O cavalheiro fica à porta

O alarme de incêndio toca!
“Lá vamos nós outra vez!”, pensei para mim, enquanto me levantava da cadeira com um ar enfadado às 8:30 da manhã!
Mais uma simulação de incêndio na empresa, como tantas outras.
Levanto-me (muuuiiito devagar…), ajeito as calças, agarro a minha caneca de café e sigo pelo corredor, onde os colegas mais entusiasmados correm e se atropelam para chegar à rua.
“Corre Sin, isto está tudo a arder!”, diz-me o meu chefe em pânico!
“Podes ao menos tentar demonstrar algum medo!”, exacto…
E se te mostrasse aquele dedo e te mandasse para…enfim!
Lá continuei eu a minha caminhada no meio do “pânico” e eis que passo por um gabinete em que o drama era idêntico ao meu!
Ali estava ela, com o seu ar altivo a transpirar sensualidade, cabelos pretos compridos, olhar profundo, com um vestido curto e saltos altos, também de caneca de café em punho e ar enfadado!
“Acompanha-me?”, perguntei.
“Claro que sim”, retorquiu, “parece que o pânico está instalado. Que se salvem todos. Não tarda o edifício ficará vazio e teremos oportunidade de nos conhecer  melhor e saborearmos o café!”
Bom, sendo assim, deixa arder!
O alarme finalmente tinha parado.
De uma janela, olhávamos para baixo e víamos toda a parafernália de bombeiros e pessoas, que tentavam escapar a este “incêndio”…
Olhámos um para o outro…
“Tenho a certeza que a sala de
reuniões não ardeu. Vens comigo?”
Conseguem imaginar aquele momento em que estamos no dentista, com a boca completamente dormente da anestesia e tentamos balbuciar algumas palavras sem que ninguém nos perceba e acabamos por vezes a babar-nos?!
Foi igual. E ela percebeu, ao colocar aquele sorriso malandro…
“Pousa a caneca. Deixa-a cá fora. Não me quero suja, pelo menos de café…”
Abri a porta para ela entrar, como acto de cavalheirismo.
“Depois de entrares, fecha bem a porta. Mas deixa o cavalheiro lá fora!”
O alarme soou de novo…
Iniciou-se outro incêndio no prédio…

7thSin✟ 69 Letras® 27.08.2016

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