Whisky com duas almas (Parte 2)

Respirei fundo. Olhei também para o meu copo. Senti abandono nas suas palavras.

– Há quanto tempo? – Perguntei.
– Há suficiente… Talvez demais. – Respondeu com demora.
– Uma mulher nunca deve ser uma opção mas sim a escolha. – Foi a minha tentativa de a reconfortar.

Ela esboçou um pequeno sorriso e levemente sarcástico. Ela reparou que me tinha esforçado um pouco para a animar e talvez com as palavras menos certas ela viu ali algum elogio.
A sua beleza natural era notável e o seu cabelo magnífico obrigavam que a observasse.

– Não me leves a mal, preciso de ir ao WC. – Finalmente reparara nas suas mãos meio borradas de maquilhagem.
– Achas? Sim, vai tranquilamente. Disse sorrindo.

Novamente aquele perfume familiar. Senti desejo. O que era meeting-a-boy-in-a-baristo? Ela era-me tão familiar e tão desconhecida. Quando se cruzou comigo, uma vez que o WC era no lado oposto, notei uma tatuagem no braço. De novo, algo que não me era invulgar. Já teria sonhado com aquela imagem? Era uma pequena loba branca deitada. Não me foquei muito nos detalhes admito, mas a minha indignação aumentou. Tinha que desenrolar esta conversa.

Enquanto aguardava reparei que o bar estava vazio e tinha uma banda de fundo que ensaiava. Foi neste momento que notei que estava sozinho, sentia-me vazio e parte de mim já ansiava que ela regressasse.

Dois minutos depois regressou. Tinha lavado as mãos e a cara, de forma a retirar as restantes marcas de maquilhagem. Vinha mais sorridente do que quando foi.
Sentou-se, desta vez virada para mim. Acho que demonstrei demais o quanto estava fascinado com o corpo dela mas ela não ligou muito ou pelo menos disfarçou.

– Explica-me porque vens aqui tanta vez?! – Disparou ela. Foi uma questão meio complicada para responder rápido.
– Vir aqui ajuda-me a dormir. Afasta-me os medos. Disse.
– De fantasmas? – Questionou em tom de brincadeira.
– Sim, do passado. – Retorqui seriamente.

Ela manteve o seu sorriso. Senti que não estava a contar nada de novo…

Mexeu-se e ajeitou o seu cabelo destacando o seu olhar. Penetrante. Senti ainda mais inquietude.

Já alguma vez falámos? – Perguntei.
– Muitas vezes. – Disse ela mantendo a sua postura. – Horas e horas, dias e dias.
– Pode parecer mal, mas não me recordo e peço desculpa por isso. – Justifiquei, sentindo-me confuso.
– Normal, vens aqui para esquecer. – Desta vez soltou um leve riso.
– Então e tu? Também vens aqui para esquecer? Rematei
– Eu? Eu venho aqui para lembrar… – Respondeu em tom de comédia.

Não me deu tempo de intervir e aproveitou para pedir mais duas bebidas. Bebi o resto de whisky. À medida que a conversa fluía, ia-me sentindo mais à vontade, mais solto, mais desinibido embora um pouco mais confuso.
Esta mulher estava a começar a dar comigo em doido. Algo misterioso e provocador provinha dela. Aquela forma de responder excitava-me. Era intrigante.

– Não é muito comum uma mulher beber whisky assim.
– É. Tenho o hábito de não ser comum. – Disse ela roubando o meu copo das mãos. Bebeu.

O toque. Já tinha sentido aquele toque. Há toques que nos fazem ver cores, dizem. É verdade. Além de cores ela era estranhamente quente, suave e delicada. Pensamentos estranhos começaram a passar-me na cabeça. E uma coisa era certa, ela estava a puxar por mim. Ela queria-me desinibido. Mas porquê??

481775100A banda que ensaiava passava agora uma musica mais calma, adequava-se ao ambiente. Talvez fosse o efeito da bebida mas conseguia perceber cada instrumento que tocava.

– Pareço-te comum? – Disse ela, interrompendo a minha atenção. Ela percebeu que estava a prestar atenção à música.
– Pelo contrário. Respondi. O seu olhar estava diferente. Mais aberto e concentrado em mim.
– Nesse caso, o que vais fazer quando saíres daqui?
– Hmm… É um convite? – Disse com sarcasmo.
– Não, e não entendeste a minha pergunta.

(Continua)

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