Ora agora és tu, agora tenho que ser eu

Por momentos, durante a relação, damos por nós a pensar se realmente aquilo tudo é verdade. Sintomo-nos completos e cheios de cor.

Preenchidos e bem assentes na terra. De mãos dadas, sentados no sofá a ver um programa estúpido qualquer. Com um de nós a fazer chá para o outro porque nos sentimos doentes. Ou vamos ao mercado buscar aquele chocolate preferido que tanto pendichas no meio de uma chuva torrencial. Ou mesmo criar um show de pirotecnia na cozinha para te proporcionar um momento daqueles com uma jantar que vimos na NET.

É bom não é? É.

Ou melhor.

Era bom não era? Era.

Não sou ninguém para julgar veemente. Não é uma certeza mas é o que se vê. E nisso os olhos são transparentes. Depois cabe a nós tirar as conclusões. Mas isso são outros quinhentos.

Mas o que vejo parece-me falso. Parecem aqueles copos que à primeira vista são de vidro e depois de pegarmos neles… Afinal não. A sensação que me dá é que muitos tentam fazer uma espécie de exibicionismo por turnos. Ora agora és tu, agora tenho que ser eu. E além disso vai-se perdendo a cor, o sabor, a temperatura da relação. Passa tudo a ser um teatro em do destaque.

Vejo pessoas preocupadas no destaque em prol de aceitação quando deveriam justificar porque o parceiro foi a escolha. Vejo pessoas, por assim dizer, juntas. Que mal se conhecem. Não passam de apresentação de rótulos expirados. Onde a hipocrisia lidera e surgem frases persuasivas como “és a melhor coisa deste mundo” ou “és o meu mundo”. Pois.

Penso que nos dias que correm, infelizmente, essas energias, vivências, cores, sabores e temperaturas desvaneceram. Onde as relações passaram a ser individuais. Onde a forma de resolver as coisas é dizendo “se estás mal muda-te”.

Deixem-se de teatros. Destes teatros. Isso não compra sorrisos genuínos, felicidade pura nem calor no peito. Procurem conhecer a pessoa que tem ao lado. Por alguma razão ela ou ele vos escolheu. E se ela não vos escolheu… Qual é o objectivo? Para que serve esta encenação toda?

Enfim.

© 100 Modos #69Letras 2016

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