Trabalhos inacabados

| M18 | Maiores 18 |

Não conseguia acabar a porra do relatório. Já estava nisto há algumas horas e começava a ficar impaciente. Tinha que me acalmar por assim não iria a lado nenhum. Fui à cozinha buscar algo para beber mas só tinha álcool. Não podia. Volto para o escritório e reparo que tinha o telemóvel a vibrar. Uma chamada de uma pessoa que já não via há algum tempo, alguém com quem teria partilhado a cama umas vezes. Levei algum tempo a atender pois as memórias tinham invadido a minha cabeça.

As noites loucas, imprevistas, cheias de momentos de raiva e desespero acompanhados de álcool ou de abraços em busca de esquecer um pouco o que se passava para lá das quatro paredes.

Lá atendi. Ouvi uma voz séria que reconheci de imediato, meio imperativa, meio desejosa. Senti-me logo irrequieto e comecei a andar para trás e para a frente no escritório enquanto aguardava que a voz me desse um espaço para perguntas.
Não deu. Foram poucas as palavras que disseste mas foram firmes, seguras e despertadoras. Ainda demorei a perceber que tinhas dito que vinhas a caminho. Levei tempo a processar pois a cabeça estava cheia de interrogações. De onde vinhas? Porquê hoje? Porque eu? O que pretendias? E agora?

E o meu relatório? Tinha que o entregar amanhã…

Pois tive que o deixar de lado, mesmo que tentasse fazer algo contigo aqui iria ser impossível. Bom não tinha muita escolha e estavas quase a chegar. Pelo menos era o que previa. Fui ao bar preparar algo para nos aquecer. Preparo 2 Jamessons mas enquanto decido quantas pedras de gelo devo colocar a porta da entrada toca com fúria. Repetidamente. Vou abrir. Eras tu ofegante. Com um olhar que me congelou fervorosamente. Cumprimentei-te dizendo um olá mas não respondeste. Fui empurrado pelo corredor fora até à cozinha.

Que força bruta… Não era comum seres assim tão agressiva. O que se teria passado?

Ainda tentei soltar um “mas” mas em vão. Dei por mim a ser sentado numa cadeira da cozinha de forma imperativa e afogado num beijo necessitado e devorador. Sentia a alma a sair-me pela boca. Perdi completamente a noção dos pensamentos que tentavam momentos antes se tentavam insurgir. Percebi então. Não era dia para perguntas mas sim para respostas. Vieste ter comigo em tom de desabafo, necessidade, em busca do momento que te fazia sentir mulher e dominante, imperativa e acima de tudo desejada, por mim.

Ajoelhaste-te no chão com um olhar felino para mim. Um olhar fixo, intimidante e ao mesmo tempo ias despertando as minhas calças lentamente. Tocaste-me e fervias, provaste-me e senti o calor da tua boca em mim. Dava-se lugar aos movimentos repetidos e o meu corpo ia cedendo à excitação e à delicia do momento.

Não foram proferidas quaisquer palavras. O vibrar dos corpos comunicavam entre si, eu implorando que não parasses, tu em busca do teu desejo, do meu desejo. Não demorou muito até que o orgasmo chegasse. Pouco depois estavas a devorar-me novamente a alma como se agradecesses. Pegaste nas coisas e as palavras não me saíam. Estava bloqueado e assim permaneci. Foste embora sem nada dizer. Senti que apenas vieste libertar um demónio em ti presente, em ti habitado, irado e a única coisa que ficou foi o silêncio ensurdecedor da minha alma à procura de um norte para toda esta situação. Estava sem forças e já não me lembrava do relatório.

Fuck.

Volto à sala pego no telefone e respiro fundo. Desta vez sou eu quem te liga.

© 100 Modos #69Letras 2017

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