Whisky com duas almas (Parte 3)

– Ao que te referes? Perguntei.
– Quero saber se amanhã vens aqui de novo. Respondeu ela dando um gole de whisky.

Estava vidrado nos seus movimentos. Sensuais e lentos.
Aquela pergunta estava a fazer-me confusão. Não sabia se me estava a perguntar aquilo com o objectivo de me ver de novo ou algo semelhante. Não quis interpretar mal novamente e admiti.

– Penso que não estou a perceber a tua pergunta. Sê mais directa.
– O que vais fazer em relação aos teus problemas? Interrogou, enquanto eu bebia.
– Ah… Isso. Admito que ainda não pensei no caso. Afinal de contas não há muito para fazer. Eu é que fui parvo. Comecei a rodar o copo.

Senti um calor aconchegante na minha mão. Na mão que não segurava o copo. Era a mão dela. Ela reparou que eu estava reticente em falar no caso mas investiu, tocando-me. Aquele calor sugava-me todas as energias negativas. Olhei-lhe nos olhos. De novo aquele olhar, mas mais felino.

– O que se passou? – Perguntou ela e cedi.couple-at-bar
– Vamos mesmo falar disto?
– Vais.
– Já vi que sim. É uma longa história…
– Tenho tempo e tu também, portanto justifica-me esta espera que tenho feito.
– Fui traído.
– Não me parece que seja somente isso. – Disse ela de seguida.
– E não é. Acertaste. O problema é que o espaço dela na minha vida continua reservado. É difícil explicar tudo. Mas estive até hoje convencido que a qualquer momento iria receber uma chamada dela ou uma SMS que me fizesse acreditar. Estive disposto a perdoar.

Ela não comentou. Passou-me o meu copo de whisky. Não reparara que ela tinha pedido outro. Bebi e voltei a sentir a mão dela. Desta vez na minha perna. Estremeci. Uma sensação de desejo correu-me o corpo. Sentia-me cada vez mais como uma presa dela. O que seria isto? Pensamentos menos próprios começaram a passar-me pela cabeça. Bebi, sentia sede. Corrigi a postura, respirei fundo. Voltei a mim. Queria contar o resto.

Percebi que ela estava a espera que eu continuasse.

– O problema é que perdoei… Várias vezes… – Continuei. – Sentia-me vazio sem ela. E aparentemente tinha mais amor por ela que por mim próprio.
– Alegrias de momento… São sempre um problema… – Comentou ela. – Mas porque é que ela fazia isso?
– Ainda hoje não tenho a certeza, presumo que a tentação se sobrepunha ao raciocínio.
– Nunca é fácil pensar nessas circunstâncias. – Fez uma pausa. Bebemos. – Deixa-me adivinhar, mais tarde, em casa, depois de contar, choravam e dizia-te que te amava?
– Pois… E sinta-a mais próxima durante um breve tempo. E quando tudo parecia bem… Repetia-se.
– Amar não chega quando não se ama o suficiente. – Disse ajeitando o cabelo. – Devias ter percebido isso mais cedo.
– Como? Eu sabia que algo estava mal mas nunca iria adivinhar.
– Podias ter vindo aqui… Estaria por cá.

Outra resposta intrigante. Comecei a sentir calor. No inicio parecia divertido mas neste momento já estava a ficar irritado. Não com ela, comigo. Os meus pensamentos estavam agora desconexos.
Ela agarrou-me nas mãos. Eu tinha as mãos suadas causadas pelo desconforto da situação. Ela não se importou e aproximou-se.

– Estás com medo? Disse com um sorriso irónico.

1Sim estava e ao mesmo tempo não. Aquela aproximação fez-me esquecer tudo à volta e foquei-me nos seu lábios. Atraentes, cheios e inocentes. Apeteceu-me beija-la. Enquanto lutava na minha cabeça para saber o que fazer, tudo à minha volta ficou sem som. Estava surdo com a situação e apenas ouvia o seu respirar.
“Não pode ser!” – Pensei. Tentei delicadamente larga-la e despi o casaco. Bebi o resto de whisky e pedi mais dois. Ela não ficou incomodada com a minha atitude. Voltei a sentar-me e pensei em formas de manter a sobriedade. Ou será que já era o efeito do álcool?

– Agora é a minha vez, preciso de ir ao WC, importas-te?

Ela apenas acenou com a cabeça.
Segui caminho, passei a zona do bar e entrei na área dos WC’s. Estava escuro, creio que não existia luz naquele espaço. Além disso fazia um certo frio ali. Por breves instantes não consegui caminhar direito. Confirmei aqui que era mesmo o efeito do álcool. Já perdera a conta de quantos whiskys bebi.

(Continua)

© 100 Modos #69Letras 2016

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