Whisky com duas almas (Parte 5)

E não parou. O clima era escaldante. Ela era excelente no que fazia, sem brutalidade e sempre sensual. Enquanto me tocava, ia-me beijando lentamente e, naquele instante, devido à tensão do momento, comecei a ver momentos na minha cabeça, momentos com ela. Vi coisas que fizemos, ali naquele espaço, num WC, no balcão, quando uma vez nos escondemos do barman e passámos a noite no bar. Certamente era o efeito do álcool, pensei. Sentia levemente as mãos dormentes. Sim, seria o efeito do álcool. E tudo que me estava a lembrar? Era um delírio do momento? Ou seriam realmente recordações?

Uma coisa era certa, ela conhecia-me. Por dentro e por fora.
A minha atenção foi desviada quando repentinamente me senti dentro dela…quente, húmida, palpitante… Passei a minha mão pelas costas dela e fui subindo até chegar ao seu cabelo, por detrás da cabeça. Puxei os seus cabelos, delicadamente, de forma a que expusesse o seu pescoço para o beijar, morder…

Estávamos a fazer sexo mesmo ali, no corredor de acesso aos WC’s. Ela gemeu baixo. Puxei-a para mim agarrando a sua cintura, depois empurrei e começámos com movimentos repetidos.
Esta sensação… Estes gemidos…

2ad3a969bedaa8b69c4b8dc8bd269b51Sentia-me totalmente entregue ao momento. Sem problemas, sem dilemas. Era ela. Era com ela. Eu queria aquilo para sempre. Queria que aquele momento nunca acabasse. Não sei quanto tempo estivemos ali, mas não queríamos parar, mesmo quando quase já não aguentávamos mais, abrandávamos o ritmo, para podermos recomeçar. Comecei a lembrar-me do seu corpo, dos pontos cruciais onde tocar, os pontos de prazer… Ela.

Passado uma hora e depois de nos arranjarmos decidimos sair do corredor à vez, tentando enganar o barman. Passados dez minutos, lá estávamos nós de novo no balcão, sorridentes, ela com uma mão na minha perna e eu sem tirar os olhos dela. Dois whiskys foram servidos com o seguinte comentário:

– Últimos dois, por conta da casa! – Disse o barman, piscando o olho aos dois.

Ficámos meio embaraçados, mas depressa passou, porque nos rimos depois de perceber que provavelmente fomos a banda da noite.
Bebi tudo de seguida. Ela apenas ficou a olhar. Assim que ia para pousar o copo vi os seus lábios mexerem. Parecia estar a dizer algo, mas eu não ouvi.

– Han? Desculpa, não consegui perceber… – Reparei que estava a falar em câmara lenta e meio arrastado.

Vi novamente os seus lábios mexerem. Sem sucesso. Não ouvi. Dormência, era a única coisa que sentia naquele instante. De seguida não me recordo do que se passou. Mas lembro-me que era de dia e estava na minha cama, sem ela ao meu lado.
Tentei mexer-me, mas senti uma ressaca imensa seguida de uma dor de cabeça. Um dos meus braços estava bastante arranhado. Marcas de unhas. Sorri.

Ela??! Lembrei. Um espasmo de energia surgiu no meu corpo, levantei-me e corri em busca do telemóvel. Nada. Nem uma chamada, nem uma SMS. Ainda fui ao meu casaco mas nada de bilhete com o número. Ainda acreditava neste cliché. Que estupidez, pensei. Fui de novo invadido pela ressaca e dirigi-me para a cama. Deitei-me e reparei que nem o nome dela sabia. Tinha que me curar daquela ressaca. Não passaria de hoje. Hoje iria confrontá-la. Saber quem era. E íamos sair daquele bar juntos, para algum lado e conversar. Quero saber quem ela é. Vai ser hoje…

Preparei-me, pouco depois de jantar. Estava ansioso e a minha ressaca já tinha passado. Nada como curar uma ressaca continuando a beber. A bebida também me ajudava a desinibir e hoje era o dia.
Vinte e duas horas, assinalou o meu relógio. Saí de casa e fui em direcção ao bar. Entrei. Desta vez estava mais gente que no dia anterior. Olhei para o balcão e não a vi. Dirigi-me ao barman e perguntei por ela.

Encolheu os ombros e serviu-me um whisky. Bebi de penalty, senti o gelo a encostar nos lábios, percebi que estava com uma temperatura elevada. Assim que pousei o copo e preparava-me para pedir outro, senti um perfume. Aquele perfume. Era ela. Sempre com aquele sorriso irónico e a sua postura felina. Linda como sempre. Sensual como nunca.

– Não te senti chegar. Esbocei um sorriso de alegria por perceber que ela estava ali.
– Eu já aqui estava. – Disse, aproximando-se de mim.
– A sério? Procurei-te ao entrar no bar, mas não te vi. – Comentei.
– Não precisavas de ter procurado. – Respondeu de seguida.

Olhei com espanto. Não percebi se era sarcasmo ou se estava mesmo chateada. Essa dúvida foi tirada a limpo segundos a seguir.

– Lembras-te de algo do que se passou ontem? – Perguntei.
– Tudo. Não é para esquecer. – Disse ela.

Senti a sua mão a subir a minha perna.
Meio atrapalhado, decidi avançar com o objectivo que tinha decidido antes de sair de casa.

– Pode parecer estranho, mas eu ainda não sei o teu nome, não sei o que fazes, do que gostas, entre muitas coisas. Queres ir passear a algum lado? O tempo está bom, podíamos ir dar uma caminhada perto do rio. O que te parece?
– Parece-me muito bem. – Sorriu e ajeitou o cabelo.

Pegou no seu copo e bebeu de seguida. Imitei.
Era virou-se para pegar a sua carteira e, não consegui deixar de olhar para ela, para o corpo dela. Olhei sem respeito, com vontade e com mil e um pensamentos na minha cabeça. Ao virar-se para mim, o movimento que fez com o corpo foi-me familiar. Voltei a ver imagens nossas. Eu e ela. Num quarto, numa sala, numa cozinha. O que era isto? Começava a ficar preocupado e com medo.
Ao caminharmos para a saída, ela deu-me a mão. Quente e suave como seda, ao mesmo tempo frágil. Apertei um pouco a sua mão. Não fiz com intenção, foi reflexo. Reflexo do meu estado actual, em que segundos antes havia sentido medo. Não queria “perdê-la”. Este medo era provocado por estas recordações que tinha. O mais estranho é que apenas sentia ou recordava quando estava com ela naquele bar. E porquê?
Até que comecei a pensar e senti um frio a subir pelas minhas costas…

13567438_543350289181293_4881789291727353250_nEla percebeu que algo estava errado e, a caminho do carro, abraçou-me. O seu abraço foi tão intenso e harmonioso que esqueci do que estava a pensar. O seu cheiro afrodisíaco era qualquer coisa de outro mundo. Aquele gesto tranquilizou-me. Beijei-a. A sua boca doce incendiou as minhas hormonas…e as dela. Meio desequilibrado, ela foi-me empurrando até ao carro. Abriu a porta dos bancos de trás e empurrou-me novamente para cima deles. Ela estava selvagem, sedenta. Não tive tempo nenhum para pensar, nem de respirar sequer. Entrou também no carro a gatinhar por cima de mim e fechou a porta. Descalçou-se e fez o mesmo a mim.

– Tem cuidado, podem v… – Tentei alertar.
– CHIU! – Ordenou ela.

Definitivamente, eu era a presa naquele momento, não tinha fuga possível.
Mais imagens vieram à minha cabeça… Nós a passear, nós abraçados, nós a discutir, nós a lutar… Nós a fazer amor…
Não tinha reparado nem sentido e, quando dei por mim, estava sem calças e sem roupa interior… Tentei agarrá-la mas sem sucesso. Percebi que estava preso pelo cinto de segurança. Como é que ela fez isto??!
Novamente sem tempo para pensar beijou-me loucamente. Eu queria-a muito. Queria senti-la. Estava desesperado, excitado, faminto, tinha o animal que há mim acordado. Ela fez uma pausa. Olhou-me nos olhos… Seriamente, deu-me uma festa na cara e passou a mão nos meus olhos, como se os quisesse fechar. Fechei.
Sentia-a descer levemente… Sentia-a quente… Húmida… Gemi… Que sensação!!! Era a sua boca em mim…

(Continua)

© 100 Modos #69Letras 2016

Deixar uma resposta