Whisky com duas almas (Parte 6)

Ouvi um barulho. Um estrondo. Parecia que algo tinha caído. Tentei mexer-me, mas a dor de cabeça não me permitia. Estava deitado na minha cama e a claridade já entrava pela janela. Ainda estava vestido e reparei que o estrondo provinha de uma garrafa. Pareceu-me de álcool mas sentia-me de rastos, pesado e imundo. Precisava de um banho e de um bom copo de whisky para esquecer a ressaca. Ao sair do quarto e ao passar pela sala reparei que na mesa tinha uma correspondência, uma carta. Era da minha ex. Não quis sequer saber. Peguei e mandei para o lixo sem ver o conteúdo.

 Tarde demais! Pensei.

3Fui para o banho. Deixei-me estar por lá uma boa meia hora, enquanto recordava tudo o que se passara na noite anterior, a loucura. No entanto nunca, mas nunca me recordava de como acabava. Esta sensação frustrante derrotava-me. Por que é que nunca me lembrava do fim do dia com ela? Como é que nos despedíamos? Soube eu alguma vez o seu nome? Nada… Nem uma imagem desse momento. Seria o efeito do álcool? Beberia assim tanto para chegar ao ponto de nunca ter memorizado o nome dela?

Bom, só haveria uma forma de o saber. De noite, iria novamente ao bar. Desta vez sem beber. Esta noite não iria ingerir uma gota de álcool. Saí do banho, fresco mas ainda com uma enorme dor de cabeça. Lembrei-me. Nada de álcool. E assim foi.

Aproveitei o resto do dia para tratar de projectos e arrumei o pouco que tinha para arrumar. Ao fim da tarde senti a dor de cabeça a abrandar, já me sentia melhor. Ainda um pouco cansado, mas pronto. Preparei-me e fiz tempo até ser a hora do costume.

Vinte e duas horas. Hora de sair de casa. Aproveitei e fui a pé até ao bar. Não era muito, cerca de uns 5 quarteirões. A rua estava deserta, não era habitual, talvez por ser dia de semana. Caminhei durante dez minutos, o caminho parecia maior devido à minha ânsia.

Cheguei, entrei e olhei em volta. O bar estava meio cheio e com poucos lugares livres ao balcão. Como era o nosso sítio habitual, fui para lá e pedi uma água com gás. O barman sorriu. Não percebi esta reacção e também não dei grande importância. Sentei-me de forma a deixar o banco ao meu lado esquerdo disponível para ela. Fiquei à sua espera.
Ainda não eram vinte e duas e trinta, mas ela aparecia sempre por esta hora. Já estava ansioso e a ficar impaciente. Vinte e três horas e nada ainda. Bebi o resto da água já normal de estar sempre agarrado ao copo e, fui até lá fora fingindo que teria uma chamada para atender.

Percebi que estava muito quente no bar, pois cá fora estava um frio pouco simpático e a rua deserta sem ninguém, sem carros sequer. Esta noite não tinha qualquer brilho, à excepção no interior do bar.
Regressei, voltei a sentar-me no banco. Queria algo quente, pedi um café. Aproveitei a interacção com o barman e questionei.

– Aquela mulher que costuma estar aqui comigo, vem cá todos os dias?
– Qual mulher? – Questionou o barman.

Ora boa questão. Descrevê-la apenas fisicamente não seria muito eficaz. O barman deve ver dezenas de pessoas diariamente, muitas das quais mulheres vistosas, cheirosas, sensuais e misteriosas.

– Uma de vestido verde que estava aqui comigo antes de ontem. – Arrisquei
– Não, não vi nem sei de quem fala. Tem estado aqui todos os dias, aqui sozinho e calado, que até estou admirado que alguém viesse falar consigo.

Tremi. Voltei a ter a mesma sensação que tive quando ontem eu e ela íamos em direcção ao carro.man_at_bar

– Hmm… Ok, obrigado. – Disse por dizer.
– Mas está tudo bem, senhor? – Perguntou ele meio preocupado.
– Sim… Sim está. – Disse sorrindo e disfarçando a minha preocupação.

Bebi o café rápido e tentei manter a calma. Ela podia estar apenas atrasada. Ou não. Na verdade não combinámos nada. Ou combinámos e eu não me lembro. Tentei não pensar muito sobre o assunto, naquele momento, mas aproximava-se da meia noite e nenhum sinal dela. Deveria ficar preocupado? Não tinha nenhuma forma de contacto e além disso, contactá-la daria a sensação de perseguição. Não podia fazer mais nada, senão aguardar. Fui ao WC, entretanto. Ao sair do WC parei no meio do corredor. Uma sensação estranha invadiu o meu corpo. Ao meu lado estava o banco onde fizemos amor. Ainda conseguia sentir a sua fragrância. O meu coração disparou. Eu tinha que a ver. Tinha que falar com ela. Voltei para o balcão.

Uma, duas, três da manhã… Nada. Hora do bar fechar e não me restava mais nada a não ser regressar a casa. Parte de mim estava desolado, a outra tentava ainda ser racional e, pensar que poderia ser totalmente normal o facto de ela simplesmente não ter aparecido. Talvez tenha saído mais tarde, talvez tenha coisas para fazer, talvez tenha estado noutro bar. Que angústia. Caminhei para casa, estava mais frio ainda. Pensei em beber um copo de um bom wishky que tinha para lá em casa, mas não. Não queria estar sempre a beber, acordava sempre atordoado e sem saber o que se tinha passado. Tinha que encarar a verdade.

– Amanhã, talvez… – Disse, com o objectivo de voltar ao bar no dia seguinte.

(Continua)

© 100 Modos #69Letras 2016

 

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