Um pecado, meio ácido meio doce

Estava dorido, moído, sentia que tinha descansado pouco. Ainda estava em modo de arranque mas lembrava-me de curtos momentos da noite. Não me conseguia lembrar de tudo, sentia-me pecador e existia um odor fresco e doce no quarto que reconheci de imediato.

Levantei-me a custo e fui ao espelho. Tinha algumas marcas de arranhões. Nos ombros, braços, peito, na zona superior das costas. Sorri, lembrei-me de mais momentos, levemente, de movimentos, cores, um calor singular. Ao ajeitar o cabelo notei através do reflexo do espelho algo estranho na minha cama, um tecido. Olhei para a cama e fui até lá, ao pegar no tecido notei que se tratava de uma blusa. A blusa dela. Desta minha companhia da noite. Algo instintivo me obrigou a cheirar a blusa, precisava de o fazer. Mais imagens vieram à minha cabeça, desta vez tudo mais claro e intenso. Um súbito arrepio percorrer todo o meu corpo provocando uma sensação de calor. Estava com calor. Não era apenas o cheiro da blusa. Era mesmo um reflexo do meu corpo, sobre o que se passou. Sentia-me excitado. Com fome. Ajeitei a blusa e voltei a colocar em cima da cama. Fiquei parado, pensativo.

“Ok. Não sabes onde mora, mas sabes do que ela precisa. Sabes que estará no café a esta hora. Ora siga. E levo limões.”

Sim, os limões. O tais que que ela veio pedir ontem. Os que acabou por não levar. Arrumei uns quantos para dentro de um saco de pano. Fiz questão de encher bem o saco. De propósito. Tinha bastantes e alguns bem sumarentos. Eram limões a mais, mas o intuito era outro.

Tomei um duche rápido, vesti-me, perfumei-me e segui para o café acompanhado do saco de limões e a blusa claro. Caminhei, ansioso, até ao café, não era muito longe. Comecei a sorrir antes de sequer chegar, estava ligeiramente nervoso sobre o que iria dizer para iniciar a conversa. Tinha sido tudo tão inesperado, tão intenso e tão real. Ao reparar em mim fez um olhar surpreendido, inicialmente meio suspeito, parecia que não estava a acreditar no que via. Rapidamente esboçou um sorriso. Aproximei-me, cumprimentei-a e fui recebido com um café com canela. Era mesmo o que estava a precisa. Assim que me sentei ao lado dela devolvi a esquecida blusa. Ela não contava que a trouxesse tão rápido, e pela sua expressão entendi que ela fez de propósito para se esquecer dela em minha casa. A conversa foi fluindo ao longo do café e não se tocou no assunto sobre a noite anterior. No entanto estávamos ambos muito inquietos e com bastantes olhares denunciadores.

Antes de terminar o café, entreguei o saco de limões. Evidentemente pesado demais para ela. E ela notou. Semi cerrou os olhos seguido de um sorriso. Ela percebeu a minha artimanha. Coloquei propositadamente limões a mais para que ela me pedisse ajuda a carregá-los até sua casa e com isso ficaria a saber onde vivia. E assim foi. Ela levou a blusa e o seu livro que a acompanhava nas manhãs e eu fiquei com o saco.

Fomos o caminho todo em silêncio, talvez porque ela se estivesse a sentir exposta com o facto de vir a saber onde vivia. Tentei aliviar essa pressão dando pequenos encontrões em tom de brincadeira dos quais fui arrancando diversos sorrisos. Devemos ter caminhados uns 3 quarteirões e nem tinha dado conta. Chegámos ao seu prédio, pensava que ela a partir dali prosseguia sozinha. Perguntou-me se a poderia acompanhar pois o elevador não estava a funcionar e vivia num 3º andar. Aceitei, obviamente. O mesmo calor que senti de manhã invadiu novamente o meu corpo. Tinha o coração aos pulos e pensamentos loucos surgiram na minha mente.

“Ela faz-me isto tudo?”

Subimos as escadas e como estava declaradamente excitado ao chegar ao andar dela parecia ter subido uns 20 andares. Estava ofegante e com as pernas doridas, meia culpa da noite anterior. Estiquei a mão para lhe passar o saco dos limões mas ela fez questão que eu entrasse em casa dela. Aceitei o convite. Ao entrar na casa dela fui invadido por um aroma de citrinos, refrescante, dava vontade de ficar por ali horas e horas. Ela fez um gesto para que eu deixasse o saco na cozinha que por sua vez era ao fundo do corredor. Ao pousar o saco na mesa reparei num cesto que ali estava, cheio de limões. Percebi que ela nunca precisou de limões. A safada. Tudo não teria passado de um pretexto para se aproximar de mim.

Aquilo tudo deixou-me bastante inquieto e com vontades animalescas. Ela provocava-me estas energias. Além do cheiro que pairava em sua casa ser dos meus preferidos, ainda estava bastante excitado. Voltei para o corredor, onde se encontrava ela, junto à porta. Fiquei especado a olhar para ela, observando-a com o seu olhar envergonhado por ter notado a desculpa usada no dia anterior. Aproximei-me dela para lhe dar um beijo na cara e… Beijei-lhe a boca. Ela tinha virado a cara no momento da despedida. Um beijo doce surgiu… Doce, ácido, doce de novo.

Viciante.

Aquele corredor tornou-se um palco de um desfile pré-erótico, entre toques sensuais, beijos escaldantes, gemidos tapados, roupa a ser despida sem maneiras… Uma autêntica batalha sexual. Ao chegarmos ao outro lado do corredor, nomeadamente à sala, ela sentou-se no braço do sofá, virada de frente para mim… Puxou-me para ela e despiu-me o pouco que faltava… Não foi de meios modos, e provou-me. Depois de todo este cenário, este foi deveras o momento mais refrescante.

Não sei quanto tempo ali ficamos, talvez umas boas horas. Nem sei o que me terá levado a insistir nisto, talvez uma sede. Nem sei se é correto mas sei que sabe bem. Realmente o limão faz mesmo bem à saúde. E esta companhia faz-me bem à saúde.

“Que bom fruto este…”

© 100 Modos #69Letras 2016

Deixar uma resposta