Uma visita temporária

Estava de regresso, temporariamente. Tinham-se passado cinco anos. Cinco longos anos. E agora cá estava eu a sair da Grécia. Lugar dos deuses e a caminho ao encontro dos meus demónios. Momentos antes de partir para Portugal, estava com a cabeça a mil. Uma nostalgia forte invadia a minha mente. Recordava-me dos momentos em que saí de lá. Assim como os motivos.

Sei que fui embora sem avisar. Tinha os meus motivos na altura e passei este longo tempo a encara-lo como uma eternidade sofrida. Mesmo não admitindo, foram inúmeras as vezes que me crucifiquei. Tentei dezenas, talvez centenas de vezes manter os meus lençóis quentes com outros corpos em busca do efeito placebo mas em vão. Tens um calor único e disso é impossível esquecer. Nem consigo contar as garrafas que sequei, as lágrimas que derramei. Eras o meu único vicio, uma droga que desejava incansavelmente.

Ganhei coragem e ainda no aeroporto, mandei SMS a convidar para um jantar. Tinha que estar contigo, precisava deste momento contigo, devia-te isso. Provavelmente estaria a cometer outro erro pois estava de passagem. A minha pele já estava a arrepiada só de pensar, o meu coração batia depressa, a minha boca desejava a tua.

Tarde demais. Já estava no avião, já tinhas respondido. Fiquei ainda mais empolgado e igualmente nervoso. Porquê? Já te conhecia aos anos, há mais anos do que o tempo que estive afastado. Senti o estômago às voltas. Foram precisos três bebidas para me acalmar. Ao chegar a Portugal passei rápido numa loja, precisava de umas roupas. Lá estava eu a preparar-me. Inconscientemente. Deixei-me levar pelo embalo do momento, não precisava de mais rodeios. Passei numa florista e comprei umas rosas brancas. As tuas favoritas. Esta noite tinha que ser perfeita. Foram cinco anos sem ti. Tive o cuidado com o restaurante… O nosso, o tal, lugar onde tudo começou e onde fui lamentar a minha escolha, sozinho antes de partir.

Cheguei primeiro que tu, velhos hábitos que nunca se perdem. Fui falar com os mordomos para que tudo estivesse pronto e a postos. Ainda nem tinha terminado de falar e através da janela do restaurante vejo uma silhueta inconfundível, com os passos leves e felinos. Reparo no empregado a abrir a porta do espaço e vejo-te entrar sorridente, um sorriso aliviado, um sorriso de mil palavras. Linda. Não tinha outro adjectivo a flutuar na minha cabeça. Estava de queixo caído. Não tinhas mudado nem um bocado. Sempre deusa, um bruto vestido sem costas onde ao fundo se destacava as covinhas que tanto me cativavam. Não resisti em tocar-te. Tremeste. Arrepiei-me. Quente. Esta sensação. Excitação. Comecei a salivar… E não era de fome. Ou era. De outro alimento. Não me controlei e passei o jantar a despertar os demónios que tinhas adormecidos em ti. Agora já estava aqui, contigo, não sei quando se repetiria e não quis pensar muito mais. Preciso de ti. Inquietavas-me só de te ver. Paguei e antes de sair decidi sussurrar ao teu ouvido algo que te iria deixar com os sentidos todos em alerta: “Agora a sobremesa…”

Senti o teu braço a apertar o meu, soltaste um gemido silencioso e o caminho até ao carro foste de cabeça baixa e a mordiscar o lábio. Notei que fiz-te sofrer com a pergunta, um sentimento variado entre desejo e tortura. Não hesitei, encostei-te ao carro, com uma das mãos levanto-te o queixo e beijo-te. O sabor doce invadiu a minha boca, tremias. Recordações vieram e foram, sentia golpes a serem desferidos em todo o meu corpo, um a um, a emoção começou a apoderar do cenário. Não me podia sentir mais culpado neste momento. E sabia que tudo se iria repetir… Infelizmente. O beijo parou e as tuas lágrimas surgiram. Choravas copiosamente… Ardia por dentro ao ver-te assim. Beijei cada lágrima tua. Segundos depois pediste para parar, mas já não havia volta. Não te podia deixar assim. Antecipei-me ao teu pedido e pedi que não falasses nada mais. Hoje és minha e eu vim visitar-te. Esperei cinco anos por isto. Preciso de ti. Nós.

Não voltei mais para a Grécia.

© 100 Modos #69Letras 2016

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