Anjo de asas quebradas

Ele partiu. Aquele desconhecido que me fintava o olhar numa paz que me invadia o coração, partiu. Fiquei eu.
Permaneci com as minhas mãos coladas às dele numa confortável melancolia.
Não verti uma unica lágrima.
Lá se foi a minha humanidade…
Com a ajuda de outros colegas do mesmo oficio preparamos o corpo para a familia. Volto a vestir a farda. A familiar afastada abandona o turno.
Passado uma semana, minha vida continua na azáfama de sempre. Até que sou chamada à recepção. Uma senhora mais velha que eu me aguarda.
– Miss Steel?
– Sim sou eu.
– Desculpe o incomodo mas queria agradecer pessoalmente por ter acompanhado meu pai.
– Perdoe-me mas já não me lembro…
Passam muitas pessoas por aqui…
– Meu pai faleceu a semana passada Miss Steel.
E perdi o chão. O que dizer, que postura a tomar?
Ela apercebe-se da minha falta de coragem para articular uma palavra que seja. Tenho perfeita consciência de que nada do que poderei dizer ou fazer irá mudar o facto que ele morreu e ela não estava ao lado dele. Onde deveria estar.
– Sabe Miss Steel, não houve um minuto que fosse, desde que eu recebi o telefonema ate à pouco, em que eu não desejasse ter estado ao lado do meu pai na sua ultima viagem. Mas depois de ouvir dos seus colegas de trabalho tudo o que você fez por ele, estou certa de que esteve o anjo certo ao lado dele.
Foi um privilégio concerteza para o meu pai ter conhecido um anjo como você antes de fechar os olhos.
E se como as palavras não bastassem, desarmou-me num abraço emocionado. Despediu-se e foi-se embora mas não sem antes ter-me desejado tudo de bom na vida.
Confesso que de tempos a tempos, revivo as palavras dela. Não para me vangloriar. Muito menos para me dar pancadinhas nas costas. Mas sim para tentar remendar os rasgos e as feridas nas minhas asas de anjo…

©Miss Steel 69letras 2017 

Para ler a primeira parte deste texto vá até Já cheguei ao céu

 

1 comentário a “Anjo de asas quebradas”

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