e (se algum dia leres isto, perdoa-me…) a mais pequenina da turma inteira! Não sei se foi isso que me levou a olhar mais para ela, mas o que é facto, é que para mim, com 8 anos na altura, era a minha Deusa!
“Deixa-te dessas coisas e vê lá se estudas!”, repreendeu a minha mãe quando cheguei a casa um dia e disse que me queria casar com a Lyla. Com 8 anos, vejam bem!
Durante a festa de final da 4ª classe, tomei coragem, enchi o peito de ar e dirigi-me a ela.
-Olá. Agora que vamos mudar de escola, posso ao menos ter um beijo teu?
-Olá. Um beijo?! Com os nossos pais aqui? És maluquinho, só pode! Fazemos assim: prometo que quando regressar das férias de Verão, te dou o beijo! Afinal de contas moramos na mesma rua. Não me vais perder!
As férias passaram…
Os anos também…
E essa promessa ficou guardada comigo, até hoje, à idade adulta, uma vez que ela tinha ido de férias com os pais para outro país e por lá tinham ficado.
Felizmente hoje em dia com as redes sociais, encontramos quem queremos e por vezes até quem não queremos.
E assim foi!
Encontrei a Lyla! A menina por quem eu me apaixonei na escola primária, hoje era uma mulher! E que mulher!
Licença sem vencimento no emprego e Sin inicia a sua demanda em busca do Graal!
Mota pronta, mochila às costas e parto então para a minha viagem de louco o suficiente para percorrer centenas e centenas de quilómetros de mota, debaixo de calor, frio e chuva!
Mas iria valer a pena! Oh se iria!
Muitos dias depois, chego ao meu destino!
Dublin, Irlanda!
Embora cansativa, adorei a viagem! De mota tem outro gosto! Experimentem um dia. Viajar pelo meio de todas aquelas montanhas baixas e respirar aquele ar de campos agrícolas verdejantes, faz-nos sentir corajosos o suficiente para enfrentar qualquer loucura!
Dirigi-me ao The Brazen Head, o mais antigo e tradicional pub da Irlanda, como assim é conhecido, pois os frutos da minha investigação serviram para saber onde ela trabalhava.
Paro e desmonto da mota, tiro o capacete e entro.
Já concerteza viram filmes em que um estranho (bem sujo e a cheirar a fumo de escape) entra num bar e toda a gente se cala e dirige os olhares para ele! Aqui o momento foi igual!
-Good afternoon gentlemen – disse em tom firme!
E todos me cumprimentaram cordialmente da igual maneira, voltando ao que estavam a fazer.
Sento-me numa mesa ao canto, bem recatada.
Os meus olhos “varrem” a zona em busca de a encontrar.
Absorto nessa busca, nem reparei que ao meu lado estava uma rapariga de pé, pronta a atender o meu pedido.
-Can I help you, Sir?- aquela voz…
Só podia ser ela! Olho para o nome da placa… “Lyla”!
Olhos para os seus olhos! Para aquele verde que me apaixonei há 29 anos! Era ela!
E ali estava diante de mim!
-Yes you can…Lyla. A Guinness, please.
Virou costas e atendeu ao meu pedido. Continuava a ser aquela menina pequenina que me fazia estar desatento nas aulas! Mas agora uma linda senhora!
Regressou à mesa com a minha cerveja.
-By your accent I can tell that you’re not from here. Where are you from, stranger?- perguntou com um sorriso na cara.
-Portugal. Éramos vizinhos. E colegas de escola- respondi em português.
Os seus olhos abriram-se ao mesmo tempo que a sua boca!
-Sin?! És mesmo tu??
-Olá Lyla. Sim sou eu.
-Meu Deus, há quantos anos! Que fazes por aqui tão longe de casa?! Como me encontraste??
Não respondi logo. Decidi apenas olhar para os seus olhos e contemplar o momento, sentindo-me aquele menino de outrora. Ela entendeu o olhar e avançou…
-Sin, o que vou perguntar vai parecer tolo, mas…vieste ao meu encontro passados todos estes anos só por causa da…
Beijei-a!
Um beijo único de amor e desejo pela mulher que arrebatou o meu coração quando éramos crianças inocentes!
O meu beijo!
O nosso beijo!
O beijo que outrora havia sido prometido, foi cumprido!

7thSin✟ 69 Letras® 02.02.2017

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