Comboio das 08:20

Todos os dias às 08:20 ganho um brilho nos olhos. Não falho aquele comboio. Saio sempre de casa num desaparato total acabando por esquecer sempre de algo.
Faço o caminho habitual. Um caminho curto e sem muito de encanto. Frio e cinzento.

Mas tudo ganha cor ao lembrar-me que dentro de minutos estarei naquele comboio.

Onde meio mundo ainda se encontra no processo de acordar, outros no de dormir. Um conjunto de pessoas de todo o tipo. Umas arrastam-se pela vida, uns com demasiada energia matinal, outros aproveitam para dormir mais um pouco mas tu… Tu és quem te destacas daquela multidão. A singularidade da tua presença é uma espécie de íman para os meus olhos.

Esse teu jeito tão inocente, frágil e com um cabelo ora escadeado ora apanhado e castanho escuro, não fica indiferente naquela carruagem. Sempre que entro no comboio procuro um lugar perto de ti, para te ver, admirar. Nem que que admire à distância, só para que quando te cruzares comigo sentir o teu perfume. Esse cheiro frutado que me deixa meio louco.

São cerca de 20 minutos de viagem, poderiam ser 1000, não me importava nada. A cada segundo fico a admirar os teus gestos, as tuas expressões, a tua maneira de virar a página um livro que te acompanha todos os dias.

Vão 5 meses nisto. Sim, algum tempo. Tempo suficiente para pelo menos termos trocado um olá. Nem isso…

Mas ficamos pelo – Posso? – quando o único lugar vago é ao teu lado e ocupado pela tua mala. Um dos meus melhores inícios de dia por acaso. Acho que começo a perceber do que ando a esquecer todos os dias com esta pressa de te ver. Esqueço-me de deixar este medo, esta vergonha, este receio em casa para te enfrentar. Dizer um olá, dizer nem que seja um cliché, conversa de elevador, sei lá. Quero saber o teu nome. Ouvir a tua voz para além do “Sim”. Quero começar o meu dia com a tua voz. Quero saber isto tudo antes que esta nossa viagem acabe.

Estúpido medo. Estúpido receio.

© 100 Modos #69Letras 2016

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