Contigo amei, sem ti, vivo

Foram em dias como este que a confiança não me falhou. Sentia-te nos meus braços, quente, tranquila, entregue ao momento, ligada a mim. Não precisava de grandes cuidados, ambos pensávamos em sintonia. De mãos dadas e de olhos ligados, horas se passaram oferecidos a estes gestos. Foram inúmeras as vezes que a meio da noite te mexias para me dar um beijo e voltar a dormir ou que ajeitavas os meus lençóis. Foram também inúmeras as vezes que acordei primeiro e fui preparar o mimo que tanto gostavas e que eu amava, só para te poder roubar aquele sorriso único e rasgado que aquecia o peito.

Ignoramos passado, não pensávamos no futuro. Apenas o agora e nada mais importante que isso. Sentia-me vivo. 

Com o tempo, infelizmente, todas as coisas boas têm o seu término. Embora algumas acabem de formas menos drásticas que outras. Mas o fim é sempre mau.Bate o arrependimento, a revolta, as questões. E na maioria das vezes ficamos em silêncio, sem resposta. É mais cruel ainda quando somos ignorados.

Mas é cruel. É cruel que sejamos colocados de lado. Que numa questão de segundos passemos a uma opção. Um “depois logo se vê”. E nunca sabemos na altura. Sempre depois de algum tempo. E até esse tempo chegar somos alimentados por ideia que já foi totalmente destruída. Como se um prédio abandonado aguardasse para ser demolido.  Há possibilidade de se ser mais cruel que isto? Sim há. Quantas vezes já alguém foi colocado varias vezes de lado e perdoou?

Pois. E com estes perdões sem conta percebemos que afinal não gostamos assim tanto. De nós. Amamos mais a pessoa que nós próprios. O medo de estar ou a ideia de vir a ficar sozinho é tão assustadora que nos faz sentir sem chão. O medo gera insegurança e a partir desse ponto passamos a viver a relação sozinhos, abandonados.

A fenda da ferida vai aumentando sem parar de sangrar, as forças começam a falhar, ficamos descoordenados, desorientados e uma espécie de depressão instala-se no nosso corpo. A fome não aparece e todas as cores passam a cinza.

E quando estamos na cama com a pessoa ao lado, mesmo sabendo… Tudo muda. De novo… Sinto-nos vivos.

A manhã chega, os corpos afastam-se, a ausência aparece e o frio no peito faz-se sentir. Novo ciclo. Dizemos basta, gritamos, choramos, temos conversas paradoxais com o nosso subconsciente. E entramos nesta rotina durante algum tempo. Às vezes anos. A necessidade vai-se dissipando, vamos conhecendo e fazendo coisas novas de forma a manter-mos a cabeça ocupada. Novos estímulos vão surgindo e já nos é tolerável o envolvimento sem sentimento.

Sim. O corpo precisa. Digam o que disserem. É uma necessidade. É primário, é um pedido do corpo e da mente. Saciamos ambos das diversas formas e maneiras, conhecemos novas pessoas, novo emprego, ginásio etc.

E a sensação de estar vivo volta a surgir. E é neste momento que percebemos que apesar do passado é sempre possível sentirmo-nos realizados, começamos a ver-nos de outra forma. Um sentimento de carinho por nós nasce. Ou renasce. Olhamos para trás e constatamos que muitas decisões que tomámos foram em tom de agrado. Para não a perdermos. Para não ficarmos sozinhos. E que não fazia qualquer sentido. Porque mais importante que isso é gostarmos de nós próprios primeiro. Amar é bom. Amei-te, sem sombra de dúvida. No entanto, agora sozinho, amo-me mais.

E amando-me mais, sinto-me ainda mais vivo.

© 100 Modos #69Letras 2016

 



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