O teu sorriso não me enganou, tanto quando te conheci como quando te descobri

Disseste que ias dormir. Algo banal e quotidiano. Mas suou diferente, meio disfarçado, ao som de palavras tremidas. Estranhei. No entanto contive-me. Não seria justo. Vivíamos a poucos metros um do outro, vivias de frente para mim. Ao sentir esta estranheza precisei de apanhar ar, beber um copo. Fui à sala encher um copo com Jack Daniel’s e fui para a janela da sala enquanto observava o teu prédio.

Estava fresco mas uma noite espectacular, o céu estava limpo e notava-se perfeitamente as estrelas quem iluminavam a rua. Foi então que reparei que tinhas a luz do quarto apagada, coisa que não teu hábito.
Não havia dia que faltasses à tua leitura nocturna. O tal momento onde o teu cérebro esquecia as correntes do dia a dia e desprendias a imaginação. Terias ido dormir imediatamente? Não acreditei. Mantive na janela tentando ignorar o que, julgava eu, estava a passar. Senti uma inquietude a apoderar-se do meu corpo, as mãos ficaram dormentes. Vi alguém a sair do teu prédio. Alguém com os cabelos inigualável de um jeito único. Parecia que conseguia sentir o seu odor desta distância. Eras mesmo tu…

Sim, eras mesmo tu. E eu estava a ver. Tinhas trocado de roupa. Nem ao quarto foste. Já contavas com esta saída, pensei. Só me estarias a despachar afinal e não tinhas sono nenhum. Parecias estar à espera de alguém pela forma como olhavas para o telefone. Caminhaste até à beira da estrada e ficaste por ali, olhando para o fundo da rua. Do meu lado, persistia de copo na mão, ainda com elas dormentes pela mentira causada por ti. Bebi o resto que whisky que tinha no copo. O ardor do álcool ao atravessar a garganta fez-me voltar a mim. Nesse mesmo instante vi um carro parar perto de ti. Foi então que gelei. Vi-te sorrir como sorrias para mim. Não era um sorriso qualquer, um sorriso que só eu conhecia. Afinal não. Não era o único. Quantas foram as vezes? Porquê? Este estranho momento em que não sabemos se havemos de interagir ou deixar andar porque a situação nem merece esta encenação toda e simplesmente terminar tudo. Amanhã vais falar comigo como se nada fosse.

O amor é levado assim levianamente? Sem respeito? Abdicar de tudo por calores de momento? Serás tu uma alma pobre ao ponto disto? Quantas foram as vezes que comigo estiveste e com o outro deverias estar? Senti facadas nas costas. Inúmeras. Sinto-me usado e abusado.

Ou seria tudo fruto da minha imaginação? Aquele momento em que começamos a pensar se estamos a agir por impulso e somos drasticamente inseguros ou se realmente tudo não passou de uma perda de tempo…

Uma coisa é certa. O teu sorriso não me enganou. Tanto quando te conheci como quando te descobri.

© 100 Modos #69Letras 2016

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