Eu só vinha dar-te uma prenda

Ela faz anos! Porra esqueci-me, ela faz anos!

Eram 18h e tinha saído tarde do trabalho e quando finalmente tive um tempo para agarrar o telemóvel reparo no lembrete que me alertara de manhã do aniversário dela. Oh meu deus, que vou comprar assim em cima do joelho? É verdade que não tinha sido convidado mas todos os anos tentava sempre oferecer qualquer coisa. Mas este ano não seria para oferecer qualquer coisa. Tinha que ser mais que isso.

Andava dias a sonhar com tal coisa. Com a aproximação do evento todas as ideias que tivera anteriormente sumiram ficando apenas as ideias dos perfumes e flores para oferecer. Porra. Logo agora, não dava jeito nenhum.

Procurei em várias lojas e superfícies comerciais e nada. Não achava nada diferente que fosse ideal para esta fase. Pedi ajuda às funcionarias das lojas mas tudo recaía para os habituais produtos de beleza e bugigangas desta natureza. Coisas que claramente tu não precisavas. Pormenores…

O tempo começava a escassear e ainda tinha um longo caminho até sua casa. Estupidamente e sem qualquer gota de consciência passei por uma loja de rua que vendia alguns peluches e peguei um, entreguei 10€ ao dono da loja em tempo para receber o troco e meti-me no carro.

Só durante a viagem é que notei o quão absurdo foi ter trazido o peluche. Adicionando o facto que a esta hora já não contavas com nenhuma prenda minha. E lá iria eu chegar, não convidado, fora de horas, com um peluche. Um girafa… Claro. Genial! Uma girafa… Onde tinha eu a cabeça…

Chego à sua rua, procuro estacionamento e por azar dos azares estava tudo ocupado. Que se lixe pensei, vim com o espírito de a presentear e arrancar um sorriso dela, algo que faria o meu mundo parar. Deixo o carro em 2ª fila e dirijo-me ao prédio. A porta estava aberta pelo que não foi preciso tocar à campainha. Subo até ao 1º andar e ajeito-me, com a girafa escondida atrás das costas. Brilhante. Toco à porta com receio. O toque foi tão subtil que julgo que nem ouviram. Esperei e apenas ouvia as gargalhadas grotescas do seu marido mais o seu amigo. Merda, já estavam a jantar. Belo timming.

Toco novamente à porta desta vez com mais energia. Apenas ouço um berro vindo, presumi eu, da sala de jantar do marido “Olha a porta!!!” e segundos depois notei que alguém estava a mexer nas chaves por detrás da porta. A porta abre e era ela…

Linda como sempre. Os anos iam passando mas a sua beleza prevalecia intacta. Ela ficou em pânico e tropeçou nas palavras que queria dizer.

– Que fazes aqui? Perguntou

– Bem… É o teu aniversário… Quis vir dar-te um beijo e desejar-te um excelente dia que provavelmente já vai a meio e peço desculpa, trabalhei até tarde e não estava nos meus planos. – Respondi a tremer.

Ela sorriu e notei que o nervosismo passou. Questionou logo de seguida:

– Já comeste? – Esboçou um sorriso.

– Não tenho fome. Respondi meio perdido. Claro que tinha fome, mas não queria estar à mesa com o homem que roubara o meu amor. No entanto a ideia de poder estar ali mais um pouco com ela enchia-me o peito de calor.

– De certeza? Reforçou.

– Sim, de certeza. Só quero mesmo dar-te uma lembrançazita e ir embora, tenho umas coisas marcadas. Menti com todos os dentes que tinha na boca.

– Deixa-me só servir-te uma bebida, está um frio do caraças e assim ao menos ficas mais quente. Ok? Disse naquele tom que era capaz de desequilibrar um Golias.

– Ok. Vamos lá a isso, não posso demorar. Só queria ficar, mas a sós com ela. Enfim, melhor que nada, pensei.

Ao entrarmos fez sinal para me dirigir para a cozinha e entretanto foi à sala de jantar avisar o seu marido de quem era. Um colega de faculdade, disse ela… Claro. Mal ele sabia que nos conhecíamos desde a primária.

Ela voltou rápido, tirou 2 copos e serviu-nos de moscatel. Meio embaraçado decido oferecer a girafa. Ao presenteá-la com o peluche que nem embrulhado estava ela desmanchou-se a rir. A rir perdidamente. E eu embaraçado pela vida, pela minha triste figura que nem um presente em condições consegui comprar. Ela já chorava de tanto rir que de seguida estendeu os braços como se pedisse um abraço. E assim o fiz. Os nossos corpos juntaram-se, uniram-se, comunicaram. Ela calou-se completamente e esbateu-se um silencio medonho na cozinha que era simultaneamente abafado pelo risos altos e conversas desconexas vindas da sala de jantar. Estavam bêbados e isso permitia-nos estar ali naquele momento, naquele bocado.

O abraço demorou. Ficamos ali minutos, como se nos tivéssemos a confessar. Saudade, desejo, angústia, medo, necessidade, salvação, porto seguro, alivio… Paz. Acariciei-lhe o cabelo por reflexo, esqueci-me que ela delirava com isso desde o secundário… Sentia tremer. Tarde demais. Não fiz com intenção e já estava a pecar. Por sua vez e em resposta ela beijou-me o pescoço.

O que ela foi fazer… Havia ali mais que uma prenda a oferecer, muito mais que um carinho a receber. Algo perdido, um sentimento que naufragou no oceano desta vida. Um momento que ficou à deriva e que por temporadas deixámos de o procurar e hoje acidentalmente tínhamos encontrado. Tudo num ápice se tornou frenético, bruto, devorador. Encostei-a à bancada da cozinha e os beijos surgiram. Ela era feliz com aquele homem na sala mas havia algo entre nós de um descontrolo total que não há quadro que o retrate.

No meio daquele aparato todo e já entregues ao momento em busca de mais paramos assustados quando ouvimos um estrondo vindo da sala de jantar. Alguém tinha deixado cair qualquer coisa. Graças ao barulho foi-nos possível cair na realidade do que estávamos a fazer. Ajeitámo-nos e preparei-me para ir embora, sem dar conta pego no peluche e ela vai à sala avisar que me vai levar até ao carro pelo que ouço uma voz possante “Despacha-te!”

Voltou da sala com um sorriso no rosto, meio sedutor meio malvado. Dirige-se à porta de saída e sigo-a. Vira-se para trás e fez um sinal para esperar, de seguida abriu e fechou a porta de casa simulando a nossa saída. Fiquei estupefacto com o que ela estava a fazer, mas que raio estava ela a preparar. O sorriso ampliou no seu rosto. Pegou na minha mão e puxou-me até à despensa e trancou-nos lá dentro…

Nem consegui dizer uma palavra quando reparei que já estava meio despida e a tocar-me… Meu deus, e eu só vinha cá dar-lhe uma prenda… Que prenda…

Só sei que o peluche ficou na despensa…

© 100 Modos #69Letras 2016

 


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