Acordei com fome e não me alimentaste

– Vem para casa! – Foi a única coisa que te disse ao telefone.
Sabia que estavas quase a sair do trabalho, trabalhavas até mais tarde, mas eu estava impaciente.

Não te vi nem ouvi sair de manhã. Aquele andar leve mas meio felino fazia que quase nunca desse por isso. Não me conseguia distrair, estava a mil.

Hoje foi daqueles dias que acordei com vontade de te mostrar o que de perverso há em mim. Acordei com fome e não me alimentaste. Haverá castigo. Quero prazerosamente vingar-me. Não te disse o motivo porque te queria em casa. Sei que virás, meio preocupada talvez.

Anseio pelo ruído das chaves na porta e sem dares conta ao entrar dás por ti já encostada na parede. E aqui onde estás será iniciada a minha vingança. Lenta mas intensa. Não terás tempo para pensar, não permitirei tal coisa. Temos um corredor para percorrer e até chegarmos ao quarto prometo que os vizinhos saberão da tua existência. Quando te sentir descontrolada e prestes a libertar a fera que há ti, prender-te-ei, silenciar-te-ei.

A minha refeição está servida.

Quando terminar, libertar-te-ei. Abraçar-te-ei. E assim que as nossas almas aterrarem aproximar-me-ei do teu ouvido e direi:
– Agora sim. Bom dia Amor.

De seguida levar-te-ei a jantar.
É a tua vez.

© 100 Modos #69Letras 2016


 

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