Um banho de água quente

Tu precisavas de falar e eu de companhia. Tinhas dito momentos antes que te saberia bem desabafar um pouco e sugeri que passasses por cá. O caminho de tua casa à minha é curto, umas meras ruas, embora a noite já tivesse aterrado há muito isso não foi impedimento.

Fiquei um pouco contrariado porque preferia de facto ter sido eu a deslocar-me até ao teu espaço mas precisava de trabalhar e estava cheio de coisas para fazer. No entanto fizeste questão de vir cá.

Depois de combinarmos é que notei a carga de água que caía lá fora. Começou a chover do nada e não demorou muito até a tua ficar cheia de água que fazia lembrar um rio. Numa questão de minutos fizeste a campainha soar.

Fui abrir e lá estavas tu, encharcada e com um sorriso sarcástico como quem me estivesse a culpar. E senti-me culpado, admito. Sem demoras pedi que entrasses e que estivesses à vontade. Enquanto o fazias fui ao roupeiro buscar umas roupas secas que certamente te ficariam largas mas que serviam para o propósito e arranjar uma toalha para te secares. Ao regressar à sala com as roupas e toalha deparo-me contigo já semi nua, sem rodeios, sem qualquer problemas, sem vergonhas… Talvez para ti fosse normal ao ponto se já te sentires à vontade neste sentido não sei, mas a verdade é que ao assistir a tamanha beldade fiquei paralisado por completo. Paralisado e desorientado. Não foi por acaso que de seguida estendi a mão que segurava a roupa seca e pedi para te secares…

Reparaste que estava corado e a tremer até. E eras tu quem estava quase nua e sem parecer com frio. Sorriste. Sentia-me culpado, pecador em estar a encarar tamanha beldade, tão nua quanto a minha vergonha. Pensamentos aleatórios invadiram a minha cabeça. Como nunca teria reparado em ti desta forma. Muitos foram os momentos que passamos juntos, calados ou a conversar, a rir ou chorar, ao estalo e à facada, aos berros surdos e ao silêncios gritantes e agora enfrentava este momento único, onde estava fascinado com a tua carne.

A certa altura notei que começava a incomodar-te, devorada com o meu olhar provavelmente. Cruzaste os braços tapando o peito onde ainda pingava gotas de água do teu cabelo devido à chuvada. Começaste a tremer e o meu reflexo foi aproximar de ti para te cobrir com a tolha e com esse mesmo gesto e de forma inconsciente um abraço surgiu.

Foi um abraço quente e gelado ao mesmo tempo. Gelado devido à tua pele, quente impulsionado pelos nossos sentimentos. O que se estaria a passar? O toque era diferente, cheio de temperatura, cor e cheiro. O que senti no momento era indescritível. Parecia o chegar de algo tão esperado, um finalmente de algo aguardado. Abracei-te totalmente de forma a que os meus braços aquecessem o máximo de ti mas estavas tão gelada.

Afastei-te de mim, olhei-te nos olhos e quisemos aproximar as nossas bocas. Estávamos a ignorar o facto que estavas a gelar e poderias ficar constipada. Tentei ser mais forte que o momento… Agarrei-te as mãos e pedi que fosses para o banho, para te aqueceres. Concordaste e pegaste a toalha que tinha na mão mas a outra mão continuava agarrada à minha. Caminhaste puxando-me… Fiquei confuso e impedi que continuasses o trajecto. Foi então que me disseste:

– Vem comigo…

– Mas…

– Tenho frio, vem comigo…

© 100 Modos #69Letras 2016

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