Nasceram e cresceram numa ode profunda

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No frio do inverno encontraram se, e enquanto a chuva caía lá fora e ensopava as toalhas esquecidas na esplanada, assim se sentiram, esquecidos e ensopados nos sentimentos que estavam colados á pele numa toalha negra de paisagem interior. Ficaram a olhar lá para fora, como se estivessem cada um num lugar distante, individual e único, tão seu. Quando acordou, tocou lhe na mão e perguntou lhe se estava bem. Ela sorriu e por momentos ele sentiu no olhar dela uma lareira acesa, um fogo que se acendia pelo toque puro de um acordar singelo e sem mácula. Nesta catártese em que ambos sorriram, encontraram se nesse mesmo sorriso e viajaram no olhar de exalado calor de lareira acesa de um e o outro se aquecia de peito aberto. Falaram de tudo e de nada, apenas e tão só por falar, por sentir, cheirar, apurar o conhecimento. Do relógio que ele deixou em casa, ela criou lhe o dia, a tarde e a noite na simples observação que ele fazia dos seus lábios e das palavras que ela soletrava pelos olhos quando lhe falava e ele bebia ávido numa atenção hipnótica. Sentiram abrir os braços ao mundo num renascimento entre o cheiro a café forte e a cera espalhada pela madeira do soalho. Pararam no preciso momento que o empregado do café lhes disse que precisava fechar e foi quando deram conta que não estavam sós no mundo. Abraçaram se e cada qual seguiu para a casa que não era a sua para que a memória não os atraiçoasse. Nasceram e cresceram numa ode profunda ao que de mais belo se faz num espaço neutro, seja ele qual, for porque não existe espaço mais belo e mais aconchegador do que aquele onde a alma cabe e o coração se aquieta. Aí é onde residimos quando nos sentimos bem. Foi então ali, naquele pequeno céu que diabolizaram as suas vontades de tal forma que até os querubins colocaram uma mão á frente da boca esbugalhando os olhos e olhando uns para os outros soltaram uma estridente gargalhada.

O Inquilino

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