Acerca de uma outra vida

Passou tanto tempo… Eu sou hoje outra pessoa, parece que foi noutra vida, noutro tempo… A vida passou por mim, atropelou-me, deixou-me andar de mãos dadas com ela e eu passei por ela e ela passou por mim… Está para mim cremado e atirado ao mar o tempo em que o amei, em que ele me ensinou a amar, a ser amada, em que vivemos tantas primeiras vezes juntos, em que os nossos sorrisos eram um do outro…
Queria crer que se o visse na rua já mal reconheceria os traços da face que um dia segurei nas minhas mãos, que comigo acordou tantas vezes… Porque já era, passou, já não fazia sentido guardar aquela lembrança… Atirei também ao mar e quiçá ao vento todas vezes que esse amor foi martelado, todas as vezes que resistimos e o momento em que cedemos, em que quebrámos, em que tudo o que era amor foi transformado em mágoas.
A mulher que há em mim nunca esqueceu as vezes que teve de assumir as rédeas, já que isso passou a fazer parte da minha essência, mas eu tentei guardar na caixa o porquê… Atafulhei no fundo do baú as vezes em que fui força pelos dois, em que engoli o meu sofrimento para suportar o seu, as vezes em que me anulei para ser nós, as incontáveis vezes em que tive de o convencer que o meu sorriso ainda era o nosso… Varri para debaixo do tapete a raiva que acordou a fera que deixou de amar, a menina inocente que se aguentou por carinho, amizade e no fim pena…
Mas bastou vislumbrar aquela silhueta, o jeito de andar que ainda reconheço e por fim a voz para tudo voltar a mim… O nó na garganta apertou e os olhos vidraram de angústia… Tive medo, todas as dores daquele tempo se abateram sobre mim e por mais que não tenhamos trocado mais do que as cordialidades absolutamente necessárias, a corrente de energia que existe entre duas pessoas que já se amaram existe… Ainda que não se olhem, ainda que não se falem, ainda que hoje já não sejam os mesmos, ainda que tenha sido noutra vida…
E naquele turbilhão de emoções e no meio da minha luta pela sanidade que me restava, no alerta vermelho que surgiu no coração que não parava de repetir “lembra-te quem és, lembra-te quem és!!”, eu só queria segurar naquele corpo que sim ainda conheço e dizer-lhe, estou feliz por estares bem… Mas não me faças mais isto…

©VickyM #69letras

Foto: My own haunted Soul by Fred

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