Mar Revolto

Aqui, enquanto vislumbro a violência das ondas que embatem na rocha no seu movimento repetitivo,  com a sua sonoridade única que me acalma e transporta suavemente para outra dimensão.
Enquanto a minha filha de quatro patas me lambe a orelha e me suja de areia na sua instintiva maneira de me animar, que percebo a verdadeira dimensão da solidão que me envolve, o isolamento que instaurei a mim próprio. Ao coração que finjo não ter, aos princípios mais básicos da relação humana que finjo não cumprir, meras mentiras que imponho à minha consciência.
Sou o primeiro a sofrer com as dores de outrem e a tentar ajudar, sou o segundo a calçar os seu sapatos e perceber o caminho da tortura percorrido, o terceiro a tirar a roupa do corpo e tirar da boca se, de alguma forma ajudar outrem.
No entanto para mim próprio sou sempre e eternamente o último, identifico-me neste mar revolto e violento, a minha vontade férrea e imutável de seguir os meus sentimentos independentemente das barreiras que se apresentem, tanto bate que um dia chegarei vitorioso a mim próprio. Poderei dizer orgulhosamente que nunca desisti até chegar onde quero, ao que realmente procuro não fosse a ironia da mutação constante da vida, nem sempre o que queremos hoje se reflecte na vontade do amanhã talvez por isso absorvo cada minuto e hora como se fosse a última.
Tal como este mar revolto também procuro dias de calmaria que, sei que chegarão mais tarde ou mais cedo, mas também mais tarde ou mais cedo a revolta retornará, afinal a vida nada mais é que o conjunto de ciclos de luta por objectivos e recomeços por novos objectivos que implicam mais batalhas, assim sendo sigamos em guerra que o mar já nos chama.
Bastardo #69Letras

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