A Vizinha da frente 4

| M18 | Maiores 18 |

“…Campainha…”

Quem estaria a tocar-me à porta a esta hora? Eram 01:20 da manhã e já estava a dormir à umas horas. Pensei em não me levantar, para além de não me apetecer não sabia quem era e provavelmente alguém bêbado estaria a tocar à porta errada.

Mantive-me na cama. Nem cinco minutos tinham passado e voltaram a tocar. Já chateado e irritado levantei-me disparado para atender a porta e a caminho dei um encontrão na mesa da sala magoando-me na perna. Estava meio tonto por me ter levantado rápido. Cheguei à porta e abri.

Nada. Aliás, ninguém. Apenas uma corrente de ar que esbateu no meu peito. Um ar frio mas com um certo cheiro. Eu estaria certamente a ficar maluco. Sentia o cheiro dela em todo o lado, pensava nela em todo o lado e tentava espreita-la a toda a hora. Mas naquele momento não estava ali ninguém, muito menos àquela hora, senti o cheiro. Sorri numa espécie de melancolia.

Ao fechar a porta reparei numa pequena caixa no chão mesmo em cima do tapete da entrada. Fiquei um pouco reticente se haveria de pegar e trazer para dentro. Seria da pessoa que tocou à porta? Confuso peguei na dita caixa. Leve e simples. Fechei a porta e dirigi-me para a sala ainda um pouco a coxear da pancada. Pousei a caixa na mesa da sala e abri a caixa com cuidado. Perplexo com o que estava a ver hesitei em retirar o que estava lá dentro.

Umas algemas. Sim, umas algemas, a sério. O que significaria aquilo? Fiquei uma boa meia hora sentado na cadeira a pensar na vida e naquelas algemas. Sem sucesso fui novamente para a cama, foi difícil voltar a adormecer. Ainda demorou umas horas.

Às 08h acordei para tomar o pequeno almoço e antes do café fiz o habitual. Fui à janela procura-la. Nada como da última vez. O que se passa? Estranhamente ouço um barulho vindo do outro lado da porta. Ninguém estava a tocar à porta mas estaria a fazer algo atrás da porta. Corri até à porta e espreitei. Não vi nada. Abri e foi a mesma coisa. Ninguém e novamente invadido pelo perfume misterioso e reconhecível. Nova caixa. Desta vez com duas coisas. Uma venda e um bilhete.

Abri o bilhete cuidadosamente e estava lá uma frase delicadamente escrita.

– Toquei-me na tua cama ontem de tarde na tua ausência. Espero que não me leves a mal vizinho sem modos… Vemo-nos brevemente. Um beijo da tua vizinha da frente.

Um calor invadiu o meu peito descendo para a cintura provocando uma tesão descontrolada. Caiu-me a ficha ao perceber que estive uma noite inteira a dormir na cama onde ela se teria tocado de varias formas e feitios. Mas como?? Como entrou ali na minha casa? Teria eu deixado a porta aberta? Nem conseguia pensar, a minha linha de raciocínio estava toda baralhada com a excitação. Subitamente as minhas pernas ganharam vontade própria. Dirigia-me para a cama, sem pensar, sem hesitar. Levantei a colcha, deitei-me e cheirei a cama.

Sem sombra de dúvida. Era o cheiro dela, da casa dela. Um odor inebriante que me fodia a alma, que reclamava aquela presença, aquela carne. Fantasiava com ela dia e noite, na janela ou na cama. Sentia que cada vez estava mais perto e ao mesmo tempo cada vez mais me custava. Já me esquecia das algemas e da venda…

Até que o momento chegue… Só me resta…
Tocar-me.

©100Modos 69 Letras® 25.02.2017

A Vizinha da frente 3:

http://sessenta9letras.com/2016/12/a-vizinha-da-frente-3/

 

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