AMO-TE COM O UMBIGO

Não, não é devaneio meu! Não é a busca do ridículo, nem a necessidade da diferença. Apenas te amo com o umbigo, e não sei o que há de ridículo em tal afirmação. É o meu umbigo, a mais antiga cicatriz que tenho, a única que foi por uma boa razão, por uma ligação que dura desde que existo, ainda antes de saberem que existo.

Há quem ame com o coração, com o cérebro, com as mãos, com o sexo, eu amo com o umbigo…

E o que é o umbigo afinal? É a marca da ligação suprema à vida, a marca da ligação à figura materna, aquela figura que por 9 meses me carregou no ventre, que aceitou a minha existência em si com todos os prós e os contras que isso implicaria na sua vida. O meu umbigo diz que sou filha de alguém, que fui alimentada por alguém mesmo antes de me pegarem no colo. Se um dia a ciência se lembrar de produzir bebés em garrafas ou algo que não inclua um ventre, nesse dia morre o conceito de amar com o umbigo.

Uma mãe pode abandonar um filho, negar-lhe amor, mas nunca apagar a marca dela na sua existência.

Nunca tinha dado grande importância a essa cicatriz que há tanto permanece em mim, hoje compreendo o quão importante ela é na minha história.

E eu própria faço parte da história de outro ser, um ser que gerei, pelo qual lutei todos estes anos e que amo com toda a garra.

Num tempo que ainda se debate tanto sobre o aborto, em que tantas crianças são abandonadas e mal tratadas, em que tantas pessoas desejam ser pais sem o conseguirem ser, num tempo em que o direito da criança a uma família é posto em causa com burocracias e preconceitos… Esquecemos facilmente da vulnerabilidade da vida e do quão importante é ser amado, ter uma família e deixar o melhor de nós ao mundo.

Todos temos uma ligação a alguém, ainda que uma ligação que tenha sido quebrada, ainda que aqueles que nos dão amor não sejam os mesmos que nos conceberam.

Uma vida sem amor é uma vida vazia, e abandonar um filho é puro acto de cobardia e desumanidade.

Amo-te com o umbigo porque me deixaste conhecer o teu mundo, porque não me arrancaste de ti com violência, porque me pegaste ao colo assim que nasci, me amamentaste, me deste um nome e uma família.

Um texto de Liliana Soares

Fotografia Via: Pinterest

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