Ab insidiis diaboli, libera nos, Domine.

Devido à profissão que tenho, o cepticismo cedo fez parte inegável da minha vida. Não me podia dar ao luxo de acreditar em tudo o que via. Até porque o que olhos vêem, a mente acredita.
Ponto assente!
Permitam-me que me apresente. O meu nome é Sin, e sou investigador paranormal!
Não é de todo uma profissão levada a sério por muitos, mas acreditem no que vos digo.
O mal existe!
Desde há uns anos para cá, trabalho em conjunto com um grande amigo de infância, que cedo decidiu abandonar as brincadeiras de rua e seguir a carreira do sacerdócio. Quis ser padre!
E desde que terminou os estudos para tal, decidiu seguir o que quase toda a Igreja nega, mas que continua a existir. O Exorcismo!
“(…)designado pelo ritual executado por uma pessoa devidamente autorizada para expulsar espíritosmalignos (ou demónios) de outra pessoa que está num estado de possessão demoníaca.” (Fonte Wikipédia)
Como sempre fui muito virado para esses delicados assuntos, depressa nos tornámos uma verdadeira equipe! E somos requisitados com frequência.
Recebemos centenas de e-mails com pedidos de ajuda de pessoas que têm casas assombradas ou, em alguns casos, até eles estão possuídos por algo que não sabem explicar!
Na (grande) maioria dos casos, tudo não passa de reacções a algo, que faz com que o medo e o pavor se instale. Chãos de madeira que rangem, tubos de água que fazem barulho, humidade nas casas mais antigas, enfim, tudo o que sugira no meio do medo já instalado que não estão sozinhos!
Por isso sou céptico. Tudo é investigado ao pormenor, pesando na balança o cepticismo e a religião, para que não restem dúvidas e que as pessoas possam estar descansadas no seu ambiente familiar.
No entanto, nunca me vou esquecer de uma conversa de copos que tive com o meu amigo padre (sim, os padres também o fazem, são seres humanos), em que ele me disse:
-Sabes Sin, neste Mundo, existem dois tipos de mal. O mal feito pelos homens, que eu apelido de mal secundário. E o mal primário, que é algo completamente diferente, por vezes inexplicável.
-Sabes que sempre fui céptico, certo? Normalmente tudo é explicado pela natureza humana – respondi.
-Então lamento dizer-te, mas nunca viste o mal de verdade!
Aquelas palavras ficaram gravadas na minha memória. Sempre!
Hoje recebi uma chamada do meu “sócio”, logo de manhã bem cedo! Dizia que precisava de se encontrar comigo, pois tinha algo para me mostrar, negando ao meu pedido de me dizer via telefone, porque não me apetecia sair de casa com este frio.
Lá nos encontrámos no café de sempre. Entre a banal conversa de amigos, colocou em cima da mesa um gravador. Pediu para eu escutar atentamente.
A voz era rouca e arrastada, quase como um idoso demente pois toda a conversa não me fazia sentido nenhum. Parecia até meio perdido no que dizia e usava alguns termos em línguas que já nem sequer são faladas.
Franzi o sobrolho e perguntei se ele estava a gozar comigo.
-Não meu amigo, não estou – retorquiu- o que acabaste de ouvir, foi proferido por uma pequena menina de 7 anos.
Gelei! Da cabeça aos pés!
Não queria acreditar!
A conversa que há muitos anos tivemos juntos, materializou-se! E naquela menina inocente de tenra idade.
Fiquei perplexo e o cepticismo esvaiu-se.
Seria o meu primeiro caso a sério! E não sabia se estaria preparado para algo assim.
Nunca estamos! Acreditem!
Depositou-me nas mãos um livro. Bastante gasto, até.
“Rituale Romanum”, estava escrito na capa. Um livro que contém todos os rituais normalmente administrados por um padre, incluindo o ritual do exorcismo.
Pediu-me que o estudasse até à noite pois seria eu o seu ajudante, naquilo que se iria passar logo à noite, na casa da menina.
As horas passaram.
Tinha a cabeça e o coração a mil!
O ponto de encontro era na casa onde pais da menina nos aguardavam ansiosos e com as lágrimas nos olhos.
Nem consigo descrever o momento por palavras.
Pela primeira vez na minha vida, o medo invadiu o meu ser! E o meu amigo percebeu.
-Não te sintas assim. Tens de ser forte. Estas “coisas” alimentam-se do teu medo. Do nosso medo. Faz-te forte! Vais ouvir muita coisa. Não prestes atenção ao que for proferido, pois hoje não vamos falar com uma doce menina de 7 anos. Apenas tens de seguir o que eu te for solicitando. Ok?
Quis responder, mas tremia por tudo o que era lado.
Os pais da menina, encaminharam-nos ao quarto onde ela estava. Abriram a porta.
A menina estava sentada (e amarrada) numa cadeira de madeira, junto à cama. Assim que entrámos, levantou a cabeça, olhou-nos nos olhos, esboçou um sorriso perverso e disse numa voz que nada tinha de menina:
-Estava à vossa espera!
A porta fechou-se bruscamente atrás de nós, deixando os pais no corredor.
Não estávamos só os três.
O coração apertou!
A pulsação disparou!
O quarto estava gelado!
O meu amigo beijou e colocou a estola sobre os ombros.
Olhámos um para o outro, como se tivéssemos acabado de apertar um laço de força e união!
Estamos prontos! E seja quem for que está diante de nós, também!
In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti…
A batalha iniciou-se!..

7thSin✟ 69 Letras® 04.02.2017

Deixar uma resposta