Whisky com duas almas (Parte 8 – Última)

Foi difícil adormecer. Tinha a cabeça cheia de questões e medos. Estaria eu a exagerar?! Dormi aos poucos, com alguns sobressaltos pela noite.
Sei que tinha tido pesadelos, embora não me recordasse. O dia de amanhã tinha que chegar rápido. Deve ter sido das noites mais longas das quais me recordo. Levantei-me e repeti quase tudo o que fiz no dia anterior, excepto lidar com a dor de cabeça, devido à ressaca. Não tinha bebido nada. Depois do jantar, vesti-me com algum cuidado, uma certa vaidade.

Sentia que hoje a iria ver, o que me deu um certo ânimo e confiança. Não era costume ter pressentimentos e, muito menos deste género. Portanto, decidi aceitar e seguir confiante.
Antes da hora fui espreitar o tempo. Estava claramente mais quente que no dia anterior, o que aumentou ainda mais a minha expectativa.

À hora habitual já estava a caminho do bar, as ruas estavam com bastante movimento, parecia dia de festa. Pequenas roulotes eram visíveis com bebidas e bolos à venda para todos os gostos. As pessoas faziam fila para matar as suas gulosices. As crianças corriam de um lado para o outro, entretidas com os seus brinquedos. Era, claramente, um dia fora do normal, mais alegre. Mais dois quarteirões e estava no bar.

Senti o meu coração a acelerar, parecia que ia sair do meu peito.
Após mais alguns passos, lá estava eu à entrada do bar…parei à porta e respirei fundo. Entrei. Senti logo o ar quente típico do bar, o cheiro a madeira nova e a banda musical que tocava na maior parte das vezes.
Os lugares do balcão estavam novamente vazios… Nada.
Senti um arrepio. Não entrei em pânico de imediato, pois ainda passava pouco das vinte e duas horas. Dirigi-me ao balcão e pedi algo semelhante ao dia anterior.

– Uma água por favor. Natural.148065109848842
– É para já! Mas o que se passa? Deixaste de beber? Perguntou o barman em tom de brincadeira.
– Por agora sim… – Respondi, com seriedade. – Talvez mais logo. – Desta vez a frase já saiu de uma forma mais insegura.
– É por causa da mulher? – Perguntou.
– Han?! Viste-a por aqui? – questionei-o, com espanto.
– Já vi que sim. Mas não, não a vi. Aliás, continuo sem perceber de quem falas. Não andarás com problemas de memória? Não a terias visto noutro lugar? – Desta vez foi mais sério comigo.

Esta última pergunta… “Não a terias visto noutro lugar?” Será? Não podia ser… E porque não? Não podia, não podia. Não fazia qualquer sentido. Apesar de não me recordar de tudo, lembrava-me de momentos que tinha com ela aqui no bar, no carro, em casa, no cinema, no café do prédio, no estacionamento, entre milhares de sítios.

– Pois, também as vezes não sei de quem falo… A minha memória está boa, aliás, boa demais. Mas não te preocupes, provavelmente não reparaste nela. – Desta vez fui eu, usei um certo sarcasmo.
– Eu lembro-me de toda a gente que aqui vem e digo-te que de todas as vezes que te vi aqui estavas sozinho e saíste igualmente sozinho. Ora aqui está a tua água. Algo mais? – Questionou.
– Por agora estou bem assim, obrigado! Respondi apressadamente, pois de momento estava em pânico.

Várias e varias foram as questões que submergiam na minha cabeça. Olhei para o relógio, passava uma hora desde que tinha chegado.

Comecei a tremer. Estava a ter uma crise de ansiedade.
Tentei manter a calma, bebi a água e tentei relaxar um pouco, enquanto ouvia a banda. Mais uma hora passou. A minha confiança tinha sido totalmente dissipada. Teria eu sonhado sempre com ela? Se calhar nada disto era verdade e, não passou de um sonho demasiado real. Impossível, pensei. Tínhamos feito milhares de coisas. Eu chegava a acordar com marcas nos braços, nódoas negras, arranhões. O seu perfume. Conseguia sentir o seu cheiro, conseguia saber onde ela tinha passado…
Nada disto poderia ser apenas imaginação. Espera…

sem-tituloGelei. O copo de água escorregou-me pelas mãos, batendo com estrondo no chão do bar. Não podia ser. Fiquei com a boca seca e as mãos geladas. Fiquei em stress total. Não podia ser isto. Levantei-me, paguei e dirigi-me para casa. Corri até casa. O meu pânico era demasiado para ir a caminhar, estava muito perto de um ataque cardíaco. Nem reparei que tinha deixado o casaco no bar. Não dei a mínima importância. Cheguei ao prédio, subi as escadas, entrei. Estava horrivelmente cansado e mal conseguia controlar a respiração. Sentei-me numa cadeira da sala, perto do piano. Fiquei aqui sentado a debater as minhas dúvidas. Levantei-me e fui buscar dos melhores vinhos que tinha em casa. Voltei a sentar-me junto ao piano. Tinha que beber. Precisava de beber. Abri a garrafa, enchi o copo e bebi um copo cheio de vinho. Soube bem, tinha a garganta seca derivado da corrida que tinha feito até casa. O vinho era incrivelmente doce e suave. Bebi um segundo copo. Um terceiro. Olhei para todos os lados e nada…

Bebi um quarto e quinto copo. O efeito foi o mesmo. A garrafa tinha terminado. Fui buscar uma segunda garrafa. Já começava a sentir uma certa liberdade, o meu ritmo abrandou bastante. Abri a garrafa e bebi mais um copo. Olhei de novo para todo o lado e… nada!

Permaneci sentado e curvei-me. Fechei os olhos, sentindo naquele momento um sabor a desilusão.

– ONDE ANDAS?!? – Gritei, desesperado como quem estivesse convencido que iria obter uma resposta.

Como foi de esperar, sem qualquer retorno. Estaria eu a ficar maluco? Estava com raiva de mim mesmo. Depois de tudo que passara, depois de todo o mal que me haviam feito, ter que encarar este cenário era demolidor para mim. Olhei para o meu copo, sentia-me só. Somente só. Sentia que apenas eu e aquele copo éramos os únicos existentes neste mundo. Era a única coisa que estava comigo nestes momentos, era a única coisa que não me falhava. Bebi mais um copo. Sentia-me a afundar cada vez mais.

– Afinal era tudo imaginação… Que merda! – Desabafei.

Apeteceu-me chorar. Tinha vontade de sair dali para fora e não regressar mais. Mas para onde ir?
Lembrei-me que tinha um piano mesmo ao meu lado… pensei em desabafar, chorar através das notas musicais. Virei-me para o piano, preparava-me para tocar algo e, antes de fazer soar qualquer som…

– Estou aqui, diz… – Disse uma voz.

Não era uma voz, era a voz. Aquela voz que me deixava sem jeito mas cheio de vontade. Foi então quando olhei para ela que percebi tudo.Lá estava ela, bela e sem qualquer medo. O seu perfume, o seu sorriso.

– Eu estou sempre aqui, quando precisares, quando quiseres… – Voltou a dizer.

woman-and-manTudo isto me estava a saber agridoce, estava claramente feliz por a ver e saber que ali estava. Por outro lado, obtive a confirmação que ela era apenas um fruto da minha imaginação, do meu desejo, do meu medo, da minha necessidade, o meu porto seguro, o meu amor…
Era indignante. Saber que não existia, mas que ao mesmo tempo eu poderia tê-la quando quisesse. Fiz um teste. Bebi novamente da garrafa…
Lá estava ela mais sorridente e despida de medos, linda, exótica, uma beleza pura. Ela apenas me observava e trincava o lábio levemente. Observei igualmente, muito atento e a apreciar a vista. Mudei a postura. Abandonei todos os pensamentos que me mandavam abaixo. Era aquilo que queria, ela. Era disto que eu procurava, esta paz, este paradoxo de estar com ela e não estar. Voltei-me para ela, continuei a observar. Desta vez era a minha vez, desta vez seria eu o mistério para ela. Era a minha vez de a conhecer, pois agora já não haviam motivos para me esquecer destes momentos.

Este momento era meu e meu será. Assim como ela minha é, minha será. Isto será fechado na minha mente é lá se manterá, porque hoje não tenho cabeça para mais nada e assim permanecerá.

FIM

© 100 Modos #69Letras 2016

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