Whisky com duas almas (Parte 7)

… Onde estava? Estava numa sala. Não. Era um quarto. Um quarto fora do vulgar. Estava escuro, não conseguia ver bem. Cheirava a madeira nova, embora não existisse nada de madeira ali. Sentia o meu corpo pesado e, ao mesmo tempo, preso. Olhei para todo o lado em busca de janelas para conseguir perceber onde estava, mas sem sucesso. Nem porta havia! Como fui ali parar?

Ouvi um som familiar. O som de dois copos a chocarem levemente. Ouvi algo a ser colocado nos copos, parecia gelo. Ouvi um sorriso silencioso. Encheu-me de energia. Eu conhecia este sorriso. Era ela! Ouvi os passos dela a aproximarem-se e senti o cheiro a madeira nova a ser abafado pelo seu perfume inconfundível. Comecei logo a ficar irrequieto. Estava preso numa posição que não me permitia observá-la.
Percebi que era inútil bater-me contra esta prisão. Esperei, era uma questão de segundos até a ver. E assim foi, lá estava ela. Tinha aspecto de quem teria acordado há pouco tempo, ainda estava com a sua camisa vintage de dormir e de cabelo apanhado, descalça e com aquele andar felino característico dela. O que eu adorava observá-la. Sentou-se junto à minha cabeça e pousou os dois copos na mesa de cabeceira. Apetecia-me beijá-la. Nunca me recordei de ter acordado ao lado dela e desta vez tive essa oportunidade. Queria beijá-la. Estava feliz.

Ela pegou-me na cabeça e colocou-a em cima de uma das suas pernas. Sorri e perguntei.

– Porque é que estou eu preso?drinking_couple_alcohol_problems

Não me respondeu e apenas sorriu. Era uma brincadeira e estava curioso para saber até onde iria. Inclinou a minha cabeça de forma a que fosse possível beber um dos copos que trouxera. Era whisky.
Ajudou-me a beber do copo e obrigou-me a beber tudo de seguida. Quase não consegui, não estava à espera que fosse tão forte. Mas soube-me bem, apesar de forte era doce. Ela percebeu que gostei e esboçou outro sorriso.

– Solta-me. – Pedi calmamente.

Acenou negativamente com a cabeça. A brincadeira começava a parecer estranha, mas ainda assim tolerei. Agarrou no segundo copo e repetiu o que tinha feito momentos atrás. Esta dose já me fez queimar a garganta. Que whisky era este? Começava já a sentir as mãos dormentes e os pensamentos meio confusos. Sentia-me mais preso ainda que antes. Ela continuava a sorrir, desta vez que um ar meio maquiavélico.

– Porque é que me estás a fazer isto? O que pretendes? – Questionei, já assustado.

Voltei a não obter qualquer tipo de resposta, para além de um riso. Ela estava diferente. O seu comportamento passou a ser mais dominador e, ao mesmo tempo, assustador. Qual era o objectivo?!
Encheu um terceiro copo e fez-me beber. Fiquei a sentir-me bêbado.

– Porquê isto? Diz-me! – Perguntei, já arrastando as palavras.
– Calma, amor. Está tudo bem. Eu estou aqui. Só quero que te divirtas um pouco. Respondeu.

Ao dizer isto tive um misto de sentimentos. Desejo e medo. Repentinamente, deixei de estar preso e de me sentir pesado. Sentei-me na cama e observei. Não havia nada que estivesse a prender. Nada de cordas, fios, cintos, correntes… Nada! Fiquei bastante confuso.
Estaria a sonhar?! Olhei para o lado e vi-a sorrir. Aquele sorriso que derrete qualquer gelo… Era mesmo ela. Afinal, só estava a brincar comigo, provavelmente a desinibir-me.
Ela fez um gesto com a mão junto à sua perna como se me estivesse a pedir para voltar a deitar-me com a cabeça sobre si. Aproximei-me e, antes de me deitar, beijei-a. Todos os nossos momentos eram de noite. Pela primeira vez estava a ter um momento de dia e queria aproveitar.

Deitei-me e entreguei-me. Entreguei-me a ela. Que ela fizesse comigo o que quisesse. Ouvi-a abrir a garrafa de whisky, só que desta vez não foi para servir nos copos… Ela começou a despejar lentamente o conteúdo na minha boca e não me deixava mexer. Nesta posição não conseguia respirar em condições. Nos primeiros segundo aguentei normalmente, mas depois já me começava a queimar a garganta. A dor era enorme. Não conseguia respirar! Tinha que sair dali daquela posição ou arranjar forma de a avisar. Mas nada, senti-me pesado e preso de novo. Senti que a garrafa estava quase no fim já notava menos álcool. Já não sentia o queimar da garganta. Bebi e a garrafa tinha chegado ao fim. Não sentia os braços e as pernas, estava muito alcoolizado. O meu raciocínio estava alterado, confuso, lento…f550ce62dc20dc04656879b82bf2b038

Foi que então percebi, mesmo bêbado, que não estava apoiado na perna dela… Era uma almofada… Uma mera almofada. E ela?! Nada. Não estava ali ninguém!!! Apenas eu e a garrafa vazia de whisky…
Entrei em colapso, estava incrédulo, assustado. Agarrei na garrafa e atirei-a contra a parede. Seria isto tudo um efeito do álcool??????! Estaria eu a sofrer de algum problema grave??! Mas de repente…

– Anda para a cama… – Disse ela.

Lá estava ela… De vestido e com aquele cabelo logo solto…
Acordei sobressaltado… Reparei que tudo não passara de um pesadelo…

(Continua)

© 100 Modos #69Letras 2016

 

1 comentário a “Whisky com duas almas (Parte 7)”

  1. Donde podre ver una traducción al español de estos texto en verdad me parecen maravillosos espero su respuesta gracias

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