Almas casadas em corpos diferentes

Nem chegou a cinco minutos. Isso mesmo. Cinco meros minutos.
Recordo-me perfeitamente.

Aprontei-me com cuidados reforçados e com aquele perfume que sempre me acompanhou. A caminho, praticava como iria abordar à primeira vista. Com um beijo na face ou dois? Um abraço? Nah, um abraço poderia ser algo intruso, meio exagerado. Arriscaria? Decidi fugir ao pensamento. Vá 100Modos, não é assim tão difícil, ao fim de contas é uma pessoa.

Antes fosse.
Ainda não te tinha visto. Não com os nossos olhos conectados. E de certa forma isso deixava-me nervoso. Estômago a mil. Ai ai, já sei que quando sair da estação vou esboçar um sorriso escancarado como um criança que vê um parque de diversões, será a minha denúncia e o içar da bandeira branca de todo este preparo. Era a única coisa que pensava enquanto de estação a estação ia vendo as horas que lentamente mudavam uns meros minutos. Até as estações pareciam mais distantes. Talvez até as pessoas que me acompanhavam naquela carruagem já sabiam para o que eu ia.

O momento chegava. Saí do metro, caminhava a passos pequenos​ mas tentava manter o compasso sem que parecesse um embriagado stressado. (O meu respeito para os embriagados stressados)
Antes de subir as escadas da saída da estação ajeitei-me confirmando que estava tudo no devido lugar e apresentável. Subi, a esforço, mas subi. As pernas cediam aos nervos e o meu peito sentia o cansaço a triplicar, parecia que ia explodir. Como a estação era meio escura ao sair parecia um morcego a tentar localizar-me. Estava sol o que dificultava ainda mais a ambientar-me. Parei e olhei em redor e tudo a partir daqui me parecia diferente.

Vi-te.

Estavas do outro lado da estrada. Aguardando a minha chegada. Sim, os homens também se atrasam.
Olhavas para o outro lado da estrada, talvez eu tivesse saído do lado errado, mas foi melhor assim, ganhei uns segundo para que pudesse pensar rapidamente como lidar com este primeiro impacto. À medida que me ia aproximando ias rodando o teu corpo. Não já!!! Pensei. Não te vires já!!!! Porra 100Modos, já estás a tremer, força homem!

Foi em vão. A menos de quatro metros de ti ficamos de frente um para o outro. Naquele instante, tudo que nos rodeava era como se nunca tivesse existido. O espaço, bastante povoado até, era completamente ignorado por nós. Como previsto esbocei um sorriso rasgado pelo embaraço e retribuíste com o dobro da intensidade. A energia voltou a mim. Um calor apoderou-se do meu corpo e o frio deixou de fazer parte daquele cenário. Os teus belos, lindos e hipnotizantes olhos tomaram conta de mim.

Não sei se foi a vontade que se adiantou se foste tu quem se chegou à frente. Abraçamo-nos. Não foi um abraço qualquer. Era um abraço perdido e ao mesmo tempo tão recuperado. Eterno. Já vivido em tempos, reconectado.
Não foram precisos cinco minutos e senti que isto era algo diferente. Único. A manter. Um reencontro de uma outra vida. Almas “casadas” em corpos diferentes em novas vidas.

O abraço demorou uns momentos. Deixámos de ouvir, ver, cheirar… Apenas sentir. Seguros e a aos berros da nossa mente “Finalmente, finalmente”

Teria sido à filme. Mas assim que nos afastámos do abraço quis beijar-te. Senti que precisávamos de contar o que tínhamos andado a fazer este tempo todo… Queria loucamente beijar-te. E tu a mim. Mas não.
Tudo era mais forte. Os gritos nas nossas mentes estavam ensurdecedores e era preciso fugir dali… Era imperativo. Não era apenas uma necessidade…

Éramos nós. Finalmente.

©100Modos 69Letras® 27.02.2017

 


 

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