Whisky com duas almas (Parte 1)

Não estava com cabeça para nada. Sabia que quando entrasse naquela bar só teria um objectivo. Esquecer. Entrei. Estava quase vazio, talvez com umas cinco pessoas. Não prestei atenção e dirigi-me ao balcão. Algo forte queria eu. Pedi duas bebidas. Uma delas bebi de rajada. Fiquei a observar a outra.

– O costume, vinho. Ouvi.

Esta voz não me foi indiferente. Algo triste, demolidor, desolado vinha daquele tom. Uma mulher de poucos preparos estava sentada perto de mim. Vi nas mãos dela o borrado da pouca maquilhagem que teria. Tinha chorado, presumi. Ela notou que a observara e não ficou intimidada. Começou a rodar o copo.

– Discussão? – Perguntou ela.13557925_540058039510518_2818976996426957133_n
– Entre mim e o meu subconsciente sim, por aturar montes de merda. – Respondi.

Ajeitou o seu cabelo e deu um golo na sua bebida e esboçou um sorriso sarcástico.

– O mal do costume. Tenho-te visto por aqui. És mais rápido a vir a um bar que a tomar decisões.
– Nunca te notei por aqui. Vens cá muitas vezes?
– Tenho estado ao teu lado, aqui. Mas tão perto tão longe, e só hoje é que te vi a reparar em mim, pelo menos sem segundas intenções… – Sorriu de novo.

Depois disto sabia que algumas coisas deveriam ter passado, mesmo que não tenhamos falado. Era costume ir ali sim, beber também. Ultimamente era o meu ritual. Ao ouvir esta ultima parte, comecei a ficar irrequieto. Havia ali algo que me empolgava, algo que de momento, pelo menos sóbrio, não reconhecia.

Ajeitei-me na cadeira, não me sentia confortável. O desconhecimento deixava-me um pouco na defensiva e ela notou isso.
Notou também que eu não iria responder e avançou.

– O que tens?
– intrigas-me. – Respondi rápido – Julgo não saber nada sobre ti mas sinto que me conheces bem demais.

Ela mudou de lugar, até aqui tínhamos um banco de intervalo entre nós. Ao aproximar-se não consegui deixar de sentir o seu perfume. Mais sensações despertaram em mim. Um odor familiar, leve mas afrodisíaco. A forma de ela se mexer era meio felino. Lenta e atenta. Enquanto se mudava para o banco da frente não tirou os olhos de mim. Senti-me explorado em parte.

Tive que desviar a atenção, pedi outra bebida ao barman.

13533267_539725952877060_6247564397192502383_n– Outro whisky com uma pedra de gelo.
– E para a senhora o habitual? Aproveitou o barman.
– Não. O mesmo que ele pediu. Pediu ela sem novamente tirar os olhos de mim.

Bebi o resto da última bebida que sobrava de seguida. E decidi aceitar o desafio.

– Porque estás aqui?
– Fui uma opção. Começou a rodar o copo de novo.

Aqui notei que quando ela passava a ser o centro da atenção a intimidava. Aquela acção não era um vício e sim uma defesa.

– Segunda opção? – Questionei sem hesitar.
– Várias segundas opções… – Disse ela não tirando os olhos do copo de whisky.

(Continua)

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