E agora?

Como vim aqui parar?

É assustador como por vezes as coisas passam por nós em momentos que nunca pensámos que poderiam realmente acontecer. Fantasiamos, exorcizamos desejos que fervem sobre a pele, sonhamos, questionamos, lemos e criamos imagens das pessoas à nossa maneira, onde tudo é perfeito. E quando é realmente perfeito? E agora? O que fazer?

Os momentos surgem sem aviso, sem preparos, espontaneamente e causam-nos calafrios, medo até. Ficamos na dúvida e só acreditamos quando estamos cara a cara. Mas da mesma forma que estes momentos aparecem fogem-nos por entre os dedos como se fossem areia. E como tal agarramo-nos com unhas e dentes vivendo aquele instante. Saboroso e pecador. Adão e Eva. Romeu e Julieta. Pois… E agora?

Sentimos o peito quente, um efeito semelhante a uma droga. Sentimos o coração a palpitar como nunca, o ferver do sangue, a boca seca…
Nada era previsto. Nada. Passava horas a ler-te. A desenhar-te… Tal como Jack desenhou Rose… Aliviava-me ao som dos teus devaneios. Abastecia-me com os teus caprichos…
Imaginava-te traçando as linhas do teu corpo com a vibração das palavras que escrevias… E cada palavra mais que absorvia mais sentia o calor dos teus demónios que ferviam na minha pele.

O medo atravessa-me o peito com se fosse uma espada fria. Medo de transformar este pecado em nada. E significando tudo, no pecado permenacerá. Até que o dia chegue.
O dia em que tudo passa a ser visto de outra forma. O medo fica do lado de fora mas as mãos ficam geladas. Os lábios adormecem, o coração dispara e milhares de pensamentos nos invadem sem autorização.

Desde o olhar ao cumprimento.
Desde o abraço ao beijo.
Desde o toque ao respirar.
Desde o sorriso aos arrepios.
Desde o desejo ao pecado.

Desde o gemer à carnificina.
Desde a entrega à possessão.

Tudo é tão perfeito que nem sabemos por onde começar. Não há uma ordem especifica nem nunca existirá. São comandos do nosso corpo dos quais não temos qualquer controlo.
Não sei como lidar com isto, nem o procuro saber, admito. Sabe a pecado, vivo-o como amor, reclamo-o como posse.

E agora?

© 100 Modos #69Letras 2017

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