Já cheguei ao céu?

Dei inicio ao meu turno como tantas outras vezes. Os olhares de sofrimento nos rostos estampados na sala de espera já nada me dizem.
Tornei-me “imune” às lagrimas alheias para minha própria segurança. Porque tambem sou humana.(Será que ainda sou?)
Saber libertar-se da carga emocional torna-se uma capacidade procurada na nossa área. É uma característica indispensável para irmos “leves de espirito” para casa.
No entanto trabalhamos com a morte. Vimo-la passar pelos corredores do hospital, tatuada nas caras dos familiares que perderam os seus entes queridos e até falamos dela por vezes como se duma cura se tratasse. ” para sofrer assim tanto mais vale morrer”
-Steel ainda bem que chegaste. Tens de acompanhar o paciente do quarto numero 4.
-Sim. Acompanho-o aonde?
-Steel tens de acompanhá-lo a morrer. A familia vive muito longe e vão demorar até chegar.
-Ok…
-Não te preocupes, infelizmente é coisa rápida.
E levei com um soco no estômago.
Já tinha lidado com pacientes por morrer e outros já mortos, ossos do oficio. Mas ajudar a morrer?! Como se faz isso?
E eis que a minha humanidade sobe ao de cima.
Dispo a camisola da farda, ficando com a minha t shirt branca ao descoberto. Solto o cabelo e meto perfume. Decidi que ia ser aquela familiar afastada e não uma estranha fardada.
Entro no quarto e a minha cobardia sorri ao aperceber-me que o senhor estava a dormir. Talvez esteja mesmo já…
Sento-me ao lado da cama e controlo o pulso. Fraco mas ainda presente.
Olho para aquele ser humano com os meus olhos de menina assustada e imagino. Se fosse meu pai? Se fosse alguém proximo a mim estaria neste chão devastada pela dor.
Mas em vez disso, estou aqui sentada serenamente com a minha mão ainda agarrada à sua.
Sem querer sinto meu corpo invadido por uma paz e calor. Se calhar é a nossa amiga que chegou. As minhas mãos não se descolam das suas.
Ele abre os olhos cansados e vira-se para mim com um olhar de esperança quase seguido de um sorriso que me desarma completamente.
-Já cheguei?
-Aonde?
-Ao céu, claro. Já cheguei ao céu?
Isto ultrapassa-me em todos os sentidos mas mesmo assim tento manter a coerência.
Controlo o pulso, constato que está tão fraco que mal se nota.
– Estamos a caminho…
– A menina acompanha-me?
– Não há nada mais importante para mim neste momento.
Seus olhos fintam os meus num sorriso pacífico. Nossas mãos comunham-se.
E eis que chega a nossa amiga…

©Miss Steel 69letras 2017 

Continua em Anjo de asas quebradas

 

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