Na mesma mesa que essa pessoa

Há ligações que nunca se perdem. Laços criados, há muito construídos, inquebráveis que nem a distância desune. É por vezes incompreensível. Podemos não ver alguém à dias, meses, anos e volta e meia damos por nós sentados na mesma mesa que essa pessoa.

Sim, essa estranha sensação que nos conecta. Um ardor misturado com um gelar que desperta o nosso coração e nos faz tremer. Uma inquietude tremenda que faz com que os nossos olhos não escapem a esta atracção.

Inconformados com a realidade, surge a necessidade de controlo. A cobiça, a curiosidade, a posse. Não estamos eternidades com a pessoa e a ideia de concluir que o que nos separou foi o que nos uniu é medonha. Medonha ao ponto que sentirmos que estamos num paradoxo completamente afundado no desejo desamparado e surpreendido.

Estes momentos nunca se adivinham, não se programam, podemos montar esquemas e não é o mesmo. Mas sentimos. Inconscientemente. E agora? Passamos a refeição toda a cruzar olhares que se desviam orgulhosamente. O jantar acaba e surge o momento que alguém quer apanhar ar. O calor consome as nossas energias e a fome passa a ser outra. O álcool conecta pensamentos erróneos e pecadores. Procuramos espaço. Distância, das pessoas. Próximos da tentação. E fugimos. Cedidos a esta tendência carnívora de duas almas sedentas de um ritual erótico há muito vivido, sentido e repetido. Não é pelo sexo em si. Mas por tudo que envolve o momento. Cheiros, calores, palavras, toques, gemidos, respirações, química, beijos, mordiscares, apertares entre toda a carnificina despoletada de dois corpos em fúria, em ebulição, em choro pelo tal momento orgásmico acorrentado durante dias, meses, anos.

E volta e meia damos por nós sentados na mesma mesa que essa pessoa.

© 100 Modos #69Letras 2016

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