Não posso esconder mais… Tanto tempo nisto

Eram três da manhã. Acordei meio assustado. Estava suado e de ritmo acelerado. Levantei-me e as pernas ainda tremiam. Tinha tido um pesadelo. Um sonho estranho, um sonho que faria com que não te pudesse ver mais. Irias viajar para longe e não voltarias mais. Mesmo sabendo que seria por uma questão profissional o meu estado de espírito estava em negação para com a situação. Não te iria deixar partir sem antes poder estar contigo.

Maldito sonho, a caminho do aeroporto tudo me aconteceu. Tudo! Não irei entrar em detalhes mas isso fez com que não conseguisse dizer um adeus. Iria convicto que o meu adeus seria um olá e faria mudar-te de ideias. Eu sentia. Infelizmente tive que me contentar em ver-te de longe… A entrar para o avião. Reparei que antes de pisares o avião ainda olhaste para trás na esperança de me veres. Sem sucesso. Normal… Estava longe. Isso mesmo, estava longe…
Agarrei no telefone, liguei-te. Atendeste ensonada e atordoada. Eu pouco disse:

– Desculpa, mas preciso de te ver.
– Han? Mas… Que se passa? Estás bem? – Perguntaste perdida.
– 15 min e estou aí. Desculpa, amo-te. – Disse a chorar.
– … – Não disseste nada, ficaste em silêncio.

Limpei o pouco de suor que ainda tinha no pescoço e vesti-me sem preparos e saí de casa. Meti-me no carro e arranquei a alta velocidade. Não iria perder mais tempo. Hoje seria o dia que te iria provar o quanto me eras importante. Poucos minutos depois, tinha chegado. Saí do carro de rompante, nem tinha desligado o motor. Estava a chover a potes, a chuva era fria e sabia bem, ajudava também a disfarçar as lágrimas.
Aproximei-me do portão e estavas à porta debaixo do alpendre. Senti o teu rosto assustado e tu notaste o meu de choro, mesmo com a chuva. Foi naquele momento que soube que tu sabias. Começaste a chorar também. Segundos depois olhei para o céu com um certo sarcasmo e de seguida para ti, comentei:

– Não posso esconder mais… Tanto tempo nisto. Eu sei que o timming não é o perfeito. – Ironizei abrindo os braços como quem criticasse a chuva que agora começava a incomodar.
– Somos parvos – Disseste a sorrir e a chorar – Desculpa não ter percebido mais cedo. Anda para aqui.

Estava tão tenso ainda sobre pesadelo que tinha ainda doses de medo a transbordar e a única coisa que quis dizer no momento foi o que teria dito se tivesse chegado a tempo ao aeroporto.

– Amo-t…. – Não tinha terminado sequer e senti o teu abraço. Quente, perfumado, intenso, eterno…
– Eu também, eu também! – Disseste enquanto de beijavas e limpavas-me as lágrimas.

Estamos no meio da chuva, em frente ao portão, entre o meu carro e a tua casa. Tudo à nossa volta naquele momento desapareceu. Até a chuva. Foi o culminar de anos de silencio e de sentimentos retraídos. Nem fomos para dentro do carro nem para dentro de casa. Toda a nossa tensão, todos os nossos sentimentos, todas as coisas guardadas, todas as angustias tinham despoletado naquele instante. Nos íamos caminhando para algum lado enquanto estávamos ali loucos aos beijos, abraços, toques e choros descontrolados. Dei por mim a sentir o meu carro nas minhas costas. Foi então que abri a porta do carro e atirei-te lá para dentro, entrei também e fechei a porta. Agora estávamos no nosso espaço, no nosso canto. Sorriste. Estávamos todos encharcados e foi uma questão de segundos até o carro ficar todo embaciado. Sabíamos que aquele momento era nosso. Estava reservado para nós. Virámos animais, fodemos como doidos, gememos como loucos, repetimos como gulosos.

Nem sempre os pesadelos são maus. Muitas vezes são uma mensagem. Escondida, disfarçada, invisível. Não nos devemos focar no mal que vivemos e sim procurar as coisas boas, admiti-las, vivê-las, afirma-las. Muitas vezes adiamos decisões, outras vezes adiámos de mais. Amar não é um pesadelo. Viver não é adiar. Adiar é que é um pesadelo e viver é amar.

© 100 Modos #69Letras 2016

 

 


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