Enfim… Rendo-me

Bateste à porta. Eram 2h da manhã. Já tinha bebido um pouco. Tu também. Abro a porta e entras de rompante, sem nada dizer. Jogas a mala para cima do sofá espalhando as coisas que trazias e vais até à janela. Estática ficas a olhar lá para fora, lá para baixo. Notava-te tensa. Nervosa.

– Vais-me contar o que se passa para não me dizeres mais nada? Estou preocupada contigo… – Disseste melancolicamente.

– O que queres saber? Já sabes a merda que fizeste não sabes? Agora deixa-me da mão. – Retorqui.

– Deixa de ser estúpido! Gritaste Apesar de tudo, sabendo que fiz o que fiz e que não tem desculpa, tenho o direito de saber de ti, preocupo-me contigo! – Terminaste aos soluços com as lágrimas a quererem surgir nos olhos.

– Agora queres saber de mim? Depois de tudo? – Comecei a ceder, as lágrimas e a raiva consumiam-me ferozmente Desaparece! – Comecei a caminhar para trás e para a frente. Parei para encher o copo de Jameson, bebendo de seguida, sem gelo. Enchi novamente o copo e aproximaste-te. Agarraste a mão que segurava o copo.

– Sempre quis saber! Eu sei que cometi um erro. Um erro tremendo e sem volta a dar. Acima de tudo és alguém que estimo imenso. Demorei anos a entrar no teu mundo, não me peças para ir embora assim… Respondeste já a chorar desoladamente.

– Não, não me faças isto. – Começaram a cair as minhas lágrimas Era por isto que eu queria que não viesses. Era por isto que queria que não soubesses de mim. Fazes-me sofrer ao ver-te assim. Não é justo. – Comecei a tremer.

– Desculpa, por tudo. Não era isto que eu queria. As coisas aconteceram muito rápido. – Tiraste-me o copo das mãos e agarraste-me o braço. Os teus olhos focaram os meus, mesmo através das lágrimas – Lembras-te daquele dia na ponte? Lembras-te? Até estavas chateado comigo porque me tinha esquecido da prenda do teu Pai? Continuaste com o choro e os soluços.

– Lembro-me… – Não evitei de traçar um pequeno sorriso, embora estivesse a tentar disfarçar – Foi um dia complicado. – Terminei.

– Foi… Mas lembras-te do que do que te disse? – Questionaste apertando-me bastante o braço.

– Vagamente. – Respondi. Estava a ser sincero, com tudo o que se estava a passar não conseguia pensar direito. Relembra-me…

– Aconteça o que acontecer, faças o que fizeres, digas o que disseres, eu estou aqui. Juntos ou separados, perto ou longe, revoltados ou magoados, estarei sempre aqui. Eu vou ser aquela velhinha que estará deitada contigo na cama do hospital a ouvir rádio ou a melgar-te pelo desconforto. Poder-te-ei roubar beijos enquanto dormes porque o teu sono será pesado e assim não acordas para resmungar. Estarei sempre contigo. Nunca, por qualquer motivo te vou abandonar. És parte de mim, já não sei o que é viver sem isso. – Fizeste uma pausa, o teu choro abafava as palavras.

Com os polegares, limpei-te as lágrimas. Se eu estava uma merda, tu estavas uma lástima. Perdida, com sentimento de abandono. Ao terminar de limpar as tuas lágrimas baixaste a cabeça. Era um pecado ver-te naquele estado. Sentia facas a rasgarem-me o peito, de alto a baixo. Estava numa envolvência entre a ira e a angústia. Sentia o sangue fervido a correr nas veias e as mãos geladas, cada movimento que fazia com os dedos era como se agulhas fossem espetadas nas mãos.

Abracei-te. Sentia-te quente. Retribuis-te o abraço. Forte, tenso, caloroso, tranquilizador. Começaste a tremer, senti os teus braços a apertarem-me cada vez mais.  Uma nostalgia tremenda apoderou-se da minha mente. Senti o teu perfume, o teu balançar, a tua entrega. Senti-me fraquejar.

Chorava copiosamente por dentro. Apesar de tudo que acontecera sentia-me de rastos por te estar a tratar assim. Nada perdoava o que tinhas feito, mas era verdade. Foram imensos os momentos partilhados, vividos, enfrentados. Muitos sorrisos rasgaram-se, muitas lágrimas correram. Os nossos corações bateram maratona infindáveis. E não podia deixar que uma alegria de momento permitisse que destruísse o que de mais belo tínhamos criado. Naquele já nem pensava em mandar-te embora. Só queria que ali permanecesses. Tinha esquecido por momentos o que sucedera. Estavas ali… Aninhada em mim. Entregue em mim. Não podias escapar. E eu… Entregue a ti. Cedido a ti. Rendido a ti.

– Perdoa-me… – Imploraste com a cabeça afundada no meu peito. Olhavas para mim como aquele olhar que era singular.

Passei a mão na tua cabeça, penteei-te o cabelo. Acariciei o teu rosto e segurei o teu queixo. Fixei os olhos em ti, penetrei-te o olhar. Estremeceste. Perdeste o equilíbrio. Segurei o teu pulso com a outra mão. Uma forma de atracão surgiu. Sentia os meus lábios a querem os teus. Era recíproco. E agora?

Enfim… Rendo-me.

© 100 Modos #69Letras 2016

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