Istambul 14 de Fevereiro de 2016

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Istambul 14 de Fevereiro de 2016

Espero que ao receberes esta carta te encontres bem,
neste dia que não estou contigo senti me perdido,
busquei nas bancas de especiarias o teu cheiro,
cheirei uma a uma, e nenhuma tem o teu odor,
o cheiro quando te debruças e sussurras ao ouvido,
o perfume que o teu corpo tem encerrado no seu ardor.
Chovia copiosamente, uma chuva morna,
e fechei os olhos e senti te aqui nesta cidade estranha,
senti a tua boca deslizar na minha num sabor intenso a morango,
senti o suor que pinga do teu cabelo quando o teu corpo no meu se entorna,
e o meu peito no teu se enrola e entranha,
no balançar de ancas numa forma estranha de tango.
Senti o sabor das lágrimas, misturadas com o adocicado do ar rarefeito,
lembrei me das misturas de sabor que em teu corpo são meu mapa,
como se me guiassem na escuridão taciturna da solidão,
em que me desnorteio, perdido e desfeito,
já nem sei se é de noite ou se o dia é apenas uma capa,
em que me cubro e te vejo em todas as lojas entrando, nesta minha ilusão.
Vejo os teus cabelos debruados a ouro nos colares pendurados,
vejo te debruçada sobre o Bósforo acenando para mim,
vejo te nesta loucura invadida que tomando conta da minha paixão,
o teu corpo ondulado em vestidos brancos imaculados,
muda silencias me o tormento que não mais tem fim,
por não estares aqui, não sentir o toque perfeito que tens da tua mão.
Não é por ser este dia, nem por estar sequer tão longe de ti,
é porque por mais cidades que o meu corpo percorria o teu mais não via,
que uma imensidão do cálice da vida que de ti bebi.
Até esfreguei um lâmpada com vigor,
a ver se o pesadelo se tornava num sonho concretizado,
nem um génio apareceu, nem o que tinha sonhado,
ver o teu corpo em minha cama deitado, e eu longe deste sol pôr.
Nesta carta que te escrevo, e que o carteiro te vai entregar,
lembra te que a magia do momento, que por acontecer está,
quando em teu corpo repousar e meu exterior no teu interior entrar,
nesse espaço exíguo e apertado, teu cheiro no meu como exalar desta chávena de chá,
que bebo a escaldar como teu corpo febril e fechado,
sinto saudades do aperto que me dás e como ele não há,
volta na surpresa de me fazeres surpresa nem que seja num retrato enviado.
Saudades tuas… Vem Sol.

O Inquilino #69Letras
Na fotografia: David Gandy

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