Obrigado Esplanada da Graça

Final de tarde, talvez uma das mais belas vistas sob Lisboa, saboreando um café forte e um Cardum sem gelo, a combinação dos dois, algo de extraordinário.
Tirei o dia para mim, revitalizo-me neste horizonte com a imagem do rio e a ponte ao limite da vista, sacode-me os pecados da alma. Talvez por ironia do destino ou castigo, vejo-te chegar num lindíssimo vestido azul-turquesa, par ideal dos teus olhos, esse corpo perfeito que eu tão bem conheço. Melhor conhecia! Ainda não me viste, aproveito para te observar minuciosamente juntamente com as dezenas de pessoas que viram as cabeças para te ver sentar, enquanto o cavalheiro que te acompanha te puxa a cadeira.
As memórias invadem-me, saber que fiz de ti o que és hoje. Eras tão inocente e pura quando nos conhecemos, tinhas a beleza física e o ar selvagem mas não sabias o que fazer com eles. Ensinei-te a deixar de ser banal, de ser alguém de ” talvez”, de ” não sei” , de ” tenho medo”. Numa força da natureza, numa mulher sem hesitações ou duvidas, sem meios termos.
Ensinei-te a lutar pelo que queres, a acreditar em ti, que os teus desejos eram ordens quando soubesses pedir. Que o prazer não tinha regras nem limites, tudo estava na tua mente e com ela tudo era possível, tornei-te o sonho de qualquer homem que sabe o que quer.
Já me viste. Os teus olhos lançam-me farpas, mordes os lábios mas desta vez de raiva, não de luxúria como tantas vezes te provoquei.
Hoje és a Deusa que imaginei, criada por mim, pelas minhas mãos. Hoje és digna de ser amada, só não por mim.
Fechei essa porta atrás de mim há muito, afinal esse foi o teu erro, apaixonaste-te por mim. Eu que nunca soube lidar com essa entrega, dedicação e partilha, algo que desejavas intensamente mas que me sentia incapaz de realizar.
Nunca soube dar de mim algo tão meu, tinha que te mostrar as minhas cicatrizes, as minhas mágoas mais profundas, meus demonios mais tenebrosos e tu, que acabavas de te descobrir como mulher. Não merecias tal provação.
Larguei-te ao mundo com a certeza que sobrevivias. Afinal o teu professor fui eu.
Pago a conta e olho-te com o orgulho de um mestre para a sua melhor pupila, naquele instante preso no tempo sorris-me de volta, ergues-te delicadamente, caminhas na minha direcção. Paraliso!
Penso vou levar uma chapada como é costume. Não! Olha-me intensamente, beija-me o canto do lábio e sussurra-me ao ouvido:
– Obrigado!.
Observo-a no regresso ao seu lugar, aquele obrigado por um minuto aquece-me o coração é afasta o ar frio que já se instalava neste pôr-sol.
Penso para mim, Bastardo vais para o inferno!, mas tens muitas atenuantes….
Bastardo #69Letras

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